Política e Resenha

ARTIGO – “Corpos Feridos, Corpo de Cristo”

 

(Padre Carlos)

Corpos mutilados nas guerras. Corpos dilacerados nos cárceres das ditaduras. Corpos estraçalhados nos becos das cidades pelas balas do Estado e pelos fuzis dos cartéis. Corpos desprezados, silenciados, enterrados como lixo humano. É diante desses corpos — carne marcada pelo sofrimento, sangue derramado pela injustiça — que precisamos redescobrir o Corpo de Cristo.

Sim, o Corpo de Cristo — o mesmo que foi partido, pregado na cruz, esvaziado na humilhação — continua sendo ferido hoje. Mas muitos cristãos esqueceram que Ele está presente no corpo do preso torturado, da criança morta pela bala perdida, da mulher violentada pela força policial, do jovem assassinado por disputas do tráfico ou do poder. O Corpo de Cristo banalizado, ignorado, pisoteado.

Na Igreja primitiva, a Eucaristia não era espetáculo nem dogma abstrato. Era refeição partilhada, pão repartido nas casas, celebração entre irmãos. Quando os mártires iam morrer, levavam o pão como viaticum — o alimento para a última viagem. O corpo se encontrava com o Corpo. A carne ferida se unia ao mistério do amor que se entrega.

Com o tempo, a teologia foi se refinando, as heresias se combatendo, os sacrários se fechando. A festa de Corpus Christi nasceu para afirmar a presença real de Jesus na Eucaristia. Mas o que adianta proclamar essa presença real no pão eucarístico, se negamos essa mesma presença real nos corpos reais dos que sofrem? Se adoramos o Corpo na hóstia, mas desprezamos o corpo do pobre?

É na carne humana que Deus insiste em habitar. Do céu ao ventre de Maria. Da manjedoura à cruz. Da cruz ao pão. Do pão ao coração da comunidade. O Corpo de Cristo atravessa a história. E onde há dor humana, Ele está.

O pão eucarístico alimenta, sim. Mas não apenas o espírito. Ele provoca fome de justiça, sede de misericórdia, desejo de comunhão verdadeira. Pão partido que exige que partamos também a nossa vida. Sangue derramado que denuncia os ídolos que ainda hoje pedem sangue: o ídolo do poder, o ídolo do lucro, o ídolo da segurança armada.

Celebrar Corpus Christi é mais do que fazer procissões belas. É fazer passeatas de fé que enfrentem as feridas do mundo. É reconhecer que a Eucaristia, quando bem vivida, destrói as cercas, rompe os muros, reconcilia os inimigos, cura os traumas do passado e fortalece os passos no presente.

A Eucaristia é memória viva da paixão e ressurreição. É missão de paz, é clamor por vida plena. É protesto contra a injustiça. É gesto revolucionário de amor. Quando um cristão comunga, ele se compromete com o Reino. E o Reino de Deus é lugar onde “ninguém tenha demais e ninguém tenha de menos”. Onde a carne de ninguém mais seja descartada. Onde o sangue de ninguém mais seja derramado por omissão ou opressão.

No corpo massacrado do mundo, celebramos o Corpo glorioso do Ressuscitado. Quando lavarmos os pés uns dos outros, quando partilharmos o pão e a dor, quando deixarmos cair as máscaras da indiferença, então sim, haverá uma verdadeira procissão de fé. E Deus habitará novamente entre nós. Ele será o nosso Deus e nós seremos o seu povo. E não haverá mais morte, nem grito, nem dor.

Corpus Christi não é apenas festa litúrgica. É protesto contra a mutilação da dignidade humana. É esperança que caminha nas ruas. É amor que se dá em forma de pão.