Por Padre Carlos
Há algo de tragicômico — e perigosamente brasileiro — na briga silenciosa entre o Partido dos Trabalhadores e o Partido Socialista Brasileiro. A reportagem de O Globo apenas deu nome ao que já estava no ar: ruídos. E, em política, ruído é o estágio educado da palavra “racha”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta montar seu tabuleiro de 2026 com a lógica do “quanto mais palanques, melhor”. É compreensível. Governabilidade, maioria, pragmatismo. Tudo muito adulto, tudo muito racional.
Mas política não é apenas matemática. É simbologia, lealdade e memória.
E memória é aquilo que partidos aliados não costumam perder quando são tratados como descartáveis.
Pernambuco: a elegância do desconforto
O prefeito do Recife, João Campos, herdeiro político de uma linhagem que remonta a Miguel Arraes e passa por Eduardo Campos, quer algo simples: exclusividade no palanque de Lula.
Simples, mas não trivial.
Do outro lado, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, opera com a frieza dos que entendem Brasília como um jogo de xadrez: manter portas abertas também para Raquel Lyra pode ser estratégico.
É o tal “palanque duplo”.
Na teoria, genial.
Na prática, indigesto.
Porque a mensagem é clara: lealdade não garante preferência.
Pará, Bahia, São Paulo: o cardápio é variado
No Pará, o PSB lança candidato enquanto o PT flerta com o MDB.
Na Bahia, onde o PT reina com musculatura histórica, há sussurros de que o PSB poderia olhar para outros campos.
Em São Paulo, a possibilidade de disputa entre petistas e socialistas paira como nuvem carregada.
A pergunta é inevitável: estamos diante de uma frente ampla ou de uma convivência armada?
O caso Alckmin: o símbolo que incomoda
Geraldo Alckmin não é apenas vice-presidente. Ele é o símbolo da costura democrática de 2022.
Foi ele quem sinalizou ao centro político que o país não embarcaria numa aventura.
Agora, setores do PT cogitam substituí-lo por um nome do MDB.
Pode até ser cálculo frio. Mas a política não é laboratório. É teatro.
E o público vê.
Trocar Alckmin significaria dizer ao PSB: “Obrigado pelos serviços prestados”.
É assim que alianças começam a azedar.
O PSB precisa decidir quem é
O problema do PSB não é apenas o PT.
É identitário.
Quer ser herdeiro do “socialismo moreno” nordestino?
Quer ser centro-esquerda reformista?
Quer ser partido de quadros nacionais?
Ou quer ser apenas a legenda elegante que empresta vice para a chapa petista?
Se virar satélite, desaparece.
Se virar feudo regional, encolhe.
Se ousar competir, pode crescer — ainda que doa.
A estratégia do PT: hegemonia ou asfixia?
O PT consolidou uma hegemonia inédita no Nordeste, ocupando o espaço deixado por antigas oligarquias. Isso é fato político.
Mas hegemonia excessiva pode virar asfixia.
Se aliados sentirem que são apenas figurantes num projeto centralizador, começam a procurar oxigênio fora.
E quando aliados históricos procuram oxigênio, a direita observa em silêncio.
A esquerda brasileira já perdeu eleições suficientes por excesso de autoconfiança.
O risco real
Não se trata de vaidades regionais.
Trata-se de arquitetura política.
A frente ampla que derrotou o extremismo tinha um pacto claro: pluralidade com liderança.
Se a liderança virar monopólio, a pluralidade murcha.
E quando a pluralidade murcha, a democracia empobrece.
O PT pode até vencer ampliando palanques.
Mas pode enfraquecer o campo progressista no processo.
E o PSB precisa decidir se aceita ser coadjuvante confortável ou protagonista incômodo.
Na política, às vezes, o fogo amigo não queima de imediato.
Ele apenas aquece o ambiente.
Até o dia em que alguém percebe que a casa inteira está em chamas.





