
Há momentos na política em que um gesto, por mais simbólico que pareça, revela fissuras profundas que vinham sendo cuidadosamente ocultadas. A pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República pelo PSD é um desses momentos. Mal anunciada, já nasce cercada por silêncios, ausências e, mais grave ainda, por resistências explícitas dentro da própria legenda.
O que se vê não é apenas uma divergência pontual, mas um retrato claro de um partido que, embora robusto em sua capilaridade nacional, carece de unidade programática. No Nordeste — região estratégica em qualquer disputa presidencial — o projeto de Caiado simplesmente não ecoa. E política, como se sabe, não vive de anúncios, mas de adesões.
O caso de Fábio Mitidieri, em Sergipe, não deixa margem para interpretações ambíguas. Ao reafirmar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo diante da possível candidatura de um correligionário, ele não apenas faz uma escolha local — ele expõe uma realidade nacional: o PSD, em muitos estados, já tem lado definido. E não é o de Caiado.
Em Pernambuco, a postura de Raquel Lyra reforça esse cenário. Sua recente filiação ao PSD não significou alinhamento automático a um projeto presidencial do partido. Ao contrário, sua proximidade com Lula — inclusive em eventos de forte simbolismo popular como o Carnaval — sinaliza que, na prática, a política real se sobrepõe às decisões formais.
Na Bahia, a situação é ainda mais emblemática. O senador Otto Alencar foi direto: o partido no estado está fechado com Lula. E mais — deixou claro que essa decisão conta com o aval de Gilberto Kassab. Ou seja, não se trata de rebeldia regional, mas de uma estratégia que, na prática, esvazia qualquer pretensão de unidade nacional em torno de Caiado.
O que está em jogo aqui vai além de uma candidatura. Trata-se de um teste de coerência partidária. O PSD, conhecido por sua flexibilidade e pragmatismo, sempre operou como uma federação de interesses regionais. Mas há um limite entre a diversidade interna e a completa ausência de direção.
Caiado, por sua vez, enfrenta um desafio que não se resolve com discursos ou articulações de bastidores. Sua candidatura precisaria nascer como um ponto de convergência — mas, até agora, se apresenta como um ponto de tensão. E política presidencial exige exatamente o contrário: construção de consenso, capacidade de agregação e, sobretudo, legitimidade interna.
Há também um fator estratégico que não pode ser ignorado: o peso eleitoral do Nordeste. Ignorar ou subestimar essa região é, historicamente, um erro fatal em eleições nacionais. E, neste momento, o que se observa é um PSD nordestino alinhado a Lula, não por imposição, mas por cálculo político e leitura de realidade.
No fundo, o que este episódio revela é algo maior: a dificuldade dos partidos brasileiros em sustentarem projetos nacionais coesos. Em um sistema cada vez mais fragmentado, candidaturas não se impõem — elas precisam ser construídas com base em alianças reais, não formais.
A pré-candidatura de Ronaldo Caiado, portanto, já começa marcada por um paradoxo: é oficial no papel, mas contestada na prática. E na política, como na vida, o que vale não é o anúncio — é a sustentação.
Se nada mudar, o que se desenha no horizonte não é uma candidatura competitiva, mas um movimento isolado dentro de um partido que fala várias línguas ao mesmo tempo — e que, neste caso, parece não estar disposto a falar a língua de seu próprio pré-candidato.




