
Padre Carlos
Há uma imagem de Deus que atravessou séculos de religiosidade: um Deus sentado em seu trono, distante, severo, contando nossos erros e esperando o momento de nos cobrar cada pecado cometido.
Mas então apareceu Jesus.
E, com Ele, alguma coisa mudou radicalmente na maneira como o ser humano poderia olhar para Deus.
Jesus não veio simplesmente falar sobre Deus. Ele veio revelar o rosto do Pai.
E o rosto que encontramos nos Evangelhos não é o de um Deus que sente prazer em condenar. É o rosto de um Pai que procura. Que espera. Que corre ao encontro. Que abraça. Que perdoa.
É o rosto da misericórdia.
Talvez seja justamente essa uma das maiores revoluções provocadas por Cristo.
A religião, muitas vezes, construiu escadas para que o homem pudesse chegar até Deus. Criou regras, protocolos, ritos, classificações, fronteiras entre puros e impuros, santos e pecadores, dignos e indignos.
Jesus fez o contrário.
Ele desceu.
Desceu até os pobres, os doentes, os pecadores, os excluídos, os publicanos, as prostitutas, os leprosos, os estrangeiros, os que carregavam no corpo e na alma as marcas da rejeição.
Ele não ficou esperando que os pecadores se tornassem dignos para depois recebê-los.
Foi ao encontro deles.
É por isso que uma das frases mais extraordinárias do Evangelho talvez seja aquela que aparece na parábola do filho perdido.
O rapaz abandona a casa do pai, desperdiça a herança, mergulha numa vida desordenada e, quando já não tem mais nada, decide voltar.
Ele ensaia seu discurso:
“Pai, pequei contra o céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho.”
Mas o pai não espera o discurso terminar.
O Evangelho diz que, quando o pai o viu de longe, correu ao seu encontro.
Que Deus é esse?
É o Deus que Jesus veio revelar.
Um Deus que não pergunta primeiro quanto o filho perdeu.
Não começa fazendo uma auditoria moral.
Não exige explicações antes do abraço.
Ele abraça.
Depois manda trazer a melhor roupa, colocar um anel em seu dedo e preparar uma festa.
Porque, para aquele pai, o que estava perdido foi encontrado.
O que estava morto voltou à vida.
É impossível compreender plenamente o cristianismo sem compreender a misericórdia.
Jesus poderia ter escolhido uma multidão de discursos teológicos para explicar quem é Deus. Mas preferiu contar histórias.
Uma ovelha perdida.
Uma moeda perdida.
Um filho perdido.
Em todas elas existe a mesma lógica:
Deus não se conforma com a perda.
Ele procura.
Ele espera.
Ele chama.
Ele acolhe.
Ele restaura.
E aqui está uma diferença fundamental entre o Evangelho de Cristo e uma religião reduzida à aparência.
A religião pode estar preocupada com a imagem.
Jesus está preocupado com a pessoa.
Os religiosos do seu tempo conheciam a Lei. Jesus também conhecia.
Eles conheciam as Escrituras. Jesus também conhecia.
Eles sabiam os mandamentos. Jesus não os ignorava.
Mas havia algo que Jesus percebia e que eles frequentemente esqueciam: nenhuma doutrina pode substituir o amor.
Por isso Jesus foi tão duro com a hipocrisia.
“Sepulcros caiados.”
A expressão é brutal.
Por fora, beleza.
Por dentro, morte.
Jesus não atacava a fé. Atacava uma religiosidade que transformava a fé em instrumento de superioridade moral.
E essa advertência continua atual.
Porque também podemos transformar Deus em propriedade particular.
Podemos criar um cristianismo em que Deus pertence ao nosso grupo, à nossa igreja, à nossa tradição, à nossa ideologia.
Podemos usar o nome de Jesus para condenar aqueles de quem discordamos.
Podemos falar muito de pecado e pouco de misericórdia.
Podemos defender a verdade e esquecer a caridade.
Podemos frequentar templos e continuar incapazes de reconhecer o irmão que está caído à nossa frente.
E então surge a pergunta incômoda:
Será que estamos seguindo Cristo ou apenas defendendo um sistema religioso?
Jesus curou no sábado.
Não porque o sábado não tivesse valor, mas porque a vida humana tinha precedência sobre uma interpretação desumana da norma.
Jesus tocou leprosos.
Conversou com estrangeiros.
Sentou-se à mesa com pecadores.
Perdoou.
Acolheu.
Chorou.
Teve compaixão.
E, diante de uma multidão que queria apedrejar uma mulher, não transformou sua condenação em espetáculo religioso.
Cristo não veio para dizer que o pecado não existe.
Veio mostrar que o pecado não precisa ter a última palavra.
Essa diferença é extraordinária.
A misericórdia não significa dizer que tudo está certo.
Misericórdia significa acreditar que ninguém precisa ser reduzido ao pior erro de sua vida.
O ser humano pode cair e levantar.
Pode errar e recomeçar.
Pode afastar-se e voltar.
Pode perder-se e ser encontrado.
Porque o Deus revelado por Jesus não é um contador de pecados.
É um Pai.
E talvez seja justamente isso que ainda não conseguimos compreender.
Queremos um Deus que confirme nossas certezas.
Jesus nos apresenta um Pai que desafia nossas certezas.
Queremos um Deus que ame os nossos e castigue os outros.
Jesus apresenta um Pai que “faz nascer o sol sobre maus e bons”.
Queremos justiça quando somos vítimas e misericórdia quando somos culpados.
Jesus nos chama para algo muito mais difícil: aprender a ser misericordiosos como o Pai é misericordioso.
Essa é a grande revolução cristã.
Não basta acreditar na misericórdia de Deus.
É preciso tornar-se instrumento da misericórdia de Deus.
Porque a misericórdia recebida precisa transformar-se em misericórdia oferecida.
Quem foi perdoado precisa aprender a perdoar.
Quem foi acolhido precisa aprender a acolher.
Quem caiu e foi levantado precisa ter cuidado para não pisar naquele que ainda está no chão.
Talvez o mundo esteja cansado justamente de uma religião que sabe apontar o dedo, mas desaprendeu a estender a mão.
O mundo precisa reencontrar o Cristo que olha para Zaqueu e diz: “Hoje preciso ficar em tua casa”.
O Cristo que olha para Pedro depois da negação e não o reduz à sua covardia.
O Cristo que, na cruz, ainda encontra forças para pedir ao Pai perdão para aqueles que o crucificam.
E é diante da cruz que compreendemos a dimensão mais profunda da misericórdia.
Deus não ficou distante do sofrimento humano.
Em Cristo, entrou nele.
Sentiu a dor.
Conheceu a rejeição.
Experimentou a injustiça.
Foi abandonado.
Foi humilhado.
E, mesmo assim, respondeu ao ódio com amor.
Por isso, quando alguém me pergunta quem é Deus, eu poderia recorrer a tratados de teologia.
Mas prefiro olhar para Jesus.
Porque foi Jesus quem nos ensinou a chamar Deus de Pai.
E esse Pai continua esperando.
Não com os braços cruzados.
Mas com os braços abertos.
Talvez você tenha se afastado.
Talvez carregue culpa.
Talvez tenha cometido erros que ninguém conhece.
Talvez tenha sido ferido pela própria religião.
Talvez tenha perdido a esperança de recomeçar.
Olhe para o Evangelho.
A última palavra de Deus sobre você não é necessariamente o seu fracasso.
A última palavra é a misericórdia.
O Pai continua na porta.
Continua olhando para a estrada.
Continua esperando.
E quando o filho volta, não pergunta primeiro por que demorou tanto.
Corre para abraçá-lo.
Esse é o Deus que Jesus Cristo nos revelou.
Não um Deus menor do que a justiça.
Mas um Deus cuja justiça é atravessada pelo amor.
Não um Deus indiferente ao pecado.
Mas um Deus que ama o pecador o suficiente para oferecer-lhe a possibilidade de uma vida nova.
Não um Deus que exige que subamos até Ele.
Um Deus que, em Cristo, desceu até nós.
E talvez o maior desafio para nós, cristãos, seja exatamente este:
Se recebemos tanta misericórdia do Pai, por que ainda somos tão econômicos em oferecê-la aos outros?
Essa é uma pergunta que não deveria ser feita apenas aos religiosos.
Deveria ser feita a todos nós.
Porque, no fim, talvez a verdadeira conversão não seja simplesmente aprender a falar mais sobre Deus.
Talvez seja aprender a amar como Deus ama.
E o Deus que Jesus nos apresentou é misericordioso.
Infinitamente misericordioso.
Um Pai que não desiste dos seus filhos.
Um Pai que procura os perdidos.
Um Pai que acolhe os que retornam.
Um Pai que transforma o arrependimento em recomeço.
Um Pai que ainda hoje abre os braços para nós.
Padre Carlos




