Política e Resenha

ARTIGO – A Política do “Todo Mundo Pecou”, Mas Uns Pecam com Nota Fiscal

 

 

Padre Carlos

 

Na política brasileira, especialmente na versão baiana do enredo, não existe pecado sem recibo nem aliança sem compensação. Quem ainda acredita em fidelidade ideológica, coerência programática ou compromisso ético duradouro precisa urgentemente atualizar o software mental. O sistema operacional atual atende por um nome simples e bastante honesto: toma-lá-dá-cá.

Quem esperava que o comportamento do senador Angelo Coronel fosse semelhante ao da ex-senadora e deputada Lídice da Mata está, como diria o povo, redondamente enganado. Não se trata de caráter, temperamento ou biografia política; trata-se de método. Lídice sempre fez política com convicções — concorde-se ou não com elas. Coronel, por sua vez, faz política com planilhas. Ideologia, nesse caso, é apenas um acessório decorativo, usado em discursos de ocasião e descartado na primeira curva do pragmatismo eleitoral.

O senador resolveu resumir a crise da base governista com uma frase digna de absolvição coletiva: “Todo mundo pecou.” Pronto. Está instaurada a nova teologia política brasileira: ninguém é culpado, todos erraram, logo ninguém deve pagar a conta. Um pecado ecumênico, amplo, geral e irrestrito — mas curiosamente seletivo quando chega a hora de abrir mão de espaços, cargos e candidaturas.

Enquanto isso, o PT segue carregando aliados como quem carrega mala sem alça, com tornozeleira política invisível e o nariz torcido, fingindo que nada está acontecendo. É o preço do pragmatismo político na política brasileira: para manter a governabilidade, aceita-se tudo; para manter a base, engole-se qualquer discurso; para manter o poder, sacrifica-se a ideologia no altar da conveniência.

Não existe base política sólida quando o cimento é o interesse momentâneo. Não existe aliança verdadeira quando o contrato é verbal e o pagamento é parcelado. E definitivamente não existe discurso moral quando o critério é “se deu certo pra mim, está tudo certo”.

Coronel reage com indignação às críticas, fala em arbitrariedade, clama por legalidade e repete que sua candidatura sempre foi pública e conhecida. De fato, ninguém pode cassar uma candidatura por decreto — mas também ninguém é obrigado a fingir surpresa quando o jogo se revela exatamente como sempre foi jogado.

O mais curioso é o tom de vítima adotado por quem domina com maestria o manual do sobrevivente político. Não fui eu, diz ele. Não disse isso, não larguei aquilo, não me intrometi acolá. Uma defesa elegante, quase bíblica, onde o pecado é sempre coletivo e a virtude, rigorosamente individual.

A crise da base do governador Jerônimo não nasceu ontem, nem foi gerada por um único ator. Ela é filha legítima de um modelo político que troca projeto por conveniência, ideias por cargos e discurso por tempo de televisão. Quando a ideologia vira moeda e a coerência vira obstáculo, o resultado é esse espetáculo tragicômico que agora se tenta explicar com frases de efeito.

No fim das contas, o PT paga o preço de ter acreditado que era possível domar o pragmatismo sem ser mordido por ele. Na política do “todo mundo pecou”, alguns saem absolvidos, outros crucificados — e quase todos reeleitos. Afinal, no grande confessionário da política brasileira, o perdão vem sempre antes da autocrítica, e a penitência nunca inclui abrir mão do poder.