
Padre Carlos
Vitória da Conquista vive um momento político singular, daqueles em que o tabuleiro parece conhecido, mas uma peça nova altera silenciosamente toda a lógica do jogo. Muitos ainda operam sob a velha crença de que determinados grupos, mandatos ou trajetórias garantem, por inércia, a posse dos votos. Esse tempo, porém, está ficando para trás. E poucos estão visualizando com clareza a entrada em cena de um nome que pode surpreender políticos experientes: Quinho Tigre, agora inserido no campo da base do governador Jerônimo Rodrigues.
A política mudou. A sociedade mudou. A própria percepção do eleitor mudou. A polícia mudou, o Estado mudou, mas parte da classe política insiste em agir como se ainda fosse possível controlar o voto a partir de gabinetes, acordos de cúpula e heranças simbólicas. O chamado voto de opinião, isolado da vivência concreta do eleitor, não se sustenta dentro de uma cultura profundamente subjetiva, onde a decisão passa pela presença, pela escuta e pela relação construída no cotidiano.
As eleições parlamentares de 2026 estão mais próximas do que muitos imaginam. A disputa por uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia, especialmente no campo da base do governador Jerônimo Rodrigues, já está em curso há bastante tempo. As articulações não começaram ontem. Elas se dão de forma gradual, persistente e, muitas vezes, fora do alcance dos holofotes. Nesse cenário, Vitória da Conquista se apresenta como um dos principais campos de batalha política do estado.
Tradicionalmente, três nomes despontam com força na disputa pelos votos conquistenses dentro da base governista: o deputado Fabrício Falcão, do PCdoB; o deputado Zé Raimundo, do PT; e o vereador Alexandre Xandó, que busca uma cadeira no Legislativo estadual. Todos têm trajetória, presença política, articulação regional e trânsito junto ao governo do Estado. Nenhum deles entra nessa disputa de forma improvisada.
Mas o cenário não se resume mais a esses três nomes. A presença de Quinho Tigre, também orbitando a base do governador, introduz um elemento novo e subestimado por muitos. Sua forma de fazer política — direta, presencial, corpo a corpo — contrasta com práticas mais burocratizadas e pode produzir efeitos reais em um colégio eleitoral grande, diverso e politicamente sensível como o de Vitória da Conquista.
A disputa será dura, intensa e, como já dissemos, na unha. Não há espaço para ilusões. A concorrência interna dentro da base do governo, especialmente no Sudoeste baiano, tende a ser uma das mais acirradas dos últimos anos. Cada nome buscará ocupar espaço no imaginário do eleitor como o representante legítimo das demandas regionais, do desenvolvimento local, da agenda social e da relação com o Palácio de Ondina.
Vitória da Conquista possui um colégio eleitoral robusto, com centenas de milhares de eleitores aptos ao voto. É uma cidade politizada, crítica e historicamente exigente com seus representantes. O eleitor conquistense cobra presença, resultados, compromisso com a saúde pública, com a infraestrutura urbana, com a geração de emprego e com a melhoria efetiva da qualidade de vida. Nesse ponto, a relação cotidiana com a população pesa mais do que discursos bem elaborados.
Os nomes tradicionais da disputa mantêm forte presença na cidade e conhecem de perto suas demandas. O deputado Fabrício Falcão, por exemplo, ampliou alianças com vereadores e lideranças locais, consolidando seu projeto de permanecer na Assembleia Legislativa da Bahia. Zé Raimundo aposta no capital político de sua trajetória histórica. Alexandre Xandó trabalha para converter sua atuação no Legislativo municipal em projeção estadual.
Quinho Tigre, por sua vez, aposta em outro terreno: o da proximidade direta com o eleitor, da política feita na rua, nos bairros, nas conversas francas e sem intermediação excessiva. Esse estilo, muitas vezes desprezado por políticos experientes, pode ser justamente o diferencial capaz de surpreender e deslocar certezas consolidadas.
A disputa pelo voto em Vitória da Conquista está posta. As costuras avançam, alianças se firmam, estratégias são recalculadas. Nada está decidido. O que se pode afirmar com segurança é que a eleição de 2026 colocará à prova a ideia de voto cativo e exporá quem, de fato, compreendeu a nova dinâmica da política local.
No fim, a política volta ao seu ponto de origem: não pertence a quem se considera dono dos votos, mas a quem entende que voto se constrói com presença, escuta e vínculo real com a vida das pessoas. E é justamente aí que algumas surpresas começam a ganhar forma.




