Política e Resenha

ARTIGO – Entre o acelerador e o freio: a Igreja que não pode parar

 

 

Padre Carlos

Cobrir o Vaticano por décadas ensina algo fundamental: mais do que documentos, homilias ou gestos simbólicos, o que está em jogo em cada pontificado é uma determinada eclesiologia, isto é, uma visão concreta de Igreja, de poder, de povo de Deus e de missão no mundo. É isso que molda a vida cotidiana dos fiéis, orienta a pastoral, define alianças e estabelece até onde a Igreja está disposta a ir na sua fidelidade ao Evangelho.

O pontificado de Francisco pisou no acelerador da história. Não por imprudência, mas por urgência evangélica. Já o pontificado de Leão — ainda em seus primeiros movimentos — parece pisar no freio. Não creio que seja por conservadorismo. Ao contrário, vejo nele sinais de um Papa progressista, atento às complexidades do mundo contemporâneo. O problema não é o freio em si, mas o risco da imobilidade. A Igreja não pode ficar parada enquanto o mundo gira, as dores se multiplicam e as feridas se aprofundam.

Francisco compreendeu algo que muitos teólogos, pastores e militantes da fé vinham intuindo há décadas: a crise da Igreja não era apenas moral ou administrativa, mas profundamente eclesiológica. Tratava-se de escolher entre uma Igreja autorreferencial ou uma Igreja em saída; entre uma Igreja de normas e uma Igreja de pessoas; entre uma Igreja do poder e uma Igreja do cuidado.

Confesso: eu já não tinha esperança. Acreditava que a retórica de que o Espírito Santo “manda um Francisco de tempos em tempos” era apenas um consolo piedoso para tempos de frustração. Eu estava desapontado quando entreguei aquela carta a Dom Geraldo. A Igreja dos pobres estava desaparecendo. Muitos, como eu, haviam dado tudo: juventude, sonhos, energia, vocação. Trabalharam nas CEBs, nas pastorais sociais, nas periferias, acreditando num projeto de Igreja que, pouco a pouco, foi sendo substituído por outro — mais clerical, mais distante, mais confortável com as catacumbas do poder.

A decepção caiu como um peso insuportável. Ecoava em nós o grito do profeta: “Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos” (Ez 37,11). Era uma prostração espiritual, uma crise de sentido, uma sensação de abandono histórico.

Foi então que veio Francisco. E veio como ruptura. Não uma ruptura ideológica, mas evangélica. Para além do famoso cogito cartesiano — “penso, logo existo” —, Francisco recolocou o cristianismo sobre outro fundamento: “Sou amado, logo existo”. Essa afirmação não é poesia; é revolução. Ela desloca o centro da fé do mérito para a graça, do tribunal para o abraço, da culpa para a misericórdia.

Quando a revolução de Francisco foi anunciada, entendi que se tratava de uma primavera na Igreja. Tive certeza quando ele afirmou que ninguém deveria ter vergonha da ternura. Ali estava uma nova gramática teológica: a missão da Igreja não é vigiar, mas humanizar; não é excluir, mas curar; não é condenar, mas acompanhar. “Vejo com clareza que do que a Igreja precisa é de capacidade para curar feridas”, disse ele. E mais: acompanhar como o bom samaritano, que lava, limpa, consola e permanece.

Francisco recuperou algo que parecia perdido: a coragem de descer à noite do outro, como dizia Dom Celso, sem se perder. Caminhar com as pessoas na escuridão, dialogar, tocar as chagas reais da história. Isso não é fraqueza pastoral; é fidelidade radical a Jesus.

O Ano da Misericórdia não foi um evento isolado. Foi a explicitação de um novo paradigma. O Deus severo de antigos papados cedia lugar ao Deus misericordioso do Evangelho. Francisco sabia que as reformas estavam em marcha e, por isso, aquele ano não podia ser um parêntese. A misericórdia não é um intervalo na vida da Igreja; ela é a própria vida da Igreja. Tudo se revela na misericórdia, tudo se resolve no amor misericordioso do Pai.

Foi uma verdadeira ressurreição. A Igreja estava caída, sem fé em si mesma, com a vocação enfraquecida e o compromisso social esvaziado. Francisco ressuscitou o espírito, a missão, a opção pelos pobres, a defesa da dignidade humana. Ressuscitou a Igreja física, psicológica e espiritualmente.

É por isso que o momento atual exige discernimento e coragem. Se o pontificado de Leão pisa no freio para evitar rupturas bruscas, isso pode ser compreensível. Mas não pode significar recuo, silêncio ou neutralidade. A Igreja que Francisco recolocou em movimento não pode ser desacelerada a ponto de perder o rumo. A eclesiologia da misericórdia, da sinodalidade, da escuta e da opção pelos pobres não é um projeto pessoal de um Papa; é uma exigência histórica do Evangelho.

A Igreja não pode voltar ao conforto das sacristias nem à segurança dos palácios. O mundo continua ferido, desigual, violento e desesperado por sentido. E a Igreja, se quiser ser fiel a Jesus, precisa continuar caminhando. Não com medo, mas com ternura. Não com freio de mão puxado, mas com os olhos fixos na estrada da história. Amém.