Política e Resenha

ARTIGO – Entre a Governabilidade e o Projeto de Nação: o Impasse da Esquerda no Governo Lula

 

(Padre Carlos)

A atual conjuntura política do Brasil é um desses momentos históricos em que os discursos revelam mais do que simples narrativas de ocasião: eles desnudam a essência das alianças e o peso da correlação de forças. A declaração de que o governo Lula é, de fato, um governo de base de centro-direita não é mera retórica. É uma constatação objetiva do arranjo político que viabilizou a vitória eleitoral e, sobretudo, a governabilidade. Mas a que custo?

Desde 2013, com o esgotamento do pacto lulista e as Jornadas de Junho, passando pelo golpe parlamentar que depôs Dilma Rousseff, o campo progressista no Brasil esteve acuado. Primeiro, defendeu-se da ruptura democrática; depois, da prisão de Lula; e, na sequência, da ascensão do bolsonarismo com seu projeto neofascista. Não houve tempo para reorganizar-se plenamente enquanto força política estruturada. Quem avançou foi a direita — cultural, territorial e ideologicamente. A esquerda, por sua vez, travou uma luta de resistência e sobrevivência.

A eleição de Lula em 2022, portanto, não foi a vitória de um projeto de esquerda, mas a derrota de um projeto autoritário. Foi o triunfo do anti-bolsonarismo, possível apenas por meio de uma ampla frente que incluiu de Marina Silva a Geraldo Alckmin, de Guilherme Boulos a Simone Tebet. Isso explica o caráter centrista da base aliada, e consequentemente, a moderação das reformas possíveis.

É preciso compreender que essa não é uma simples aliança tática. Ela redefine os limites da atuação política do governo. Quando a direita, mesmo compondo o governo, insiste em vender as estatais, em desvincular o salário mínimo e em desmontar o Estado de bem-estar social incipiente que temos, ela mostra que está no jogo com suas próprias cartas. A agenda de desconcentração de renda, defendida por setores do PT e da esquerda, esbarra diretamente nessa muralha ideológica que compõe a base da governabilidade.

Ainda assim, é inegável que o governo Lula III tem entregado resultados importantes: a PEC da Transição, a reforma tributária com o IVA, medidas microeconômicas que estimularam crescimento e reduziram o desemprego, e programas sociais que amenizaram a desigualdade. Mas nenhuma dessas conquistas foi fruto de um ambiente confortável. Cada avanço foi negociado palmo a palmo, às vezes com concessões indigestas, sempre sob o risco de instabilidade.

O que está em jogo é maior do que uma disputa por cargos ou prioridades orçamentárias. Estamos diante de dois projetos de país: de um lado, o projeto democrático e popular, que busca justiça social, redistribuição de renda, fortalecimento do SUS, da educação pública, da ciência e da soberania nacional; do outro, um projeto ultraliberal e autoritário, que articula desmonte do Estado, violência simbólica e real contra as instituições democráticas e uma visão de país subalterno aos interesses do capital financeiro e da geopolítica conservadora internacional.

As declarações recentes de Flávio Bolsonaro — condicionando a democracia a um eventual indulto para golpistas e ameaçando ministros do Supremo — escancaram esse projeto autoritário. Não se trata de retórica vazia: é uma ameaça concreta à ordem democrática. Ao mesmo tempo, revelam o quanto o bolsonarismo segue vivo e articulado.

Por isso, é urgente que a esquerda, mesmo dentro dos limites da aliança de governo, rearticule seu discurso, reconecte-se com as bases populares, invista na disputa cultural e recupere a ousadia programática. A eleição de Lula não pode ser o ponto de chegada; deve ser o ponto de partida para uma reconstrução nacional pautada por justiça social, democracia plena e soberania popular.

A esquerda precisa entender que a governabilidade não pode se transformar em rendição. O Brasil precisa, sim, de estabilidade, mas também de horizonte. A democracia não é um dado: é uma construção contínua. E o papel da esquerda é disputar o futuro — não apenas evitar o retrocesso.