✦ Análise Política · Bahia 2026 ✦
De Lomanto a Cocá
O Municipalismo Ressurge nas Asas da História
Por Padre Carlos | Política e Resenha | Vitória da Conquista, Bahia
❝ A história não se repete, mas rima.
E quando rima em Jequié, a Bahia escuta. ❞
José Cocá |
Há momentos em que a política baiana para, respira fundo e olha para trás — não por nostalgia, mas porque o passado insiste em bater à porta com uma familiaridade desconcertante. A escolha de José Cocá, prefeito de Jequié, como pré-candidato a vice-governador na chapa de ACM Neto não é apenas um movimento eleitoral calculado. É um eco. É uma rima da história que atravessa décadas. |
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1962: Quando Jequié Mandou um Prefeito Governar a Bahia
Para compreender o peso simbólico da hora presente, é necessário retornar a 1962. O Brasil vivia sob o governo tenso de João Goulart, a Bahia sangrava numa crise fiscal de proporções dramáticas, e o campo político nacional fervia com as reformas de base. Foi nesse cenário que Antônio Lomanto Júnior, então prefeito de Jequié, sagrou-se governador da Bahia, quebrando hegemonias e surpreendendo o establishment político da época.
Lomanto não era um nome do olimpo soteropolitano. Era um homem do interior, de uma cidade estratégica no sudoeste baiano, e carregava a credencial do gestor municipal — alguém que havia tocado o orçamento de perto, lidado com a miséria do dia a dia, e construído pontes não apenas de concreto, mas de confiança com sua gente. O municipalismo — essa escola que entende o município como o laboratório da política real — ganhava, naquele momento, sua maior expressão na Bahia do século XX.
“O municipalismo não é estratégia eleitoral. É uma afirmação de que o poder nasce do chão — e não dos salões da capital.”
2026: A Rima que Ninguém Esperava
Passados mais de seis décadas, a história volta a rimar em Jequié. ACM Neto, o pré-candidato ao Governo da Bahia pela oposição, anuncia como seu par justamente o prefeito daquela mesma cidade do sudoeste baiano: José Cocá. A coincidência geográfica — se é que podemos chamá-la apenas de coincidência — acendeu o debate entre políticos e jornalistas. Mas há algo mais do que simetria toponímica nesse movimento.
O contexto financeiro do Estado da Bahia hoje guarda semelhanças incômodas com aquele de 1962. A dívida pública, os gargalos na prestação de serviços essenciais, a pressão sobre o funcionalismo — tudo ressoa como uma partitura já tocada. E é nesse ambiente de insatisfação que a imagem do gestor municipal ganha renovado apelo: o prefeito que administrou uma cidade real, com recursos escassos e demandas urgentes, aparece como símbolo de competência prática.
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1962 Antônio Lomanto Júnior, prefeito de Jequié → candidato a governador em plena crise fiscal, sob o governo Jango. |
2026 José Cocá, prefeito de Jequié → pré-candidato a vice-governador com ACM Neto, em nova crise fiscal do Estado. |
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O Municipalismo como Linguagem Política
Falar em municipalismo na Bahia é falar de uma tradição que remonta às raízes mais profundas da política do interior — onde o poder sempre teve rosto e nome na feira livre da quinta-feira. Os municípios baianos foram sempre o laboratório onde se testava a viabilidade das alianças, onde o voto se contava de casa em casa, onde a política tinha cheiro de terra.
Ao escolher um prefeito do interior para compor sua chapa, ACM Neto envia mensagens em múltiplas frequências. Para o eleitorado do interior baiano: “vocês não são apêndice, são protagonistas.” Para as lideranças municipais que flertam com a oposição: “há espaço para quem sabe gerir.” E para o eleitor cansado do espetáculo vazio: “aqui há alguém que desceu do palanque e enfrentou a realidade.”
Além da Rima: O que a Bahia Exige de Seus Líderes
Mas o analista honesto não pode se deter na estética da coincidência. A rima histórica é sedutora como ponto de partida, não de chegada. Lomanto Júnior governou a Bahia em tempos de grande turbulência e deixou um legado contraditório — como qualquer governante que enfrenta crises maiores do que seus instrumentos. A questão que se impõe não é apenas de onde vem José Cocá, mas para onde ele e ACM Neto pretendem levar o Estado.
A Bahia do século XXI não precisa apenas de gestores — precisa de líderes com visão de justiça social, com sensibilidade para as desigualdades que rasgam o território de norte a sul. O municipalismo autêntico não é estratégia de chapa: é compromisso com a periferia, com o sertanejo, com a mulher da feira, com o jovem sem emprego no semiárido.
“Nenhuma chapa se sustenta apenas pelo peso simbólico do passado. O eleitor baiano já aprendeu a distinguir o gesto da obra.”
A Lição que a História Oferece — e que Poucos Aceitam
De Lomanto a Cocá, de 1962 a 2026, a cidade de Jequié oferece à Bahia, pela segunda vez, um de seus filhos para os palanques do poder estadual. Se a história vai confirmar a rima ou romper o verso, só o tempo e — sobretudo — a prática de governo dirão. Mas uma coisa é certa: quando Jequié fala, a Bahia escuta. E quando a Bahia escuta, as urnas respondem.
Que os candidatos — de todos os campos — tenham a humildade de aprender com essa lição. O municipalismo, quando autêntico, é democracia praticada no chão. Quando é apenas fotografia de chapa, é mais uma promessa que o vento leva. A Bahia precisa do primeiro. Já sofreu demais com o segundo.
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Padre Carlos Teólogo, colunista e editor do Política e Resenha Vitória da Conquista, Bahia |
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A íntegra desta matéria pode ser acessada no Bahia Já. Link na bio. |
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