(Padre Carlos)
Há tempos que a política baiana aprendeu a conviver com fantasmas. Fantasmas de rupturas, de rearranjos e de velhos caciques que, mesmo longe da cadeira, ainda mexem peças no tabuleiro. A recente especulação de que “havia um golpe para tirar Jerônimo do páreo” talvez não passe de mais um desses espectros que rondam o Palácio de Ondina. Mas, como toda boa trama política, o rumor diz mais sobre os bastidores do poder do que sobre o fato em si.
Sim, havia — e ainda há — “viúvas de Rui Costa”. Viúvas políticas, apaixonadas pela gestão do ex-governador e pela figura do homem que saiu do governo com índices de aprovação invejáveis, reelegendo-se com mais de 70% dos votos e projetando-se nacionalmente como um dos principais ministros da Casa Civil de Lula. Essa ala do petismo baiano nunca escondeu o desejo de ver Rui novamente no comando do Estado. Não se trata de uma conspiração formal, mas de um saudosismo ativo, uma espécie de nostalgia política que, em determinados momentos, beira a tentação golpista — ainda que silenciosa e simbólica.
O desejo de retorno
A verdade é que, para muitos no PT, Rui Costa era o “nome natural” do poder. Se tivesse sido candidato ao Senado em 2022, teria se eleito com facilidade, surfando a popularidade da sua gestão. Mas ali havia uma barreira: Otto Alencar. O velho cacique do PSD, com seu espaço garantido, travou qualquer rearranjo que colocasse Rui na disputa. O resultado foi a solução que todos conhecem: Jerônimo Rodrigues, um nome leal, discreto e de perfil técnico, foi lançado como sucessor — e, com a força do grupo, venceu.
Mas a vitória de Jerônimo não encerrou as disputas.
De Brasília, onde Rui atua com poder e influência no Planalto, partem movimentos, recados e gestos que alimentam as especulações sobre o seu retorno à cena estadual. Isso incomoda aliados e dá combustível às “viúvas políticas” que sonham com o ministro de volta ao centro do palco baiano.
Jerônimo e a lógica da sucessão
No entanto, quem conhece o roteiro petista sabe que o partido segue uma lógica quase litúrgica de sucessão: Wagner foi eleito e reeleito; depois veio Rui, também com dois mandatos. Seria natural, portanto, que Jerônimo Rodrigues disputasse a reeleição em 2026.
Mais ainda: Jerônimo não é um governador passivo. Ele entendeu cedo que, no Brasil, quem desce do palanque perde o poder. Por isso, o governador não desceu. Mantém-se em campanha permanente — visitando três, quatro municípios por dia, multiplicando agendas, inaugurando obras e reforçando o vínculo com as bases.
A chapa dos sonhos (ou dos riscos)
O cenário que se desenha hoje é quase uma repetição da velha tática carlista dos tempos de Paulo Souto e ACM: uma chapa puro-sangue com Jerônimo na cabeça e Rui e Wagner disputando as duas cadeiras do Senado. A fórmula é tentadora e poderosa — mas também arriscada.
O PT ficaria com tudo, e os aliados, com nada. E é aí que o nó político se aperta. O PSD de Otto Alencar teria que abrir mão da vaga que historicamente ocupou. E Otto, embora diplomático, não é homem de aceitar ser empurrado para fora do jogo. O exemplo do senador Angelo Coronel, que vê seu espaço ser corroído, é um alerta. Ele vive agora o mesmo drama que Lídice da Mata experimentou em 2018: o da substituição silenciosa em nome de uma “composição superior”.
Mas toda “composição superior” tem limites.
O PSD é peça-chave não apenas na Bahia, mas na engrenagem nacional. E com Gilberto Kassab e Tarcísio de Freitas jogando pesado em São Paulo, Otto pode se ver pressionado a garantir um palanque alternativo — ainda que isso custe votos a Lula no segundo maior colégio eleitoral do Nordeste.
As viúvas e o perigo da implosão
As viúvas políticas de Rui Costa podem estar movidas pela paixão, mas a política exige cálculo. Insistir em reabrir a disputa interna — e sugerir o retorno de Rui ao governo — é brincar com fogo. Poderia significar uma implosão silenciosa do projeto petista baiano, algo que os carlistas esperam há décadas.
Jerônimo Rodrigues é o nome natural da reeleição, não apenas por estar sentado na cadeira, mas por encarnar a continuidade do ciclo de conquistas iniciado com Jaques Wagner em 2006. O governador tem se mostrado disciplinado, estrategista e atento às novas linguagens políticas, especialmente no interior. Subestimá-lo seria um erro político e histórico.
O jogo que vem
O tabuleiro da Bahia ainda tem muitas peças por mover. A chapa majoritária será um teste de lealdade e maturidade do grupo. Se Rui e Wagner mantiverem o foco na unidade, Jerônimo chegará forte a 2026. Mas se as viúvas continuarem a sussurrar nos bastidores e se Otto sentir que o PSD foi relegado a segundo plano, a base pode rachar — e abrir caminho para ACM Neto ou um novo nome de centro-direita.
A política baiana é feita de lealdades, mas também de ressentimentos.
Rui Costa, Wagner, Otto e Jerônimo formam um quadrado de poder que precisa manter-se coeso para resistir à pressão externa. Se o grupo esquecer a lição de 2006 — quando a unidade foi a chave da virada —, a história pode se repetir, mas em sentido inverso.
No fim, a pergunta que dá título a este artigo — “Havia um golpe para tirar Jerônimo do páreo?” — talvez deva ser substituída por outra:
Haverá unidade suficiente para mantê-lo nele?





