Política e Resenha

ARTIGO – O ESTADO QUE CRIMINALIZA A PRÓPRIA SOCIEDADE (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na história em que as palavras deixam de ser metáforas e passam a soar como sentenças. Chamar o Estado de criminoso não é apenas um recurso retórico — é um grito. Um grito que ecoa das periferias esquecidas, dos corredores lotados dos hospitais públicos, das filas invisíveis da justiça que nunca chega. É o retrato de um país onde a promessa constitucional de dignidade se dissolve diante da realidade.

O que acontece quando o Estado, criado para proteger, passa a ferir? Quando aquele que deveria garantir direitos se transforma no principal agente de sua negação? Não se trata apenas de corrupção, embora ela exista. Trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e, por isso mesmo, mais perverso: a normalização da injustiça como política pública.

No Brasil contemporâneo, o Estado falha — e falha sistematicamente. Falha na segurança, quando permite que territórios inteiros sejam dominados pelo medo. Falha na saúde, quando transforma o sofrimento em rotina e a espera em sentença. Falha na educação, quando abandona gerações inteiras à ignorância funcional. E falha, sobretudo, na justiça, quando aplica a lei com pesos diferentes, dependendo de quem está diante dela.

É nesse ponto que a acusação ganha força: não é apenas incompetência. É seletividade. É escolha. O Estado que prende com rapidez o pequeno infrator, mas arrasta processos de grandes escândalos por anos, está dizendo — ainda que em silêncio — quem realmente importa. E quem pode ser descartado.

A violência institucional, muitas vezes invisível para quem está no topo, é sentida na pele por quem vive na base. Ela não aparece apenas nos confrontos explícitos, mas nas decisões burocráticas, nos cortes orçamentários, na ausência de políticas públicas eficazes. É a violência do abandono. E o abandono, quando sistemático, também mata.

O mais inquietante é que esse modelo vai se naturalizando. A sociedade se acostuma. A indignação vira cansaço. E o cansaço abre espaço para o cinismo: “sempre foi assim”. Mas não, não deveria ser. Um Estado democrático não pode se permitir agir como uma máquina de exclusão.

Há uma responsabilidade moral que não pode ser ignorada. Governar não é apenas administrar números, é lidar com vidas. Cada decisão — ou omissão — carrega consequências concretas. E quando essas consequências recaem sempre sobre os mesmos, estamos diante de uma estrutura que não apenas falha, mas escolhe falhar.

Romper esse ciclo exige mais do que reformas técnicas. Exige coragem política e consciência coletiva. Exige que a sociedade volte a cobrar, a questionar, a não aceitar como normal aquilo que é, em essência, uma distorção grave do papel do Estado.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é se o Estado pode ser criminoso. A pergunta é: até quando vamos aceitar que ele seja?