Política e Resenha

Minha trajetória no movimento operário:

Memória • Fé • Movimento Operário

Fé, memória e compromisso com os trabalhadores

Por Padre Carlos

Há histórias que não pertencem apenas a quem as viveu. Elas se misturam à história de uma geração, de uma Igreja, de uma classe social e de um país. Quando olho para trás e revisito minha trajetória no movimento operário, não faço isso movido simplesmente pela saudade. Faço porque acredito que a memória também é uma forma de compromisso.

Uma das coisas que mais me inquietam hoje é perceber o quanto parte das novas gerações conhece pouco das lutas que ajudaram a construir direitos, organizações populares e espaços de participação. Mas seria cômodo responsabilizar apenas os jovens por essa ausência de memória. Minha própria geração também precisa reconhecer sua responsabilidade: talvez não tenhamos contado suficientemente nossas histórias, apresentado nossos personagens e transmitido aquilo que aprendemos no chão das comunidades, das fábricas, das pastorais e dos movimentos sociais.

Eu tive o privilégio de viver um período em que a formação cristã caminhava muito próxima da formação humana e social. Minha caminhada passou pelos movimentos da Ação Católica, especialmente pela Juventude Operária Católica (JOC), pela Pastoral Operária, pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, posteriormente, pela Comunidade de Vida Cristã (CVX).

Foi nesse ambiente que comecei a compreender que a fé não poderia ser reduzida ao interior de uma igreja. O Evangelho precisava encontrar a vida concreta das pessoas: o trabalhador, a família da periferia, o jovem, aquele que enfrentava dificuldades para sustentar sua casa e aqueles que se organizavam para transformar sua realidade.

Foi também nesse caminho que minha formação cristã se encontrou com a militância social e política. Vivi experiências que me levaram da JOC à CVX, da Pastoral Operária à participação na militância nas organizações de esquerda e, posteriormente, ao Seminário de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte.

Não foram capítulos isolados. Quando observo minha própria história, percebo um fio que atravessa todos eles: a convicção de que a vida cristã exige presença no mundo.

“A memória também é uma forma de compromisso. Recordar aqueles que vieram antes é impedir que suas lutas, experiências e testemunhos desapareçam.”

A Igreja que encontrei no chão da vida

Minha geração encontrou uma Igreja na qual muitos leigos, religiosos e sacerdotes compreendiam a necessidade de estar presentes nas questões sociais de seu tempo. Nas CEBs e nas pastorais sociais, a Bíblia era lida ao lado da realidade concreta das comunidades.

Não se tratava simplesmente de ensinar uma doutrina. Tratava-se também de formar pessoas capazes de compreender o mundo em que viviam.

Foi nesse ambiente que aprendi a enxergar o trabalhador não apenas como alguém que vende sua força de trabalho, mas como sujeito de sua própria história. Aprendi que dignidade, organização, solidariedade e participação não poderiam ser palavras vazias.

A Pastoral Operária e a JOC tiveram importância decisiva nessa formação. Sob a orientação dos jesuítas, especialmente do Pe. Comfa, S.J., tive contato com militantes cristãos que carregavam uma impressionante coerência entre aquilo em que acreditavam e aquilo que faziam.

Waldemar Rossi: uma referência que permanece

Entre esses militantes estava Waldemar Rossi.

Rossi, militante da oposição sindical metalúrgica de São Paulo e da Juventude Operária Católica, tornou-se para mim uma dessas referências que o tempo não consegue apagar. Sua trajetória estava ligada à organização dos trabalhadores e a um sindicalismo construído a partir da base.

Recordar Waldemar Rossi significa recordar também uma geração inteira de cristãos que não enxergava contradição entre rezar e lutar pela dignidade humana.

A memória daqueles companheiros permanece comigo porque eles não foram personagens de livros. Foram pessoas que encontrei, ouvi e com quem compartilhei uma caminhada.

Santo Dias e a fé que atravessou os portões da fábrica

Outra memória que considero indispensável é a de Santo Dias da Silva.

Operário metalúrgico, militante da Pastoral Operária, participante das Comunidades Eclesiais de Base e liderança popular, Santo Dias foi morto em 30 de outubro de 1979, durante um piquete de greve diante da fábrica Sylvania, em São Paulo.

Sua trajetória sintetiza muito daquilo que marcou a experiência cristã no movimento operário daquele período.

Santo compreendia que sua fé não terminava na celebração religiosa. Ela estava presente na fábrica, no bairro, na luta por transporte, nas reivindicações dos trabalhadores e na organização comunitária.

Essa talvez seja uma das maiores lições daquela geração.

Não havia necessidade de escolher entre ser cristão e estar ao lado dos trabalhadores. Para muitos de nós, uma coisa conduzia justamente à outra.

Santo Dias viveu isso até as últimas consequências. Quando foi morto, estava junto aos companheiros. Seu funeral, acompanhado por milhares de pessoas, ultrapassou os limites de uma despedida e se transformou também em manifestação pública diante da violência daquele período.

Por isso sua memória permanece.

Uma trajetória construída entre fé e militância

Etapa / referência Experiência Significado na trajetória
Ação Católica Formação cristã e social Contato com uma vivência cristã ligada às questões concretas da sociedade.
JOC Juventude Operária Católica Aproximação entre juventude, fé, formação e realidade dos trabalhadores.
CEBs Comunidades Eclesiais de Base Vivência comunitária da fé e reflexão sobre a realidade social.
Pastoral Operária Militância junto ao mundo do trabalho Aprofundamento da relação entre fé cristã, organização e dignidade dos trabalhadores.
CVX Comunidade de Vida Cristã Continuidade da caminhada espiritual e comunitária.
Militância política Participação em organizações de esquerda Encontro entre formação cristã, participação social e atuação política.
Filosofia e Teologia Seminário em Belo Horizonte Aprofundamento da formação filosófica, teológica e religiosa.

1979 — Santo Dias, operário e mártir da caminhada

Em 30 de outubro de 1979, Santo Dias da Silva participava de um piquete de greve diante da fábrica Sylvania, em São Paulo. Durante a mobilização dos metalúrgicos, foi atingido por um disparo policial e morreu aos 37 anos.

Sua memória tornou-se parte da história da Pastoral Operária, das Comunidades Eclesiais de Base, do movimento sindical e das mobilizações populares daquele período.

Quando uma fotografia faz uma vida inteira retornar

Há algum tempo, ao encontrar uma fotografia da época de minha militância na Pastoral Operária, fui transportado para décadas atrás.

De repente, retornaram os rostos, os encontros, as reuniões, as celebrações, os debates e os companheiros de caminhada.

Recordei a JOC. Recordei a Pastoral Operária. Recordei as CEBs. Recordei a CVX. Recordei minha participação política e o Seminário de Teologia em Belo Horizonte.

E compreendi novamente algo que aprendi ao longo da vida: existe diferença entre viver preso ao passado e buscar nele inspiração.

Não quero transformar minha juventude em uma espécie de idade de ouro na qual tudo era perfeito. Não era. Tivemos erros, contradições, derrotas e conflitos.

Mas tivemos também experiências que merecem ser transmitidas.

“A nostalgia pode nos fazer desejar tocar novamente aquilo que já passou. A memória, entretanto, pode permitir que aquilo que vivemos continue produzindo significado.”

É por isso que escrevo.

Nossa história não pode desaparecer

Hoje, quando observo a distância crescente entre muitos jovens e a história do movimento operário, das pastorais sociais e das organizações populares, sinto que aqueles de nós que viveram esse período têm uma responsabilidade.

Precisamos contar.

Precisamos dizer quem foram aqueles homens e mulheres.

Precisamos preservar aquilo que uma geração viveu, construiu e aprendeu.

Precisamos recordar as reuniões simples nas comunidades, os encontros de formação, as celebrações, as greves, as dificuldades, as amizades e as esperanças que atravessaram aquela geração.

Não para exigir que os jovens reproduzam nossas escolhas. Cada geração terá seus próprios desafios e deverá encontrar seus próprios caminhos.

Mas ninguém deveria precisar começar a história do zero.

Conhecer aqueles que vieram antes permite compreender de onde surgiram determinadas lutas, organizações e direitos. Permite também reconhecer erros e contradições e construir novos caminhos a partir da experiência acumulada.

É nesse sentido que revisito minha própria trajetória.

Não para dizer: “como tudo era melhor antigamente”.

Mas para dizer: “isso aconteceu, nós estivemos lá e existem histórias que merecem continuar sendo contadas.”

Minha caminhada no movimento operário ensinou-me que fé e vida não podem habitar mundos separados. Ensinou-me que o cristianismo ganha sentido quando encontra o sofrimento concreto do ser humano. Ensinou-me também que nenhuma transformação coletiva acontece sem organização, formação, solidariedade e memória.

Quando recordo Waldemar Rossi, Santo Dias e tantos outros companheiros, recordo também uma parte de mim.

Sou resultado daqueles encontros.

Sou resultado das comunidades por onde passei, dos companheiros que conheci, das discussões que enfrentei, das celebrações das quais participei e das experiências que me formaram.

O tempo passou. Muitos daqueles companheiros já partiram. Outros continuam caminhando. E nós também mudamos.

Mas algumas convicções permanecem.

Enquanto formos capazes de contar essas histórias, aqueles que fizeram parte delas continuarão presentes. E enquanto sua memória continuar provocando perguntas sobre dignidade, justiça, fé e compromisso com o próximo, aquela caminhada não terá terminado.

Por isso, ao revisitar minha história no movimento operário, não encerro este texto olhando apenas para trás.

Olho para frente carregando comigo todos aqueles que ajudaram a construir o caminho.

Waldemar Rossi, presente!

Santo Dias, presente!

E que permaneça viva a memória de todos os trabalhadores, cristãos e militantes que fizeram da própria existência um testemunho de compromisso com a dignidade humana.


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Pe. Carlos