Política e Resenha

Artigo de Opinião — Sarcasmo em Regime Fechado (ou quase)

 

 

 

Por Padre Carlos

 

Existe algo de profundamente tocante quando moradores de um condomínio de alto padrão em Brasília descobrem, de repente, o peso do sistema penal brasileiro. “Acabou o nosso sossego”, dizem. Ora, que tragédia! Que colapso civilizacional! Imagino que seja mesmo insuportável dividir o CEP com alguém que, veja só, está cumprindo pena.

Sim, estamos falando de Jair Bolsonaro, agora oficialmente promovido à categoria de “preso diferenciado com vista privilegiada”. Porque no Brasil até a prisão consegue ter versão premium.

E aqui eu falo de cátedra — não de opinião de sofá ou de indignação gourmet de rede social. Trabalhei no sistema prisional brasileiro. Vi de perto o que é cela superlotada, comida azeda, falta de assistência médica e gente esquecida pelo Estado como se nunca tivesse existido. Então, quando me dizem que há preocupação porque um condenado está usando tornozeleira em casa… me perdoem, mas é difícil não rir.

Ou melhor, rir com uma certa amargura.

Porque, sim, os moradores têm razão. Claro que têm. O problema não é o preso — é o tipo de preso. O Brasil nunca aceitou bem a ideia de igualdade quando ela desce do discurso e entra na prática. Preso “comum” pode. Preso com sobrenome famoso? Aí já é um incômodo social.

Mas vamos combinar: se é preso, é preso.

Não existe isso de “meu malvado favorito versão condomínio fechado”. O sistema prisional brasileiro já é desigual por natureza — criar categorias emocionais dentro dele é quase uma obra de ficção cômica. E olha que nem estamos falando de um roteiro da Pixar.

Aliás, o nível do debate chegou a um ponto tão… poético… que Flávio Bolsonaro reclamou que o pai “não tinha uma flor para admirar na cela”. Uma flor. Uma rosa para Bolsonaro.

Confesso que essa imagem me pegou.

Imaginem a cena: o homem condenado a mais de 27 anos de prisão, em regime fechado (mesmo que “adaptado”), olhando pela janela e suspirando pela ausência de um jardim. Enquanto isso, milhares de presos brasileiros olham para paredes mofadas, grades enferrujadas e, quando muito, um pedaço de céu recortado por concreto.

Mas claro, a grande injustiça nacional é a ausência de paisagismo.

O ministro Alexandre de Moraes, ao que parece, tentou manter um mínimo de coerência ao lembrar que prisão domiciliar não é férias prolongadas nem retiro espiritual. É exceção médica dentro de um regime que continua sendo fechado. Ou deveria ser, pelo menos no papel.

E aqui está o ponto que ninguém quer encarar de frente: o Brasil não sabe lidar com a ideia de que a lei deveria ser igual para todos. Porque quando ela chega perto de quem sempre esteve acima dela, vira escândalo, vira “perseguição”, vira crise no condomínio.

Enquanto isso, o sistema segue lotado de gente que nunca teve direito nem a uma visita digna, quanto mais a um jardim para contemplação.

Então, sim, moradores de Brasília, vocês estão certos em se preocupar.

Mas talvez não pelo motivo que imaginam.

Porque o verdadeiro problema não é a presença de um condenado no condomínio.

É o fato de que, no Brasil, ainda parece absurdo tratá-lo como um preso igual a qualquer outro.