Política e Resenha

Ivan: diálogo, articulação e continuidade no comando da Câmara

ARTIGO DE OPINIÃO

Há presidentes de Legislativo que passam pela cadeira. E há presidências que ajudam a explicar um determinado momento político. No caso de Ivan Cordeiro (PL), à frente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista no biênio 2025-2026, uma palavra aparece repetidamente em seus discursos e na narrativa construída em torno de sua gestão: diálogo.

Foi justamente por essa via que Ivan chegou à Presidência. Em janeiro de 2025, ele foi eleito com 15 dos 23 votos, numa disputa em que apenas uma chapa foi registrada. A Mesa reuniu vereadores de diferentes partidos, como PL, PCdoB, MDB, PP e Republicanos, um primeiro sinal de que a administração da Casa dependeria de uma composição política mais ampla do que as fronteiras partidárias do próprio presidente.

“É nesse contexto que surge a imagem de Ivan, o pacificador.”

Não se trata de imaginar uma Câmara sem divergências. Parlamento sem conflito político seria quase uma contradição em termos. Vereadores foram eleitos por grupos diferentes, defendem projetos diferentes e, naturalmente, discordam. A questão está em outra parte: como administrar a divergência sem transformar adversário em inimigo?

Desde o início de sua presidência, Ivan declarou que pretendia conduzir uma gestão compartilhada, com participação das diferentes forças partidárias. Logo após assumir, reuniu vereadores de primeiro mandato e afirmou que encontros para discutir assuntos internos seriam habituais. A própria Câmara registrou, naquele momento, o compromisso anunciado pelo presidente de manter diálogo permanente com os demais parlamentares.

Essa disposição tornou-se um dos eixos do discurso de sua administração.

Quando apresentou o balanço dos primeiros seis meses, Ivan destacou transparência, eficiência, pluralidade de ideias e respeito às diferenças partidárias. Entre as medidas daquele período estava a criação da Bancada Feminina, iniciativa que ampliou institucionalmente o espaço de atuação das vereadoras dentro da Casa.

Mais tarde, na abertura do ano legislativo de 2026, o presidente afirmou ter cumprido integralmente os compromissos anunciados para o primeiro ano de sua gestão. Esse percentual de 100% é uma avaliação apresentada pelo próprio Ivan em sua prestação de contas, e não uma auditoria independente; entre os pontos destacados por ele estavam justamente a pacificação política, o respeito à oposição e a institucionalização da Bancada Feminina.

E talvez esteja aí a parte mais interessante desse momento político: a tentativa de continuidade não surge apenas de um discurso individual. Ela vem acompanhada de movimentos concretos de articulação dentro da Câmara.

Em agosto de 2026, por exemplo, foi noticiado um acordo da bancada feminina em apoio à reeleição de Ivan Cordeiro, associado à ampliação da presença das vereadoras na futura Mesa Diretora e nas comissões permanentes. A nova estrutura da Mesa passará de cinco para sete integrantes, acompanhando também o aumento da Câmara para 23 vereadores.

É uma fotografia política significativa.

Porque liderança legislativa raramente é construída no grito. Ela nasce, quase sempre, da capacidade de sentar à mesa com quem pensa diferente.

Política municipal é feita também assim — conversa, negociação, concessões possíveis e, principalmente, disposição para construir convivência institucional.

E a fotografia enviada junto à notícia talvez seja simbólica justamente por isso: pessoas de trajetórias e posições políticas distintas reunidas ao redor de uma mesma mesa. Política municipal é feita também assim — conversa, negociação, concessões possíveis e, principalmente, disposição para construir convivência institucional.

O próprio movimento pela próxima Mesa Diretora confirma que Ivan pretende permanecer no comando. A eleição para o biênio 2027-2028 está marcada para 2 de outubro de 2026, às 9h, com prazo para registro das chapas até 30 de setembro. A votação será aberta. Ivan já declarou publicamente interesse em disputar novamente a Presidência e afirmou estar conversando com os demais vereadores para formar a composição.

Isso não significa que a eleição esteja decidida. Em política, sobretudo antes do registro definitivo das chapas e da votação, prudência recomenda separar articulação de resultado.

Mas há uma diferença importante entre chegar a uma eleição tentando construir apoios do zero e chegar a ela depois de quase dois anos administrando relações políticas dentro da própria Casa.

Ivan está no segundo cenário.

A política da ponte

O episódio ajuda a revelar uma característica particular da Presidência de um Legislativo. Quem ocupa aquela cadeira precisa administrar algo mais complexo do que a própria bancada.

Precisa presidir também quem discorda.

Precisa garantir a palavra de quem critica.

Precisa administrar interesses diferentes.

Precisa impedir que disputas naturais contaminem o funcionamento administrativo da instituição.

E precisa compreender que a Câmara pertence à cidade.

E precisa compreender que uma Câmara não pertence nem ao presidente, nem à maioria, nem à oposição. Pertence à cidade.

Talvez seja justamente nesse sentido que a expressão “pacificador” venha sendo associada a Ivan Cordeiro por quem avalia positivamente sua condução.

“Pacificar não é eliminar diferenças. É criar condições para que elas possam existir sem destruir as pontes.”

Isso ganha ainda mais relevância quando se observa que algumas das mudanças institucionais discutidas durante sua gestão apontaram para maior publicidade das decisões internas. A reforma do Regimento Interno incluiu, entre outros pontos, a adoção do voto aberto na eleição da Mesa Diretora, além da ampliação de cinco para sete integrantes e de mudanças na estrutura das comissões.

A política costuma produzir muito barulho e poucas pontes. Por isso, quando um presidente consegue manter interlocução com setores diferentes, o fato se torna politicamente relevante — independentemente das preferências partidárias de cada cidadão.

Ivan Cordeiro é filiado ao PL. Mas a Presidência da Câmara exige que sua atuação institucional ultrapasse as fronteiras do próprio partido. Foi essa lógica que ele declarou adotar desde o começo de 2025 e que agora aparece novamente na articulação para o próximo biênio.

O segundo mandato começa antes da eleição

Nenhum segundo mandato começa verdadeiramente no dia da posse.

Ele começa na avaliação do primeiro.

É quando aliados decidem permanecer aliados, quando antigos adversários avaliam se existe espaço para entendimento e quando cada vereador calcula não apenas suas afinidades, mas também o modelo de funcionamento que deseja para a instituição.

Nesse sentido, a tentativa de reeleição de Ivan Cordeiro funciona também como julgamento político de sua primeira passagem pela Presidência.

A possibilidade de uma composição ampla — e eventualmente de uma chapa única, como ele vem buscando segundo a entrevista apresentada — deverá ser confirmada ou não até o encerramento do prazo de registro. O que já está documentado é que Ivan declarou intenção de permanecer no cargo, mantém conversas com os vereadores e conta com apoios públicos dentro da Casa.

E talvez seja essa a principal fotografia do momento.

Não a de um homem sozinho buscando permanecer numa cadeira.

Mas a de uma Presidência tentando transformar diálogo em continuidade política.

Na democracia, pacificação não deveria significar silêncio. Muito menos unanimidade artificial. Significa preservar o ambiente em que governo e oposição possam discordar hoje e voltar a sentar à mesma mesa amanhã.

Se existe uma característica que ajuda a compreender a articulação construída por Ivan Cordeiro para permanecer à frente da Câmara, é exatamente essa disposição declarada para conversar.

Por isso, enquanto a eleição de 2 de outubro se aproxima, uma expressão ajuda a resumir a narrativa política que se consolidou ao redor de sua Presidência:

Ivan, o pacificador.

Não porque tenha acabado com as diferenças, mas porque sua estratégia política tem sido tentar fazer com que elas caibam na mesma mesa.

POLÍTICACÂMARA MUNICIPAL

IVAN CORDEIRO

VITÓRIA DA CONQUISTA

DIÁLOGO

Artigo de opinião

Padre Carlos