Quarenta e oito anos militano na política na Bahia me ensinaram que os gestos, na política, nunca são apenas gestos. São códigos, recados, declarações que ecoam muito além do momento em que acontecem – ou deixam de acontecer. O episódio protagonizado pelo governador Jerônimo Rodrigues e pelo prefeito de Ilhéus, Valderico Júnior, durante o São João de Jequié, é um desses momentos que merecem reflexão cuidadosa.
Segundo relato do próprio prefeito ao radialista Vila Nova, o governador “passou a um palmo do meu rosto e não teve a coragem de me cumprimentar”. Para quem acompanha a política baiana há décadas, essa descrição ressoa como algo muito mais profundo que uma simples descortesia. É o retrato de um clima político que se deteriora enquanto problemas concretos se acumulam nas ruas da Bahia.
A política não se faz com bajulação, como bem sabem os veteranos desta seara. Mas também não se faz com omissões deliberadas ou gestos de desprezo institucional. O cumprimento entre autoridades públicas transcende a cortesia pessoal – é reconhecimento do mandato que cada um carrega, é respeito ao voto popular que os elegeu. Quando esse protocolo básico é quebrado, algo mais sério está em jogo.
E o que está em jogo, no caso específico de Ilhéus, é a vida de pessoas reais. A violência Bahia atinge níveis alarmantes, e Ilhéus virou palco de horror com episódios que chocam mesmo quem já viu de tudo nesta profissão. O caso das três mulheres assassinadas no bairro Jardim Atlântico é apenas a ponta do iceberg de uma crise de segurança pública que demanda ação imediata e coordenada entre os poderes.
A responsabilidade do governo estadual na gestão de segurança pública é constitucional e inescapável. Não há margem para debates acadêmicos quando famílias enterram seus mortos e comunidades vivem sob o terror da criminalidade descontrolada. O prefeito Valderico, ao cobrar “quase vinte anos e nenhuma solução tomada”, expressa uma frustração que transcende partidarismo – é o grito de uma cidade que implora por socorro.
A frieza do encontro em Jequié ganha contornos ainda mais graves neste contexto. Enquanto Ilhéus sangra, o diálogo entre os gestores parece congelado. O gesto político do governador – ou sua ausência – sugere um distanciamento perigoso entre quem tem o poder de implementar soluções efetivas para a crise de insegurança que assola não apenas Ilhéus, mas toda a Bahia.
Não se trata de defender A ou B, mas de cobrar responsabilidades claras. A população de Ilhéus não quer saber de picuinhas políticas quando mães temem pela vida dos filhos. Quer ver policiais nas ruas, investigações que cheguem a resultados, estratégias de segurança que funcionem. Quer ver seus representantes trabalhando juntos, não se evitando em festas juninas.
O ataque institucional que representa ignorar um prefeito eleito democraticamente é, na verdade, um ataque à própria democracia. É a negação do diálogo que deveria ser a essência da política republicana. É a prevalência do personalismo sobre o interesse público.
Este episódio do aperto de mão que não aconteceu talvez seja pequeno demais para ocupar as manchetes, mas grande demais em seu simbolismo. Revela um governo estadual que parece mais preocupado em manter distâncias políticas que em construir pontes para resolver problemas reais. Mostra um clima político empobrecido, quando a Bahia precisa de grandeza na gestão pública.
A política baiana merece mais que isso. Ilhéus merece mais que isso. Os cidadãos que acordam todos os dias temendo pela própria segurança merecem gestores que saibam, no mínimo, se cumprimentar com civilidade. Porque se não conseguem nem isso, como vão conseguir trabalhar juntos pela segurança de quem os elegeu?
O aperto de mão negado é metáfora de um diálogo que precisa ser urgentemente retomado. A política não se faz com bajulação, é verdade. Mas também não se faz com desprezo. Faz-se com responsabilidade, seriedade e, acima de tudo, com a coragem de olhar nos olhos de quem divide conosco a responsabilidade de governar para o povo.





