Política e Resenha

ARTIGO — O Nordeste de João Grilo: fé em Nossa Senhora e esperança de um Brasil para os pobres

João Grilo, Nossa Senhora e o coração do Nordeste que não esqueceu os pobres

Por Padre Carlos Josaphat — colunista político

Há imagens que dizem muito mais do que parecem dizer. A montagem que coloca João Grilo ao lado de Nossa Senhora, com a pergunta sobre como o Brasil chegou a parecer uma cena de O Auto da Compadecida, tem humor. Mas também tem algo de profundamente sério.

Porque João Grilo é o povo.

É o sertanejo que aprendeu a sobreviver com pouco. É o trabalhador que enfrenta a seca, a pobreza, a desigualdade e o abandono. É aquele que, diante dos poderosos, muitas vezes só possui a inteligência, a coragem e a esperança.

E Nossa Senhora é a mãe. É a mulher pobre de Nazaré transformada, pela fé popular, em presença materna junto dos pobres, dos aflitos e daqueles que não encontram lugar nas estruturas do poder.

Talvez por isso essa imagem tenha encontrado tanta ressonância entre nós.

Uma fé que não separa vida e política

O Nordeste não separa facilmente fé e vida. Aqui, Nossa Senhora Aparecida, Padre Cícero, Nossa Senhora das Dores, Frei Damião, Irmã Dulce e tantos outros símbolos religiosos fazem parte da memória afetiva de milhões de pessoas. A religiosidade popular está nas procissões, nas romarias, nas pequenas capelas, nos terços rezados em família e nas promessas feitas em momentos de desespero.

Segundo levantamento recente publicado pela Folha de S.Paulo, o Nordeste continua sendo a região brasileira com maior proporção de católicos: cerca de 64% da população se declarava católica no Censo de 2022. A mesma reportagem mostra, entretanto, que a região também passou por forte crescimento evangélico e que a fé não determina automaticamente a escolha eleitoral.

Isso é importante. Porque o nordestino não precisa que ninguém lhe ensine a ter fé. Ele já tem. O que existe é uma relação muito particular entre a fé e a experiência cotidiana da pobreza, da luta e da esperança.

A memória social por trás do lulismo nordestino

E é nesse ponto que precisamos compreender a relação de uma parcela expressiva do povo nordestino com Luiz Inácio Lula da Silva. Não se trata simplesmente de uma relação partidária. Para muitos nordestinos, Lula se tornou uma representação política de uma época em que o pobre passou a ocupar um lugar mais visível na agenda do Estado.

O Bolsa Família, por exemplo, foi criado pela Lei nº 10.836, de 2004, unificando programas de transferência de renda que já existiam. O programa se transformou numa das principais políticas brasileiras de transferência de renda e permanece associado à memória dos governos Lula.

E existe uma razão concreta para isso. O pobre sabe o que significa colocar comida dentro de casa. A mãe sabe o que significa poder comprar o material escolar do filho. O trabalhador sabe o que significa encontrar emprego. O jovem da periferia sabe o que significa ter uma oportunidade que seus pais não tiveram.

Não estou dizendo que Lula seja responsável sozinho por todas as transformações sociais ocorridas no Brasil. Seria historicamente incorreto. Também não estou dizendo que todos os nordestinos pensam da mesma maneira. Mas seria igualmente errado ignorar a memória social que explica a força do lulismo no Nordeste.

Os números da região

Datafolha (julho, Nordeste): 62% Lula x 29% Flávio Bolsonaro

Aprovação ao governo Lula no Nordeste (setembro): 63,2% aprovam x 35,1% desaprovam

Entre católicos nordestinos: 57,3% aprovam x 38,5% desaprovam

Renda domiciliar per capita 2024: R$ 1.341 no Nordeste x R$ 2.069 na média nacional

Esses números não são uma ordem para ninguém votar em ninguém. São apenas um retrato de uma relação política que precisa ser compreendida. O Nordeste não ama Lula simplesmente porque Lula é Lula. Existe uma história por trás desse vínculo. Existe memória. Existe identidade. Existe reconhecimento.

E existe algo ainda mais profundo: o pobre nordestino conhece a linguagem de quem fala de fome. Quem já passou necessidade não escuta a palavra “pobreza” como uma estatística. Escuta como memória.

O pobre não quer esmola. Quer dignidade. Quer trabalho. Quer salário. Quer escola. Quer saúde. Quer aposentadoria. Quer comida na mesa. Quer que seus filhos tenham oportunidades melhores do que as que ele teve.

João Grilo, personagem e povo

E aqui o Brasil encontra novamente João Grilo. João Grilo não é o poderoso. Não é o dono da igreja. Não é o coronel. Não é o homem rico. João Grilo é aquele que está embaixo. É aquele que precisa encontrar uma saída quando os de cima já fecharam todas as portas.

Por isso Ariano Suassuna continua tão atual. Seu personagem não é apenas engraçado. Ele é uma representação literária de um povo que aprendeu a sobreviver numa sociedade profundamente desigual.

E talvez seja exatamente por isso que a presença de Nossa Senhora seja tão poderosa no universo de Suassuna. Quando João Grilo chega ao julgamento, ele não encontra apenas a lógica fria do poder. Encontra a misericórdia. Encontra alguém que olha para o ser humano por aquilo que ele é e não apenas pelo lugar que ocupa na sociedade. É uma imagem profundamente cristã. E profundamente nordestina.

Nossa Senhora não pertence a partido nenhum

Por isso considero perigosa a tentativa de transformar Nossa Senhora em patrimônio de qualquer corrente política. Nossa Senhora Aparecida não é da esquerda. Não é da direita. Não é do PT. Não é do PL. Não pertence a Lula. Não pertence a Bolsonaro. Ela pertence à história religiosa e cultural de um povo.

O dia 12 de outubro, inclusive, é feriado nacional consagrado oficialmente a Nossa Senhora Aparecida desde a Lei nº 6.802, de 1980.

E quando surgem nas redes sociais informações dizendo que determinado político pretende retirar Nossa Senhora de sua condição de Padroeira do Brasil, é preciso ter cuidado. A emoção pode ser legítima, mas a informação precisa ser verdadeira. No caso da polêmica recente, a atribuição dessa intenção a Flávio Bolsonaro foi negada por ele; a história que circulou nas redes remete a um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, posteriormente arquivado.

É justamente aí que entra o compromisso do jornalista e do cristão com a verdade. Não precisamos inventar um inimigo para defender Nossa Senhora. Não precisamos fabricar uma ameaça para defender os pobres. Não precisamos transformar a fé em instrumento eleitoral.

De que lado estamos quando encontramos o pobre?

O verdadeiro cristianismo já possui uma mensagem suficientemente revolucionária: dar pão a quem tem fome, acolher o estrangeiro, defender o pequeno, cuidar do doente, visitar quem sofre e colocar a dignidade humana acima do dinheiro. Essa tradição encontra enorme ressonância no catolicismo social e na história das Comunidades Eclesiais de Base, das pastorais sociais e da Teologia da Libertação.

É nesse ponto que vejo uma ponte entre a fé do povo nordestino e aquilo que poderíamos chamar de catolicismo progressista. Não porque todo católico nordestino seja progressista. Não é. A própria realidade mostra uma diversidade crescente de posições políticas e religiosas.

Mas porque existe, dentro da tradição cristã, uma pergunta que deveria incomodar qualquer pessoa que leve o Evangelho a sério: de que lado estamos quando encontramos o pobre? Essa pergunta é mais importante do que saber se alguém vota no PT, no PL ou em qualquer outro partido.

E talvez seja justamente por isso que tanta gente simples tenha desenvolvido uma identificação tão forte com Lula. Não necessariamente porque concorde com tudo o que ele faz. Não necessariamente porque ache perfeito o seu governo. Mas porque associa sua trajetória e seus governos a uma época em que o pobre passou a ser lembrado com mais força nas políticas públicas.

O próprio IBGE mostra que a pobreza brasileira caiu em 2024 e que os benefícios sociais tiveram impacto relevante nesse resultado; ainda assim, Nordeste e Norte permanecem com as maiores taxas de pobreza do país.

Portanto, ainda existe muito a fazer. O Nordeste não precisa de piedade. Precisa de desenvolvimento. Não precisa de discurso bonito sobre os pobres. Precisa de políticas públicas que mudem suas vidas. Não precisa de políticos que descubram Nossa Senhora apenas na época das eleições. Precisa de representantes que compreendam que governar é, antes de tudo, cuidar de gente.

João Grilo continua vivo

E aqui volto à fotografia. João Grilo olha para Nossa Senhora como quem sabe que a última esperança não está no poder dos homens. Talvez seja essa a grande lição que o Brasil precisa reaprender.

A fé popular não é propriedade de nenhuma ideologia. Mas o Evangelho tem lado. O lado do faminto. O lado do abandonado. O lado daquele que não tem voz. O lado da criança que precisa de escola. O lado da mãe que precisa de comida. O lado do trabalhador que precisa de salário digno. O lado do idoso que precisa de aposentadoria. O lado do doente que precisa do SUS.

E quando a política se aproxima desses homens e mulheres com políticas concretas de proteção social, é compreensível que eles desenvolvam vínculos, memórias e afetos políticos. É isso que precisamos compreender quando falamos do Nordeste lulista. Não é simplesmente uma região que vota em determinado partido. É uma região onde memória, pobreza, políticas sociais, identidade popular, religião e esperança se misturam de uma maneira que Brasília muitas vezes não consegue compreender.

Por isso, quando vejo João Grilo ao lado de Nossa Senhora, não penso apenas em uma piada sobre o Brasil. Penso no povo. Penso no sertanejo. Penso na mulher que acorda cedo para trabalhar. Penso no trabalhador que pega o ônibus lotado. Penso no aposentado que sustenta a família. Penso na criança que precisa de escola. Penso no nordestino que nunca perdeu a capacidade de acreditar.

E penso que talvez seja essa a maior força do nosso povo: quando tudo parece perdido, ele ainda olha para o céu. E continua caminhando. Com fé em Nossa Senhora. Com esperança em dias melhores. E, na política, escolhendo aqueles que, segundo sua própria experiência e memória, acredita que podem representar melhor seus interesses.

No fim, talvez Ariano Suassuna tivesse razão. O Brasil continua parecendo uma cena de O Auto da Compadecida. Só que João Grilo continua vivo. E Nossa Senhora continua olhando para ele.

Política
Nordeste
Fé e Sociedade
Ariano Suassuna

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha