
Há palavras que iluminam e outras que obscurecem. E há expressões que, de tanto serem repetidas fora de seu contexto original, tornam-se slogans vazios — ou, pior ainda, instrumentos de manipulação. Foi exatamente contra esse esvaziamento do sentido do sagrado que se insurgiu, com a autoridade profética que lhe é peculiar, o padre Júlio Lancellotti, durante missa celebrada em Salvador no Santuário de Santa Dulce.
Ao rebater o bordão “Deus acima de tudo”, utilizado de forma recorrente pelo bolsonarismo como uma espécie de selo divino para suas posturas políticas, o padre nos chama à coerência litúrgica, teológica e sobretudo ética. “Deus está no meio de nós” — é essa a proclamação da fé cristã, repetida em todas as celebrações eucarísticas. Não é um detalhe. É um princípio que define toda a espiritualidade do cristianismo: Deus não é um déspota sobre nossas cabeças, mas um Deus-conosco, Emmanuel, que caminha entre os pobres, que se deita nos colchões improvisados dos sem-teto, que se alimenta nos albergues, que é crucificado em cada corpo descartado pelas estruturas da desigualdade.
Ao afirmar que “não adianta dizer que Deus está acima se por um povo fica abaixo de nada”, Lancellotti nos recorda da essência do Evangelho: a radical opção preferencial pelos últimos. Ao denunciar o uso político de uma frase teologicamente inconsistente, ele também denuncia o projeto de sociedade que essa frase acaba legitimando: um modelo excludente, meritocrático, avesso à justiça social e incapaz de reconhecer a dignidade de quem foi lançado à margem.
Não é a primeira vez que o padre Lancellotti rompe com o protocolo do conforto e denuncia os “fariseus contemporâneos”. Sua pregação inclui, de forma cada vez mais urgente, o clamor pela taxação dos super-ricos e o fim de regimes de trabalho desumanos como o 6×1. Não se trata de ideologia política — trata-se de fidelidade ao Cristo crucificado. Quando ele afirma que “Jesus nunca quis coroa de ouro”, nos devolve ao centro da fé cristã: a solidariedade concreta com os sofredores. E quando afirma que “a única coroa foi a de espinhos”, ele está dizendo o óbvio que muitos querem esquecer — Deus não está no palanque, está na calçada.
O Brasil vive hoje uma profunda crise de significados. Palavras como “família”, “pátria”, “fé”, “Deus” foram sequestradas por uma lógica de exclusão. O combate à desigualdade social virou “comunismo”. A defesa da dignidade humana virou “lacração”. E as homilias transformaram-se, para alguns, em arenas de guerra ideológica — desde que, claro, sirvam à manutenção do poder.
Padre Júlio Lancellotti nos recorda que há outra forma de viver a fé: aquela que toca a carne do outro, que denuncia o sofrimento como escândalo social e não como fatalidade divina. Uma fé que não usa Deus como escudo, mas que permite que Deus nos desarme. Uma fé que não grita “acima de tudo”, mas sussurra — com reverência e compromisso —: “Ele está no meio de nós.”




