
Por Padre Carlos
Em tempos em que o imediatismo parece dominar as relações humanas e a memória se perde entre as telas e os ruídos digitais, é preciso lembrar que “memorial” não é apenas recordar — é tornar presente. Resgatar a memória de alguém é reavivar o que ele foi e o que representou, é não permitir que o tempo sepulte as sementes que ele plantou. Hoje, a Igreja de Vitória da Conquista se curva em gratidão à memória do Padre Benedito Soares — o querido Padre Bené — cuja vida e ministério marcaram uma geração e projetaram os alicerces do futuro da nossa Arquidiocese.
Apesar de nossa Arquidiocese ter apenas sessenta e oito anos, muitos pastores deram o melhor de si para que pudéssemos crescer como Igreja, amadurecer em fé e discernir com sabedoria as escolhas certas. Entre eles, Padre Benedito se destaca não apenas pela inteligência pastoral, mas por uma sensibilidade que o fazia compreender que o verdadeiro evangelho se constrói no encontro com o outro — especialmente com a juventude.
Como nos recorda o poeta, “há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto.” Foi isso que Bené fez: cuidou dos brotos. Acreditou que a juventude era o campo fértil onde o Reino poderia germinar. Seu ministério foi uma aposta no futuro, uma semeadura feita com coragem e visão profética. Evangelizar os jovens, nas décadas de 1970 e 1980, não era tarefa simples. Era o tempo das mudanças culturais, da efervescência política e social, da busca de novos caminhos para a fé. Era preciso compreender o coração do tempo, escutar os anseios de uma geração inquieta e traduzir o Evangelho em linguagem viva e próxima.
Padre Benedito entendeu isso como poucos. Criou espaços de convivência, reflexão e engajamento social. Sua ação pastoral era pedagógica e libertadora. Ele enxergava o jovem como protagonista, e não apenas como destinatário da ação da Igreja. Era um tempo de sonhos, mas também de desafios: o pós-Concílio Vaticano II ainda era recente, e a Igreja buscava renovar-se sem perder suas raízes.
Hoje, ao relembrar esse pastor, somos convidados a olhar para o presente com responsabilidade. O futuro de qualquer instituição depende da capacidade de envolver os jovens, de escutar suas inquietações e de oferecer-lhes razões para crer e esperançar. Quando esquecemos nossos mestres, enfraquecemos nossa própria identidade.
A crise da fé que tantas vezes observamos nas novas gerações nasce, em parte, dessa ausência de memória. É como se o fio da tradição se rompesse e deixássemos de contar as histórias que sustentam nossa espiritualidade. Criar memoriais — seja uma missa, um monumento ou um simples texto como este — é um ato de resistência espiritual. É um modo de dizer que os frutos que colhemos hoje nasceram de sementes lançadas por mãos generosas como as de Padre Benedito Soares.
Sua voz, sua fé e seu exemplo ainda ecoam. E é nosso dever garantir que esse eco não se apague. Que o memorial deste pastor seja também um compromisso renovado com a juventude, com a esperança e com o Evangelho que transforma.
Porque lembrar é, acima de tudo, continuar a missão.




