Política e Resenha

ARTIGO – O Evangelho da Conveniência: Como a Política da Bahia Redescobriu Judas Sob Medida

 

(Padre Carlos)

Na política da Bahia, a teologia muda conforme a liturgia do poder. Há dias em que certos personagens são ungidos como promessa de redenção eleitoral; em outros, sem que tenham mudado uma vírgula de suas práticas, são lançados ao fogo como hereges. O caso de Zé Cocá é exemplar — não por sua singularidade, mas justamente por sua banalidade nos bastidores do poder.

Até ontem, era o “vice dos sonhos”. Hoje, com a mesma biografia, os mesmos gestos e a mesma trajetória, virou Judas. Não consta que tenha traído ninguém no sentido clássico do termo; apenas parece ter cometido o pecado capital da política contemporânea: escolher o lado “errado” na hora “errada”.

Convém reconstituir os fatos, porque a memória, em tempos de conveniência, costuma ser seletiva. Zé Cocá não surgiu como um corpo estranho ao sistema. Ao contrário, foi parte orgânica de uma engrenagem que sempre soube acomodar divergências quando elas serviam à governabilidade. Em um momento, foi adversário; em outro, parceiro útil. Recebeu investimentos, foi cortejado, teve sua gestão celebrada — tudo dentro da mais perfeita normalidade republicana, ao menos naquela versão do republicanismo que funciona quando convém.

E aqui entra o detalhe que merece atenção: o mesmo grupo político que hoje o acusa de traição não hesitou, no passado, em operar movimentos semelhantes quando isso favorecia sua própria articulação política. Mas, como se sabe, há uma diferença fundamental entre o gesto e o narrador do gesto. Quando o movimento parte do centro do poder, chama-se estratégia. Quando vem da periferia do jogo, vira deslealdade.

A transformação de Cocá em símbolo negativo diz menos sobre ele e mais sobre quem o acusa. Afinal, o que mudou? Não foi sua história, tampouco sua forma de fazer política. O que mudou foi sua utilidade. E, na política da Bahia — como em qualquer outro ambiente onde a governabilidade se constrói à base de alianças voláteis — utilidade é virtude. A perda dela, por outro lado, costuma ser rebatizada de falha moral.

É curioso observar como o discurso do republicanismo emerge com força justamente quando alguém decide não seguir o roteiro previamente escrito. Fala-se em princípios, em lealdade, em compromisso com projetos coletivos. Tudo muito nobre — ao menos no plano retórico. Porque, na prática, o que está em jogo é a clássica disputa por espaço, influência e sobrevivência nas eleições de 2026.

Nos bastidores do poder, ninguém ignora que Zé Cocá se tornou peça estratégica. Sua força regional, consolidada por uma votação expressiva, transformou-o em ativo político valioso. E ativos, como no mercado financeiro, não têm amigos — têm interessados. Quando valorizam, são disputados. Quando mudam de carteira, passam a ser vistos como risco.

Daí a rapidez com que o “gestor exemplar” se converteu em figura suspeita. A mesma trajetória que antes servia como argumento de legitimidade agora é reinterpretada como evidência de oportunismo. Não há, evidentemente, qualquer contradição nisso — ao menos não para quem entende que, na política, coerência é um bem altamente superestimado.

A ironia maior talvez resida no fato de que o rótulo de traidor costuma ser aplicado com especial vigor por aqueles cuja biografia política é marcada por alianças circunstanciais, rearranjos estratégicos e reconciliações improváveis. Mas, como ensina a experiência, a memória é um instrumento maleável — sobretudo quando o objetivo é preservar a narrativa conveniente.

Zé Cocá, nesse enredo, cumpre o papel clássico do personagem que ousa sair do script. Não é o primeiro, nem será o último. A política da Bahia já viu esse filme antes, com outros nomes e em outros contextos. A diferença é que, a cada nova edição, os protagonistas fingem surpresa, como se a dinâmica do poder fosse regida por códigos morais estáveis e não por interesses em permanente negociação.

No fim das contas, o episódio revela mais sobre a crise de alianças do que sobre qualquer suposta quebra de lealdade. Mostra um sistema que ainda se pretende moralmente superior, mas que reage com irritação quando suas próprias regras informais são usadas contra ele. E expõe, com certa elegância involuntária, o abismo entre o discurso público e a prática política.

Talvez Zé Cocá saia maior desse processo. Não necessariamente pelas urnas, mas pela simples condição de ter se tornado relevante o suficiente para incomodar. Na política, isso costuma ser um sinal inequívoco de sucesso.

Porque, no jogo do poder, a lealdade raramente é um valor absoluto. É, antes, uma variável dependente — ajustada conforme a conveniência de quem a reivindica. E, nesse sentido, Judas não é quem trai. É, quase sempre, quem deixa de ser útil.