Política e Resenha

ARTIGO – (A Exaustão de um Projeto: Quando a Tradição Precisa de Renovação)

 

 

(Padre Carlos)

A leitura dos números é direta e implacável: um sistema político que se apoia nas mesmas biografias por quase cinco décadas começa a dar sinais claros de fadiga. Lúcia Rocha lidera com 18,46% — sem mandato, com uma campanha anterior marcada por controvérsias e escolhas polêmicas — e, mesmo assim, aparece à frente. Waldenor oscila entre 15% e 18% (estimado aqui em 16,5%) e Zé Raimundo acumula apenas 11,16%, apesar de toda a infraestrutura governamental que lhe poderia favorecer. Esses indicadores não são ruídos: são sintomas.

Primeiro, a distribuição do eleitorado mostra dois vetores preocupantes para o projeto tradicional: alto índice de rejeição (30,28%) e um bloco significativo de indecisos (20,05%). Mais da metade do eleitorado está, portanto, em aberto — ou hostil aos nomes oferecidos. Quando mais de 50% do eleitorado não está firmemente com os candidatos do grupo, a hipótese de renovação se fortalece. Lúcia ocupa um espaço aberto: ela representa tanto desalento com os nomes tradicionais quanto a busca por alternativa.

Segundo, a trajetória política de Waldenor e Zé Raimundo confirma carreiras de vitórias e conquistas — reitor, deputado estadual e federal, prefeito — mas a própria longevidade torna-se fator de desgaste. A lógica do ciclo político é inexorável: instituições e projetos que não se renovam perdem capacidade de mobilizar. A queda de intenção de voto para o parlamento e as derrotas sucessivas para a prefeitura são sinais de que a base social do projeto está encolhendo — não necessariamente por culpa exclusiva dos nomes, mas pela recusa do eleitor em reproduzir fórmulas já experimentadas.

Terceiro, a liderança de Lúcia Rocha, embora sólida no topo com 18,46%, é frágil e não intransponível. É preciso destacar que essa votação não vem do campo da esquerda; ao contrário, reflete um eleitorado majoritariamente de centro-direita e com perfil conservador, pouco propenso a ser transferido caso a ex-vereadora não dispute o pleito. Com quase 51% do eleitorado ainda aberto a alternativas (somando indecisos e rejeição), o cenário segue instável e sujeito a reviravoltas. Uma campanha mais intensa, a apresentação de propostas concretas ou mesmo erros estratégicos de adversários podem redesenhar completamente o quadro. Para Waldenor e Zé Raimundo, o desafio é duplo: (a) recuperar a narrativa de renovação sem abrir mão da identidade que os legitimou; (b) transformar a força de sua estrutura política em persuasão real — convertendo capital político e máquina eleitoral em votos efetivos entre os indecisos.

Por fim, a estratégia correta diante deste cenário exige humildade e escuta. Em vez de insistir apenas em argumentos de continuidade, é hora de rejuvenescer quadros, trazer lideranças locais com apelo e ajustar a pauta para problemas concretos que toquem o eleitor: saúde pública, serviços municipais, emprego e segurança. A eleição para prefeito foi uma radiografia — a pulverização e a rejeição mostraram que o eleitor não aceita mais montar novamente o tabuleiro do jogo sem novas peças. Renovar não é trair a história; é preservar o projeto a longo prazo.

Concluir esse capítulo não é render-se — é reconhecer que toda trajetória, por mais brilhante que tenha sido, precisa de um ponto final digno. Waldenor e Zé Raimundo lutaram o bom combate, deixaram marcas profundas na história política de nossa cidade e região, mas a política, como a vida, exige ciclos. Há um momento em que a grandeza está em saber sair de cena para que o novo possa surgir, com energia, ideias e esperança renovadas. Guardar as armas, neste caso, não é abandonar a causa, mas permitir que outros a empunhem, garantindo que o projeto não morra por falta de oxigênio. Saber a hora de partir é, também, uma forma de permanecer para sempre.