Jesus, o Exegeta Esquecido

José Alcimar de Oliveira*
Disse alguém a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem falar contigo” (Mt 12,47).
Respondeu Jesus: “Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Mt 12,48).
01 — Jesus, o Protocamarada
Em 20 de julho de 2026 socializei um breve texto sobre o Dia Internacional da Amizade (DIA) e questionei se não seria também necessário instaurar o Dia Internacional do (da) Camarada, ao mesmo tempo em que, pelas veredas de uma teologia heterodoxa, me referi à figura de Jesus de Nazaré como o primeiro dos camaradas. Diria mesmo, um protocamarada. Ao arrepio do anacronismo (de que poderão me acusar), penso que o Nazareno foi ao mesmo tempo camarada e internacionalista, mesmo que sua missão tenha se limitado à geopolítica semita, de onde nunca se afastou. O mundo palestino foi sua Koenigsberg. Também é preciso reconhecer que foi por força da genialidade de Paulo, apóstolo das nações, e a quem Alain Badiou atribui a fundação do universalismo, que Jesus de Nazaré se tornou internacionalista. Paulo foi um tipo de Lênin de Jesus, “o Marx equívoco”, nas palavras desse irredento marxista e marroquino nascido em Rabat.
02 — A Escuta que Liberta
Se a resposta de Jesus, conforme Mt 12,48, em forma de pergunta, merece uma exegese especial, é porque nela há protossementes de uma visão internacionalista, própria da figura de quem age como um camarada. Sua resposta é a de quem milita a partir de um pertencimento à luta, a uma causa, de alguém não encasulado numa doutrina, instituição ou movimento, mas antes discípulo do devir: “Minha mãe, meus irmãos (parentes, amigas, amigos, companheiras, companheiros) são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. Mas basta ouvir a Palavra de Deus sem questionar o modo de vida de quem fala em nome de Deus? Ainda que em Jesus o Deus abstrato, metafísico, tenha adquirido conteúdo histórico, humano, é preciso dizer que a maior luta do Nazareno consistiu em tentar (conseguiu?) libertar Deus da jaula construída pelo farisaísmo religioso, que impunha ao povo mais sacrifícios e culpas do que alívio, quer para a alma, quer para o corpo. Do contrário, como justificar as palavras de Jesus em Mt 12,7: Misericordiam volo et non sacrificium (“quero a misericórdia e não o sacrifício”). Culpa e dívida alimentam e oportunizam a cópula indecente entre religião e capitalismo: para recorrer a Nietzsche, “pecados são indispensáveis em qualquer sociedade de estrutura sacerdotal”: funcionam como “verdadeiras molas do poder”.
03 — A Prisão Hermenêutica da Palavra
Ouvir Deus de que forma e em que registro? Em sua curta vida pública, Jesus, um sábio, mais ouviu do que falou, ouviu muito, e ouviu muitos que se apresentavam como intérpretes credenciados da Palavra de Deus. O maior desafio (um desafio também exegético) para Jesus era que essa interpretação estreita, abusiva, acerca de Deus, já se havia arraigado na cultura do povo. Não lhe foi necessário ler Bachelard para intuir que, em todos os tempos, o ser humano tem sempre a idade de seus preconceitos, da ignorância socialmente sedimentada. Conforme o franciscano do Medievo, Roger Bacon, a ignorância é “um animal particularmente feroz, que devora e destrói todas as razões”. Campesino, palestino, Jesus vivia num mundo sob o domínio da tradição oral e conhecia bem a interpretação ortodoxa da Palavra de Deus que hegemonizava a cultura religiosa do povo judeu. Uma interpretação viciada, aprisionada pela exegese oficial dos escribas e fariseus, aqueles que se julgavam donos das Sagradas Escrituras. O que não é novidade, porque também hoje no mundo acadêmico há autoras, autores e textos clássicos sob prisão hermenêutica de quem se toma como douta, douto e especialista. Sim, como observa Nietzsche, a condição de especialista implica carregar uma corcunda.
04 — O Exegeta Sem Cátedra
Homem do povo, dotado de rara intuição, Jesus de Nazaré em pouco tempo se reconhece como um tipo de exegeta heterodoxo, sem título nenhum conferido por alguma Academia Superior de Altos Estudos Bíblicos. Cedo, entra num confronto, sempre desigual, com a religião oficial e inicia um Movimento com figuras do povo trabalhador, inclusive com publicanos, gente mal vista e objeto de ódio do povo judeu. Os primeiros cristãos chamaram de Caminho esse Movimento, posteriormente neutralizado com a romanização do cristianismo. A verdade é que Jesus pouco frequentou as sinagogas. Preferia proceder de forma peripatética, o que não nos autoriza ver nele um aristotélico, menos ainda um platônico. Seu caminho era o da ortopraxia. Embora semita, tinha algo de Epicuro em seu modo de vida. Ele inaugura um modelo revolucionário de escuta dos Textos Sagrados e tinha consciência do preço religioso e político de sua irredenta exegese. O episódio da sinagoga de Nazaré, em Lucas 4, dá bem a medida desse conflito: para a leitura, escolhe a dedo um texto do profeta Isaías e mal termina de verbalizar sua exegese, é expulso do templo, sofre o primeiro atentado de sua vida pública, enfrenta a polícia da fé e por pouco escapa dos que, ensandecidos, tentam precipitá-lo de cima de um monte.
“(…) apenas existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O Evangelho morreu na cruz.”
— Friedrich Nietzsche
05 — Contradição como Método
Não sou exegeta, menos ainda especialista em Bíblia. Leitor desconfiado e impenitente, não pertenço a nenhuma escola, ortodoxa ou heterodoxa, dentre as muitas que se debruçaram e continuam a se debruçar para dar inteligibilidade à figura contraditória de Jesus de Nazaré, que sempre escapou às incontáveis tentativas de domesticar seu irredento modo de ser vivido na unidade dialética entre ação e palavra. Cabem ao jovem Nazareno as palavras a que Marx numa carta recorreu para descrever seu devir existencial: sempre me movo por contradições dialéticas. Jesus manifestava, para além da inteligência racional, mítica, metafórica, histórica, uma forma superior de conhecimento, o que Spinoza chamava de intuitivo (scientia intuitiva), uma característica, dentre outras, que de forma luminosa Eduardo Hoornaert descortina em seu recente livro (2025): Jesus de Nazaré: Uma Radiografia para Além dos Evangelhos. Isso faz jus às palavras finais de Spinoza em sua monumental Ética: Sed omnia praeclara tam difficilia, quam rara sunt (Mas todas as coisas excelentes são tão difíceis quanto raras). Não é intempestivo nem gratuito o que afirma Santo Irineu sobre o Nazareno: foi o primeiro homem livre da história.
06 — O Deus Sem Religião
É preciso dizer que Jesus de Nazaré rompe, ainda que de forma não elaborada e por fora das normas canônicas, com a exegese oficial e culturalmente cronificada pelo ritual religioso da intelectualidade que havia se apropriado de Deus, de sua Vontade e de sua Palavra. O Deus de Jesus não tinha religião. Ao Deus Guerreiro, Imperialista, Vingador, Etnocêntrico, Impiedoso, Exclusivista, da Tradição, em suma, ao Deus da Religião, Jesus de Nazaré, ao investir contra essa crosta exegética, inaugura (com base em seu conhecimento do profetismo) a exegese da contradição, do conflito, do Deus Misericórdia, Camarada, que toma o partido dos pequenos, que não guarda nem se abraça ao rancor, como podemos ver no profeta Miquéias (7,18): “Qual é o Deus que, como Vós, apaga a iniquidade e perdoa o pecado do resto de seu povo, que não se ira para sempre porque prefere a misericórdia?”. O Deus cheio de ressentimento do cristianismo (contra quem com justa razão Nietzsche investe) não é comensurável ao Deus Libertador e Misericordioso anunciado e vivido por Jesus de Nazaré.
07 — O Movimento Além da Igreja
Por fim, uma pergunta se impõe: já não estaria na hora (ou já passou?) de se instaurar a figura do Jesus Exegeta e recuperar, a partir de sua ortopraxia, a autoridade que procede de sua experiência e de seu conhecimento de Deus. Não há salvação para o Cristianismo, para a Igreja, fora do Movimento de Jesus. Jesus não fundou uma religião ou Igreja. As Igrejas ditas cristãs se desviaram do Movimento de Jesus. Cristo nunca se disse cristão. Fora do paradigma de uma exegese nazarenocêntrica, enraizada na ortopraxia de Jesus de Nazaré, a leitura da Bíblia pode levar a muitos caminhos e mesmo a desvios, menos ao Deus que, em Jesus de Nazaré, se encarnou como Caminho, Verdade e Vida. Conhecer a Verdade é fazer a Experiência de uma Presença. Não é do próprio Jesus de Nazaré que ouvimos?: “Pai justo, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes sabem que tu me enviaste” (Jo 17,25).
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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e concluiu o mestrado (em Educação, 1998) e o doutorado (em Sociedade e Cultura, 2011). É teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE).
Manaus, AM, julho de 2026.




