Política e Resenha

ARTIGO – A queda de Ednaldo e o xadrez da exclusão nordestina na CBF (Padre Carlos)

 

 

 

 

A crônica política do futebol brasileiro sempre teve um roteiro previsível e uma geografia viciada: os donos do poder vivem entre o Rio de Janeiro e São Paulo. É dali que se orquestra o jogo bruto, com passes curtos de bastidores, dribles na legalidade e gols contra o Brasil profundo. A recente queda de Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF escancara o menosprezo sistemático às lideranças que emergem fora do eixo tradicional, especialmente quando elas brotam do sertão nordestino com sotaque firme e espinha ereta.

Ednaldo, nascido em Vitória da Conquista na Bahia, foi alvejado não apenas por articulações jurídicas, mas por um complô frio e estratégico dos “cartolas do asfalto”, aqueles que consideram o Nordeste um mero celeiro de craques e não uma fonte legítima de dirigentes. Não é coincidência que esta seja a segunda tentativa de excluí-lo do comando da CBF. A primeira, em dezembro de 2023, foi revertida apenas com a intervenção do Supremo Tribunal Federal, um recurso de última instância que, aliás, desagrada os barões do futebol, sempre avessos à fiscalização institucional.

Agora, com Fernando Sarney assumindo interinamente e novas eleições convocadas às pressas, o jogo de xadrez se intensifica. Samir Xaud, do longínquo — e politicamente discreto — estado de Roraima, surge como candidato único, quase um “peão dourado” movido no tabuleiro por mãos invisíveis. Ednaldo, cansado de enfrentar o sistema, decidiu não recorrer nem apoiar ninguém. Sua desistência é, em si, uma denúncia do processo viciado que se repete sob nova roupagem.

Esse movimento tem implicações profundas, inclusive na esfera técnica. A possível chegada do italiano Carlo Ancelotti como técnico da seleção agora paira sob incerteza. A CBF afirma que o contrato está mantido, mas o vácuo político pode implodir acordos e projetar um novo ciclo de instabilidade.

Mais do que a queda de um homem, o episódio de Ednaldo revela o fracasso do modelo de governança da CBF. Trata-se de uma entidade que opera sob a lógica feudal: presidentes são eleitos por presidentes de federações, com votos distribuídos em moedas simbólicas de lealdade e favorecimento. Os interesses do futebol brasileiro são reféns de uma elite anacrônica que recusa qualquer interferência vinda de fora do seu círculo.

A CBF precisa urgentemente de reformas. Mas enquanto as decisões continuarem sendo tomadas nos salões engomados do Sudeste, longe da realidade do torcedor comum, a queda de Ednaldo será apenas mais um capítulo do manual de exclusão das vozes nordestinas — vozes que, ironicamente, sempre deram alma e talento ao futebol do Brasil.