Política e Resenha

ARTIGO – O Tempo da Política e o Silêncio Estratégico da Sucessão

 

 

(Padre Carlos)

Mesmo com o calendário eleitoral ainda distante, o tabuleiro político de Vitória da Conquista já começa a se mover. As eleições municipais de 2028, embora formalmente longínquas, passaram a ocupar conversas de bastidores, análises de colunas políticas e, sobretudo, a imaginação dos pretendentes ao poder. Isso não é novidade na política brasileira: a sucessão nunca começa no dia marcado pela Justiça Eleitoral, mas no instante em que os grupos percebem que o poder é finito e o futuro precisa ser disputado.

A própria prefeita Sheila Lemos tem sido clara e correta ao afirmar que ainda é cedo para tratar da sucessão. E está certa. O tempo da política institucional não se confunde com o tempo da ansiedade pessoal. Quem governa, governa no presente; quem articula sucessão, se não tiver prudência, acaba antecipando conflitos, desgastando alianças e enfraquecendo o próprio projeto administrativo. Em política, o tempo não é neutro: ele favorece quem sabe esperar e pune quem se precipita.

Ainda assim, é impossível ignorar que o grupo comandado pela prefeita já abriga, de forma mais ou menos explícita, três nomes que buscam reconhecimento, espaço e, sobretudo, a unção política necessária para disputar a Prefeitura: Ivan Cordeiro, presidente da Câmara de Vereadores; o vice-prefeito, Dr. Alan; e o coronel Ivanildo. Todos com trajetórias respeitáveis, todos com legitimidade para desejar, mas nenhum com força real para vencer sem o apoio direto e inequívoco da prefeita Sheila Lemos.

Esse é um dado central da política conquistense que não pode ser romantizado. Vitória da Conquista não tem tradição de terceira via competitiva. Trata-se de uma cidade politicamente polarizada, onde os projetos vencedores sempre se estruturaram a partir de lideranças fortes, com capacidade de transferência de votos e construção de maioria social. Imaginar uma vitória fora desse eixo é mais exercício retórico do que análise concreta da realidade eleitoral.

Por isso, qualquer leitura honesta do cenário precisa reconhecer que a prefeita é, hoje, a grande fiadora do futuro político do seu grupo. Não apenas pelo cargo que ocupa, mas pelo capital político acumulado, pela máquina administrativa, pelas alianças construídas e pela capacidade de influenciar o eleitorado. O “tempo” a que ela se refere não é apenas cronológico; é político, simbólico e estratégico. É ela quem determina quando a sucessão deixa de ser ruído e passa a ser projeto.

Não cabe aqui fazer prognósticos, muito menos apostas pessoais sobre quem será o escolhido ou quais erros específicos cada pretendente vem cometendo. O que se pode afirmar, com segurança, é que vaidades desmedidas, disputas antecipadas e projetos individuais desconectados do projeto coletivo são o caminho mais curto para a derrota. A história política da Bahia — e de Vitória da Conquista em particular — é pródiga em exemplos de grupos que perderam o poder não por falta de votos, mas por excesso de ego.

Se a direita quiser continuar administrando a terceira maior cidade da Bahia, precisará compreender que sucessão não é corrida individual, mas construção coletiva. Exige unidade política, disciplina estratégica, leitura correta do cenário eleitoral e, acima de tudo, respeito à liderança que hoje comanda o processo. Sem isso, não haverá projeto, apenas fragmentos. E fragmentos, em política, raramente vencem eleições.

Vitória da Conquista observa. O eleitor também. E o tempo — esse velho e implacável juiz da política — saberá revelar quem entendeu o momento certo de falar e, principalmente, o momento certo de silenciar.