
(Padre Carlos)
Há certos momentos na história em que as máscaras caem com estrondo. A mais recente declaração de Donald Trump, ao afirmar que agora sim “está mandando no mundo”, revela não só o grau de delírio imperial de um ex-presidente, como também a razão pela qual o Brasil precisa – com urgência – se descolar da órbita desse tipo de mentalidade.
O Financial Times destacou, com precisão jornalística, o posicionamento estratégico do Brasil ao dobrar sua aposta no bloco dos BRICS. E não se trata apenas de diplomacia comercial. É uma escolha civilizatória. Quando Trump ataca as relações do Brasil com países como China, Índia, Rússia e África do Sul, ele tenta impor uma lógica de submissão onde já não cabe mais colônia nem capacho.
Celso Amorim, assessor especial da Presidência, foi cirúrgico: “Trump não tem amigos nem interesses, só desejos”. Uma frase que sintetiza não apenas a tragédia da diplomacia americana sob o magnata, mas também a urgência do Brasil em buscar autonomia em sua política externa. Amorim ainda afirmou que nem nos tempos coloniais houve tamanha interferência nos assuntos internos brasileiros. E tem razão.
Trump tem demonstrado uma tendência perigosa: transformar os Estados Unidos numa república imperial, onde seus desejos pessoais – e não os interesses do povo americano – ditam os rumos da política interna e externa. Especialistas já o chamam de “imperador”, e não por acaso. Ele mesmo já sugeriu que poderia tentar se perpetuar no poder, driblando a Constituição que limita os mandatos presidenciais. Trata-se de um projeto autocrático, disfarçado de patriotismo, embalado por redes sociais, bilionários interesses privados e uma retórica anti-globalista que ignora o real funcionamento da economia mundial.
Nesse contexto, a reunião do BRICS no Rio, mesmo esvaziada de grandes líderes como Xi Jinping e Putin, não perde seu valor simbólico. Apesar da flacidez do documento final, ela representa uma tentativa concreta de romper com a lógica do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Mesmo que os BRICS atuais contenham contradições internas, o movimento é coerente com a necessidade brasileira de ampliar horizontes e diversificar parcerias.
Mais do que nunca, o Brasil precisa abandonar a ingenuidade de esperar favores de potências que só pensam em si. O acordo com o Mercosul e União Europeia precisa sair do papel, e novas fronteiras de comércio, ciência e tecnologia devem ser abertas com o Sul Global.
O mundo está mudando, e o Brasil não pode ser prisioneiro das vontades de um homem que se enxerga como dono do planeta. Ser parceiro do mundo não é se ajoelhar diante do império. É ter coragem de andar com os próprios pés.




