
A sessão desta quarta-feira (29) na Câmara Municipal de Vitória da Conquista não foi apenas mais um capítulo da rotina legislativa. Foi, isto sim, a exposição crua — quase didática — de uma fragilidade política que já deixou de ser episódica para se tornar estrutural: a incapacidade da oposição de se comportar como oposição.
A aprovação do pacote de reestruturação administrativa encaminhado pela prefeita Sheila Lemos, que inclui a criação de 74 cargos comissionados, precisa ser lida para além da contabilidade fria dos votos. O placar de 13 a 7 não traduz apenas uma vitória do Executivo. Ele escancara, sobretudo, uma derrota qualitativa da oposição — e derrotas qualitativas, na política, são as que mais custam a ser revertidas.
Note-se: tratava-se de uma matéria naturalmente controversa. Ampliação de cargos, redesenho da máquina pública, reconfiguração de espaços de poder — temas que, em qualquer ambiente minimamente organizado, servem como combustível para a atuação firme de quem se propõe a fiscalizar e tensionar o governo. Havia, portanto, o cenário. Havia o enredo. Faltou o protagonista.
E o dado mais eloquente talvez nem esteja entre os votos favoráveis ao governo, mas entre os votos contrários vindos da própria base governista. Três vereadores da situação romperam o alinhamento automático e sinalizaram desconforto. Em política, isso não é detalhe — é oportunidade. É fissura. É o tipo de movimento que, quando bem explorado, altera correlação de forças.
Mas o que fez a oposição diante disso? Assistiu.
Sim, assistiu.
Porque oposição não é um ajuntamento circunstancial de descontentes. Oposição é método. É estratégia. É construção de maioria possível. E, acima de tudo, é unidade mínima para transformar divergência em força política.
O que se viu, no entanto, foi o oposto disso. Enquanto o governo operava com pragmatismo — reunindo apoios, consolidando votos, avançando com clareza de objetivo — a oposição permanecia dispersa, incapaz de transformar um ambiente potencialmente favorável em resultado concreto.
E aqui se impõe uma distinção essencial: coerência individual não substitui articulação coletiva. Parlamentares que votaram contra o projeto até podem reivindicar consistência em suas posições. Mas política não se resolve no plano moral da consciência isolada. Resolve-se na arena da construção de força.
É justamente aí que reside o ponto crítico.
A oposição até consegue, vez ou outra, captar sinais de desgaste dentro da base governista. Identifica ruídos, percebe desconfortos, enxerga contradições. Mas não consegue organizar esses elementos em uma engrenagem eficaz de enfrentamento. Falta-lhe coesão. Falta-lhe direção. Falta-lhe, em última instância, vocação para o poder.
O resultado, portanto, não surpreende. O governo avança — mesmo sob questionamentos legítimos — porque encontra, do outro lado, não um bloco estruturado de resistência, mas um conjunto fragmentado de vozes que não convergem.
E política, convém lembrar, não premia intenções. Premia organização.
O episódio deixa uma lição que não admite retórica evasiva: não basta estar certo no argumento se se está errado na estratégia. Não basta denunciar se não se tem capacidade de mobilizar. E, sobretudo, não basta contar com divisões alheias quando não se é capaz de superar as próprias.
A política é, antes de tudo, uma disciplina de método.
E, em Vitória da Conquista, a oposição segue errando justamente no que deveria dominar: o básico.




