
Os alertas feitos nos últimos meses não eram exercícios de futurologia nem alarmismo retórico. Eram a leitura atenta de sinais objetivos de um movimento que agora se materializa com clareza: o processo de esvaziamento político do governador Jerônimo Rodrigues como parte de uma disputa interna pelo controle do governo da Bahia em 2026. A matéria divulgada pelo blog Sertão Quente Notícia, ao revelar a conversa entre o presidente Lula e o ministro Rui Costa sobre o cenário eleitoral baiano, não inaugura o debate — apenas o confirma.
A tese central que se impõe é desconfortável, mas necessária: o chamado “golpe em Jerônimo” não parte da oposição formal, liderada por ACM Neto, mas de setores internos da própria base governista, especialmente daqueles que nunca aceitaram plenamente a transferência do comando do Palácio de Ondina após a saída de Rui Costa. Trata-se de uma clássica disputa intraelites, em que o discurso da viabilidade eleitoral funciona como verniz técnico para uma operação essencialmente política.
No centro dessa engrenagem está a vaga ao Senado. Ela é o nó estratégico da construção de uma chapa “puro-sangue”, capaz de acomodar projetos pessoais, preservar capital político acumulado e manter o controle do campo governista. Quando essa equação se torna instável — seja pela ambição simultânea de lideranças fortes, seja pelo risco de fragmentação da base — o elo mais frágil tende a ser sacrificado. Nesse tabuleiro, Jerônimo passa a ser visto não como solução, mas como variável de ajuste.
É nesse contexto que emerge a figura do “boi de piranha”. Jerônimo é exposto ao desgaste cotidiano da gestão, à cobrança permanente e às narrativas de ineficiência, enquanto outros atores se mantêm relativamente protegidos, preservando imagem, influência e margem de manobra. A rejeição apontada por pesquisas internas, amplamente ventilada como dado técnico, precisa ser lida com cuidado: ela pode ser menos a causa do problema e mais o efeito de um processo deliberado de isolamento político.
O papel do presidente Luís Inácio Lula da Silva nesse xadrez é decisivo e não pode ser interpretado de forma ingênua. A conversa com Rui Costa, conforme relatado pelo Sertão Quente Notícia, ultrapassa o campo administrativo. É um sinal político estratégico, que reposiciona peças, redefine expectativas e envia recados claros à base. Ao sugerir Rui como alternativa para o governo da Bahia, Lula não apenas reage ao crescimento de ACM Neto; ele interfere diretamente na correlação de forças internas do campo governista.
O uso de pesquisas, índices de rejeição regional e o avanço da oposição funcionam, nesse cenário, como justificativas técnicas para decisões que são, no fundo, políticas. A narrativa do “desgaste de Jerônimo” precisa ser problematizada: trata-se de um desgaste inevitável da governabilidade em um contexto adverso ou de uma construção política que fragiliza deliberadamente o governador para viabilizar sua substituição?
Da mesma forma, a movimentação em favor de Rui Costa pode ser lida sob dois prismas. De um lado, como tentativa legítima de conter o avanço de ACM Neto e proteger o projeto nacional de Lula. De outro — e talvez de forma mais realista — como uma reacomodação de poder dentro do próprio campo governista, em que a prioridade não é apenas vencer a oposição, mas definir quem controla a máquina, a narrativa e o futuro político da Bahia.
O que está em jogo, portanto, vai muito além de uma escolha eleitoral. Trata-se de um conflito de projetos, lideranças e controle político, no qual a legitimidade eleitoral é tensionada pelo pragmatismo e pela lógica da preservação de capital político. O discurso da viabilidade, repetido à exaustão, esconde uma operação clássica de substituição de liderança — prática antiga na política brasileira, especialmente quando a disputa não se dá contra o adversário externo, mas dentro de casa.
Na Bahia de 2026, o verdadeiro embate não é apenas entre governo e oposição. É, прежде de tudo, uma batalha silenciosa pelo comando do próprio campo governista. E Jerônimo Rodrigues, goste-se ou não, está no centro desse fogo cruzado.




