
Por Padre Carlos
Há um fenômeno que a análise política séria não pode ignorar: a impressionante resiliência eleitoral de Jair Bolsonaro. Mesmo condenado e tornado inelegível, seu capital político não evaporou. Ao contrário, mostrou-se transferível. O chamado “poste” não foi apenas um candidato; foi a prova empírica de que existe uma comunidade política coesa, ideologicamente orientada e emocionalmente engajada.
Não se trata aqui de adesão ou repulsa. Trata-se de compreender o fato político.
Bolsonaro construiu algo que vai além de um eleitorado circunstancial. Ele edificou uma identidade. E identidade, na política, é força estruturante. Sua base sabe quem é, sabe contra quem luta e acredita partilhar um destino comum. Essa consciência — que mistura valores morais, ressentimentos sociais, visão de mundo e narrativa histórica — gera unidade.
A direita brasileira, especialmente sua vertente mais radicalizada, compreendeu algo que a esquerda parece ter desaprendido: política é disputa de sentido. É embate simbólico. É formação de consciência.
Enquanto isso, a esquerda vive um paradoxo.
Durante décadas, foi ela quem formou militância, organizou base social, estruturou narrativa histórica e ofereceu horizonte utópico. Seus quadros eram intelectualmente densos, seus movimentos tinham identidade clara. Havia projeto.
Mas algo se perdeu no caminho.
Ao optar por diluir sua densidade ideológica para conquistar o centro, parte significativa da esquerda passou a operar por negação. Em vez de afirmar um programa robusto, preferiu resumir-se ao antibolsonarismo. Em vez de politizar, moderou-se. Em vez de disputar hegemonia cultural, administrou consensos frágeis.
O resultado é visível: uma identidade política que se resume a Lula e à derrota do bolsonarismo.
Isso é pouco.
A extrema direita, ao contrário do que muitos supuseram, não conquistou o centro moderando-se. Conquistou-o pela força do embate. Polarizou, tensionou, criou narrativa permanente de conflito. Politizou sua base de forma intensa — às vezes até visceral. E, ao fazer isso, deslocou o eixo do debate público.
A hegemonia, ensinava Gramsci, não se constrói apenas com votos, mas com direção moral e intelectual. A direita entendeu a lição. Organizou influenciadores, igrejas, redes sociais, canais alternativos de comunicação. Criou linguagem própria. Estabeleceu símbolos. Formou identidade.
A esquerda, ao tentar parecer menos ideológica, tornou-se menos reconhecível.
E política sem identidade é política sem alma.
O eleitor comum percebe isso intuitivamente. Ele busca pertencimento, clareza, convicção. Não se mobiliza apenas por gestão administrativa; mobiliza-se por sentido. Quando um campo político oferece narrativa coesa e outro oferece apenas reação ao adversário, o primeiro tende a estruturar o debate.
Há um equívoco recorrente na leitura progressista: acreditar que radicalização ideológica afasta o centro. A experiência recente mostra o contrário. Quem estabelece os termos do debate atrai o centro. Quem pauta a agenda define as fronteiras do aceitável.
Bolsonaro, com todos os seus limites e controvérsias, demonstrou liderança orgânica. Sua base não depende apenas de sua presença física na urna. Ela opera como movimento. Isso é raro no Brasil, país historicamente marcado por personalismos voláteis.
A esquerda, por sua vez, enfrenta um dilema geracional. Lula ainda é seu maior ativo político. Mas uma identidade que depende quase exclusivamente de uma figura histórica corre o risco de envelhecer junto com ela. Não se constrói hegemonia duradoura apenas com memória.
É preciso projeto. É preciso narrativa. É preciso formação.
A direita compreendeu que politizar a base gera coesão. A esquerda temeu a politização excessiva e apostou na moderação estratégica. O resultado foi assimétrico.
Hoje, o campo progressista precisa decidir: continuará sendo definido pelo que combate ou voltará a ser reconhecido pelo que propõe?
A resiliência de Bolsonaro não é apenas um dado eleitoral; é um sinal de que há organização ideológica profunda no campo conservador. Ignorar isso é erro analítico. Subestimá-lo é erro estratégico.
A política brasileira atravessa um momento de redefinição estrutural. Não basta vencer eleições. É preciso disputar consciências. Não basta derrotar adversários. É necessário construir identidade.
Porque, no fim, quem tem identidade tem direção. E quem tem direção costuma moldar o futuro.




