
(Padre Carlos)
A recente votação na Câmara dos Deputados que derrubou o decreto presidencial sobre o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) escancarou, mais uma vez, a fragilidade da coalizão que sustenta o governo Lula. Não se trata apenas de uma medida fiscal rejeitada. Trata-se da exposição de um governo dividido, enfraquecido e mal liderado no Congresso Nacional.
Com um placar devastador — 383 votos contra 98 — o Executivo sofreu uma derrota que revela dois pontos alarmantes:
1. O fracasso do modelo de coalizão com a direita liberal.
Partidos do centro e da direita que ocupam pastas importantes no governo, com espaço em ministérios e cargos estratégicos, votaram massivamente contra o próprio governo. Isso não é governabilidade, é sabotagem institucional. A manutenção dessa estrutura serve apenas para criar um teatro de pluralidade enquanto as decisões centrais são dinamitadas por dentro.
2. A crise de comando na liderança governista.
Mesmo setores progressistas e historicamente alinhados ao projeto de governo votaram contra. O que explica isso? Falta de articulação, ausência de diálogo e liderança incapaz de construir maioria sólida. O ministro Haddad ainda tentou um acordo para suavizar a medida, mas chegou tarde. A base já estava desmobilizada — ou hostilizada.
A medida derrubada tinha como objetivo elevar a arrecadação em um momento crucial para o equilíbrio fiscal do país. O IOF incide sobre operações de crédito, câmbio e previdência privada, e a tentativa do governo era aumentar a receita sem recorrer a cortes drásticos. Porém, sem apoio político e sem diálogo transparente, nem a melhor proposta sobrevive.
O episódio do IOF deve servir como alerta. O modelo de coalizão atual é uma bomba-relógio: acomoda adversários esperando lealdade que nunca vem. O governo precisa rever sua estrutura de apoio, reformular sua articulação e investir em uma liderança que saiba negociar, convencer e unificar.
A questão agora não é apenas tributária. É existencial: ou o governo recupera o protagonismo político, ou continuará vendo seus projetos ruírem diante de um Congresso que já não teme, nem respeita, o Planalto.




