
Por Padre Carlos
Há momentos na vida pública em que o barulho fala mais alto que os fatos. E, quando isso acontece, a verdade costuma ser a primeira vítima. O episódio envolvendo o vereador Ricardo Gordo é um desses casos em que a análise precisa ser feita com serenidade — e não sob o calor das paixões partidárias ou da pressa de certos julgamentos midiáticos.
O ponto central é simples, embora tentem torná-lo complexo: não houve fechamento de questão por parte do partido. E, quando um partido não fecha questão, abre-se — por princípio democrático — o espaço legítimo para a liberdade de consciência e de voto do parlamentar. Isso não é rebeldia. Isso é democracia funcionando.
Transformar essa liberdade em “desvio” ou “traição” é desconhecer — ou deliberadamente ignorar — o papel institucional de um vereador. O mandato não é um instrumento de obediência cega. É, antes de tudo, uma responsabilidade pública que exige análise, diálogo e decisão baseada na realidade concreta da população.
Ricardo Gordo, ao que tudo indica, fez aquilo que se espera de um representante eleito: decidiu. E decidiu dentro da legalidade política que lhe foi dada. Discordar do voto é legítimo. Criminalizar a decisão, não.
Mas há algo ainda mais preocupante nesse episódio: o comportamento de parte da imprensa. Em vez de cumprir seu papel de informar, contextualizar e ouvir os dois lados, alguns setores parecem ter assumido o papel de juízes — não de jornalistas.
Há uma diferença essencial entre noticiar e sentenciar. Entre informar e acusar. E essa linha, infelizmente, tem sido atravessada com frequência perigosa.
O jornalismo que se presta a ser tribunal abandona um dos seus pilares mais sagrados: o contraditório. Não se constrói uma narrativa séria ignorando a versão do outro lado, nem se fortalece a democracia com manchetes que já vêm carregadas de veredicto.
Isso não é jornalismo. Isso é militância travestida de informação.
E quando a informação perde sua neutralidade, quem perde é a sociedade. Porque deixa de ter acesso à verdade para consumir versões — muitas vezes moldadas por interesses que pouco têm a ver com o interesse público.
O debate sobre o projeto aprovado pode — e deve — existir. Questionamentos sobre impacto financeiro, estrutura administrativa e prioridades de governo são legítimos. Mas esse debate precisa ser feito com responsabilidade, honestidade intelectual e respeito às instituições.
O que não se pode aceitar é a tentativa de reduzir um ato político legítimo a um espetáculo de condenação pública.
No fundo, a questão é maior do que um voto ou um vereador. Trata-se de defender princípios: a liberdade do mandato, a autonomia política e a integridade do processo democrático.
Se começarmos a punir quem pensa diferente dentro das regras do jogo, estaremos abrindo caminho para algo muito mais perigoso do que qualquer projeto de lei: o enfraquecimento da própria democracia.
E isso, definitivamente, não pode ser aprovado.




