Política e Resenha

ARTIGO – Quando o Público Vira Propriedade Partidária: o Alerta que Não Pode Ser Ignorado

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na política brasileira em que a crítica atravessa o campo da disputa eleitoral e toca numa ferida estrutural do Estado. Quando o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, afirma que o PT “termina misturando o público com o privado”, ele não está apenas fazendo retórica de oposição: está vocalizando uma percepção que ecoa em amplos setores da sociedade e encontra respaldo em fatos concretos da vida institucional brasileira.

O caso das nomeações para os Tribunais de Contas, especialmente o TCM, é emblemático. Esposas de governadores, filhos de aliados políticos, parentes diretos de figuras centrais do poder ocupando cargos que deveriam primar pela independência, tecnicidade e controle rigoroso da coisa pública. É justamente aí que a fronteira entre o Estado e o partido se dissolve, criando uma confusão perigosa entre interesse público e conveniência política.

É fundamental reconhecer, com honestidade intelectual, que essa prática não é exclusividade do PT. A oposição, quando governou, também utilizou mecanismos semelhantes. O patrimonialismo é um vício histórico da política brasileira, atravessa governos, ideologias e partidos. No entanto, o que distingue o momento atual é a naturalização desse comportamento após duas décadas de hegemonia petista na Bahia e no plano nacional. O poder prolongado cria a ilusão de que o Estado pertence a um grupo político específico.

Nesse contexto, a crítica de ACM Neto ganha densidade política. Quando ele afirma que o PT já não consegue separar o que é público do que é partidário, ele aponta para um problema de cultura política, não apenas de estratégia eleitoral. A tentativa de impor uma chapa “puro-sangue”, reunindo Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner, simboliza essa lógica de concentração de poder, como se a alternância democrática fosse um detalhe dispensável.

A fala sobre “virar a panela” não é apenas uma metáfora eleitoral; é um chamado à ruptura com um modelo de governança que se fechou sobre si mesmo. Democracia saudável pressupõe alternância, oxigenação das ideias, limites claros entre governo, partido e Estado. Quando esses limites desaparecem, abre-se espaço para o aparelhamento institucional, para o enfraquecimento dos órgãos de controle e para a desconfiança generalizada da população.

O diálogo aberto por ACM Neto com o senador Angelo Coronel também revela uma movimentação estratégica mais ampla: a tentativa de reorganizar a oposição em torno de um projeto que vá além da simples negação do PT. Ao mesmo tempo, sinaliza que a política é feita de pontes, não apenas de muros, especialmente quando se trata de construir uma alternativa real de poder em 2026.

O que está em disputa não é apenas quem ocupará cargos, mas que modelo de Estado queremos: um Estado capturado por interesses de oligárquico, familiares e partidários ou um Estado a serviço da sociedade, com instituições fortes, independentes e republicanas.

No fim das contas, a crítica de ACM Neto acerta no essencial. Misturar o público com o privado, o Estado com o partido, é um erro grave — ainda que historicamente compartilhado por muitos. Reconhecer isso não é defender a oposição cegamente, mas afirmar um princípio básico da democracia: o poder é transitório, o Estado é permanente e pertence ao povo, não a famílias, partidos ou projetos pessoais.