Política e Resenha

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Cartas que o tempo guardou

Crônica

Cartas que o tempo guardou

Uma saudade de Salvador, dos amores que vivi e das palavras que ficaram presas na alma.

Há coisas que a gente não esquece. Não porque faça questão de lembrá-las, mas porque, de alguma maneira misteriosa, elas aprenderam a morar dentro de nós. O tempo passa, os cabelos mudam de cor, os endereços ficam para trás, os amigos tomam outros caminhos e até a cidade onde nascemos parece, em determinados momentos, pertencer a outra vida. Mas existem sentimentos que não envelhecem. Apenas aprendem a falar mais baixo.

Quando volto à Salvador da minha memória, encontro um menino que ainda caminha por aquelas ruas, sem saber que um dia sentiria tanta saudade de coisas que, naquele tempo, lhe pareciam eternas. A Pituba, as conversas de família, os rostos conhecidos, o Nordeste de Amaralina e aquele mundo de afetos que constituía o meu pequeno universo continuam existindo em algum lugar de mim. Talvez seja isso que chamamos de memória: uma espécie de cidade invisível, onde tudo aquilo que amamos recebe o direito de permanecer.

Os amores que ficaram

E penso nos amores.

Não apenas naquele amor que um dia nos fez perder o sono, esperar uma ligação ou caminhar sem rumo, alimentando a esperança de um encontro. Penso também nos amores que não soubemos compreender, nas despedidas que chegaram antes de estarmos preparados e nas palavras que morreram na garganta porque o orgulho, o medo ou as circunstâncias falaram mais alto.

Quantas cartas escrevi sem papel? Quantas vezes conversei sozinho com alguém que já não estava ao meu lado? Quantas noites inventei diálogos que jamais aconteceriam, oferecendo respostas tardias a perguntas que talvez nunca tenham sido feitas?

A vida tem dessas crueldades delicadas. Quando estamos vivendo, quase nunca percebemos a importância dos instantes. Só mais tarde descobrimos que aquela conversa aparentemente banal, aquele sorriso distraído, aquela despedida apressada ou aquele abraço que não demos com a força necessária eram pedaços de uma felicidade que não sabíamos reconhecer.

Se eu pudesse voltar a alguns momentos da minha juventude em Salvador, talvez não mudasse os grandes acontecimentos. Gostaria apenas de permanecer um pouco mais em certas cenas. Escutaria com mais atenção algumas vozes, demoraria mais os olhos em determinados rostos e teria menos pressa de partir. Diria algumas coisas que calei e, quem sabe, teria coragem de perguntar aquilo que passei anos imaginando.

“O passado não aceita visitas que modifiquem sua arquitetura. Podemos entrar nele pela porta da lembrança, percorrer seus corredores e tocar os objetos que a saudade preservou, mas nunca conseguimos reorganizar os móveis nem chamar de volta quem já seguiu viagem.”

As cartas que nunca enviamos

É por isso que algumas cartas permanecem fechadas dentro de nós.

Não são necessariamente cartas destinadas a alguém que esperamos reencontrar. Às vezes, escrevemos para uma pessoa que já não existe da mesma maneira, porque ela também foi transformada pelo tempo. Outras vezes, escrevemos para aquele que fomos, para o jovem que acreditava que a vida seria mais longa, que os encontros seriam intermináveis e que sempre haveria uma oportunidade para dizer amanhã aquilo que não conseguimos dizer hoje.

Talvez seja essa a carta mais difícil de todas: aquela que enviamos, em silêncio, ao nosso próprio passado.

Aprender a conversar com o passado

Hoje compreendo que nem todo amor precisa terminar em reencontro para ter sido verdadeiro. Há sentimentos que cumprem sua missão sem permanecer ao nosso lado. Algumas pessoas chegam para abrir janelas, outras para nos ensinar a dor da ausência, e há aquelas que deixam em nós uma marca tão profunda que, mesmo depois de décadas, basta uma música, um perfume ou uma noite silenciosa para que voltemos a sentir a antiga presença.

Não sei se isso é saudade ou se é simplesmente a maneira que a alma encontrou de não desperdiçar aquilo que viveu.

Sei apenas que envelhecer não significa deixar de amar o passado. Significa aprender a conversar com ele sem exigir que nos devolva tudo o que levou.

E assim sigo, entre as lembranças de Salvador e os caminhos que a vida me ofereceu, carregando minhas pequenas eternidades. Algumas têm nome e rosto. Outras são apenas sensações, fragmentos de conversas, promessas esquecidas e sonhos que mudaram de forma. Há também os amores que nunca receberam uma declaração completa, mas que, por alguma razão, continuam vivos na delicada correspondência entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos dizer.

Uma carta sem destinatário

Se um dia alguém encontrar essas cartas dentro de mim, não precisará procurar destinatários nem datas. Bastará compreender que foram escritas por um homem que viveu, errou, amou, partiu, permaneceu e aprendeu que a existência é feita tanto dos encontros que realizamos quanto daqueles que guardamos no silêncio.

Porque, no fim, talvez a vida inteira seja isso: uma longa carta que escrevemos sem conhecer o destinatário, preenchendo as páginas com nossos amores, nossas perdas, nossas esperanças e a teimosa vontade de acreditar que nada daquilo que foi verdadeiro desaparece por completo.

E se ainda existe alguém morando em alguma parte de mim, não prometo procurá-lo. Há presenças que não precisam voltar para continuar conosco.

Apenas deixo a janela aberta.

Vai que a brisa de Salvador, numa dessas tardes em que o passado parece caminhar ao nosso lado, resolva trazer de volta alguma palavra que ficou perdida no tempo.

Carlos e Bel

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Algumas palavras não desaparecem. Apenas esperam o momento de serem relidas.


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