Política e Resenha

ARTIGO – Como podemos levar a sério este Congresso

 

 

(Padre Carlos)

A pergunta não é retórica: como podemos levar a sério um Congresso que, enquanto o país patina em crise fiscal, educação sucateada, saúde colapsada e desigualdade crescente, decide ampliar o número de deputados federais de 513 para 531?

Num placar apertado de 41 a 35, o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei Complementar 177/2023, e o texto volta agora à Câmara dos Deputados – aquela mesma que pode se tornar mais cheia, mais cara e, possivelmente, ainda menos eficiente. A justificativa técnica? Atualização demográfica, dizem. Mas o que está mesmo em jogo é o velho jogo do poder: mais cadeiras significam mais influência, mais barganha, mais verbas públicas sendo diluídas entre partidos que muitas vezes sequer representam de fato os eleitores.

O destaque apresentado pelo senador Alessandro Vieira, que ao menos impede o aumento real de gastos, é um gesto de responsabilidade. Mas não anula o absurdo central: aumentar o tamanho da Câmara num momento de clamor social por mais responsabilidade, mais ética e mais eficiência é um tapa na cara do povo brasileiro.

O ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre, articulador incansável desse projeto, parece viver numa realidade paralela. Enquanto brasileiros fazem vaquinha para pagar cirurgia, lutam por vaga em UTI, enfrentam desemprego e violência, nossos congressistas gastam tempo e energia ampliando o próprio clube.

É simbólico. Este Congresso não enxerga o Brasil real. Vive encapsulado em suas bolhas de privilégios, regalias, emendas secretas e autoproteção. E o mais preocupante: a medida vem num momento em que o sistema político deveria discutir uma reforma séria, que diminuísse os gastos, a fragmentação partidária e a ineficiência. Em vez disso, caminha-se para o inchaço.

A pergunta inicial volta com mais força: como levar a sério um Congresso que se movimenta como se governasse um país escandinavo, e não uma nação em agonia social e fiscal?

Levar a sério? Não. Denunciar, pressionar, vigiar: esse é o nosso papel.