Política & Resenha · Análise Política
Por Padre Carlos
O governador Jerônimo Rodrigues resolveu fazer uma análise política de Vitória da Conquista e, pelo visto, saiu tão animado com a própria interpretação que se esqueceu de conferir alguns detalhes da história. Segundo ele, a prefeita Sheila Lemos também foi derrotada, porque não conseguiu eleger o marido deputado e ainda teria provocado um racha no grupo político. De quebra, afirmou que, se tivesse mais dez dias de campanha, teria virado o jogo na cidade.
Ora, governador, vamos devagar! A política tem dessas coisas: às vezes, a comemoração é tão grande que o sujeito começa a enxergar a derrota dos outros com uma lupa e a própria dificuldade com um microscópio.
A derrota em Conquista não começou agora
O senhor reconhece que Lula venceu em Vitória da Conquista. Muito bem! Mas parece esquecer que o senhor também perdeu na cidade. Nas eleições de 2022, ACM Neto obteve 91.460 votos para governador, contra 74.023 de Jerônimo Rodrigues. Foram 17.437 votos de diferença. Portanto, essa história de derrota em Conquista não começou agora, nem foi inventada pela oposição. Está registrada nas urnas. E, naquele momento, o PT também não conseguiu transformar a força de Lula em uma vitória para o governo estadual no município.
| Governador em Vitória da Conquista — 2022 | ||||
| ACM Neto |
|
91.460 | ||
| Jerônimo Rodrigues |
|
74.023 | ||
| Diferença: 17.437 votos. | ||||
Mas vamos ao ponto principal. Lula venceu em Vitória da Conquista, e isso precisa ser respeitado. O presidente tem sua própria força eleitoral, sua história e seus eleitores. Entretanto, reconhecer a vitória de Lula não significa entregar ao governador o direito de contabilizar todos esses votos como patrimônio pessoal do PT ou como certificado de aprovação automática de seus aliados.
O eleitor não é propriedade de ninguém
E há um detalhe que merece atenção: a prefeita Sheila Lemos não estava fazendo campanha para o candidato presidencial que disputou o primeiro turno contra Lula. Portanto, usar a votação presidencial como se fosse uma prova direta de derrota pessoal da prefeita é uma interpretação conveniente, mas politicamente simplista. O eleitor não é propriedade de ninguém, governador. Ele pode votar em Lula para presidente e apoiar Sheila para prefeita. Pode escolher um candidato para o governo estadual e outro para a Assembleia Legislativa. A democracia não exige fidelidade partidária em todos os quadrantes da urna.
Transferência de votos: a pergunta que fica
Agora, governador, vamos falar de transferência de votos, esse assunto tão interessante para quem gosta de dar aulas de estratégia eleitoral.
Sheila Lemos foi reeleita prefeita em 2024 com 116.488 votos, correspondentes a 58,83% dos votos válidos. Foi uma vitória expressiva, construída em uma disputa municipal, com suas próprias circunstâncias e seus próprios protagonistas. Esse resultado demonstra que a prefeita possui uma base eleitoral relevante na cidade, independentemente das preferências de cada eleitor para os demais cargos.
Se, como se afirma no debate político local, Sheila conseguiu transferir cerca de 30% de sua votação para o candidato apoiado por seu grupo, isso merece uma análise séria. Transferência de votos não é uma operação matemática automática, e os números precisam ser comparados com critérios claros. Ainda assim, a pergunta permanece: qual foi a capacidade de transferência de votos do governador para o candidato que ele apoiou e que acabou derrotado na cidade?
Em política, governador, não basta anunciar que faltaram dez dias para virar o jogo. É preciso explicar por que o jogo não foi virado com o tempo que havia, com a estrutura disponível e com a força política que o senhor reivindica.
Mais votado, mas não eleito
E tem mais. O senhor fala da derrota do marido da prefeita como se isso, por si só, encerrasse a discussão sobre a força política de Sheila. Mas eleição para deputado federal e estadual é uma disputa estadual. A votação municipal é importante, porém não garante eleição, porque o resultado final depende também dos votos em todo o estado, do quociente eleitoral e da distribuição das cadeiras.
Wagner Alves, marido da prefeita, foi o candidato a deputado estadual mais votado em Vitória da Conquista, mas não conseguiu se eleger. Esse é um dado que precisa ser reconhecido sem maquiagem. O mesmo aconteceu com Waldenor Pereira, que foi o candidato a deputado federal mais votado no município, mas também não se elegeu. Portanto, a derrota eleitoral de um candidato não pode ser transformada, automaticamente, em atestado de falência política de quem o apoiou.
Se a régua do governador for essa, será necessário aplicá-la a todos, inclusive aos próprios aliados. Afinal, se um candidato apoiado por uma liderança não se elege, isso prova necessariamente que essa liderança perdeu sua força? Ou será que, dependendo do lado da disputa, a derrota recebe um nome mais elegante?
É justamente aí que mora a ironia.
Quando o adversário perde, temos uma demonstração de fraqueza. Quando um aliado perde, aparecem as circunstâncias, o contexto, o tempo insuficiente e as explicações técnicas. A política brasileira tem especialistas em resultados eleitorais, mas alguns parecem especialistas apenas quando o placar favorece a própria narrativa.
E, já que estamos falando de partidos, cabe outra pergunta: qual é o balanço do PT em Vitória da Conquista depois dessa eleição? O partido precisa olhar com atenção para seu desempenho local e para a capacidade de conservar ou ampliar sua representação. Não se pode atribuir toda derrota a um adversário e tratar os próprios reveses como acidentes de percurso.
Racha, obras e recursos públicos
O senhor também afirmou que Sheila criou um racha no grupo político. Ora, divergências, disputas internas e candidaturas que não prosperam fazem parte da vida partidária. Mas seria interessante apresentar os fatos que sustentam essa afirmação, em vez de tratar uma interpretação política como se fosse uma sentença definitiva.
| Grupos políticos não são igrejas de unanimidade, governador. E nem toda divergência significa ruptura irreversível. Às vezes, a disputa eleitoral apenas revela interesses diferentes que já existiam e que precisam ser administrados. |
Por fim, o senhor mandou um abraço ao povo de Vitória da Conquista e prometeu continuar trabalhando, destinando recursos e entregando obras à cidade e à região. Essa parte merece ser levada a sério. Governar não é premiar aliados nem castigar adversários. Os recursos públicos pertencem à população, e os investimentos devem chegar a Conquista porque seus moradores têm direitos, não porque determinada liderança ganhou ou perdeu uma eleição.
Se o governo estadual tem obras importantes para entregar, que entregue. Se existem recursos destinados ao município, que sejam aplicados com transparência e eficiência. O povo de Vitória da Conquista não precisa de ressentimentos eleitorais; precisa de resultados concretos.
Sem dois pesos e duas medidas
Governador, a eleição passou, mas a política continua. O senhor tem todo o direito de interpretar os resultados como considerar adequado. O que não pode esperar é que todos aceitem uma narrativa que destaca a derrota alheia e deixa as próprias dificuldades fora do enquadramento.
Afinal, se o senhor quer discutir quem perdeu força política em Vitória da Conquista, vamos discutir os números, os candidatos, os partidos e a capacidade de mobilização de cada grupo. Sem dois pesos e duas medidas.
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A pergunta que fica Quantos votos o senhor conseguiu transferir para os seus candidatos quando eles precisaram do seu apoio na cidade? |
Porque, governador, na política, discurso não substitui voto, promessa não substitui resultado e uma derrota do adversário não transforma automaticamente ninguém em vencedor.
E, convenhamos, se cada liderança pudesse escolher sozinha o significado das urnas, não precisaríamos de eleições. Bastaria uma entrevista coletiva depois da apuração.
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