
Padre Carlos
Na política, há discursos que impressionam — e há trajetórias que precisam sustentar o peso dessas palavras. O recente posicionamento do vereador Diogo Azevedo, em tom firme e até desafiador na Câmara de Vitória da Conquista, revela mais do que uma defesa pessoal: expõe uma tensão clássica da vida pública — a distância entre o discurso da fidelidade ao povo e a prática da lealdade política.
É legítimo que um vereador busque recursos, dialogue com diferentes forças e até construa novos caminhos partidários. A política é dinâmica, e a mobilidade faz parte do jogo democrático. No entanto, há um elemento que não pode ser negligenciado: a memória política. E com ela, a reciprocidade.
Ao afirmar que “não é traidor” e que sua fidelidade está no povo — e não em partidos — o vereador levanta uma reflexão importante. Mas essa mesma lógica exige coerência. Porque, se a fidelidade não é partidária, ela também não pode ser seletiva quando se trata dos apoios que foram fundamentais em sua caminhada.
É impossível ignorar o papel que lideranças como Dona Irma e a prefeita Sheila Lemos tiveram em sua trajetória. Em momentos decisivos, quando a construção política exigia base, confiança e estrutura, houve apoio. Houve acolhimento. Houve investimento político. E, sobretudo, houve crença.
A política não é feita apenas de votos — ela é feita de relações.
E é exatamente nesse ponto que a crítica se impõe, com todo respeito que o cargo do vereador exige: onde está a reciprocidade?
Se a pré-candidatura foi construída “em grupo”, como afirmado, por que esse mesmo grupo não se vê refletido no apoio às candidaturas que também emergem desse campo político? Se não houve decisão individual, por que a prática parece indicar um caminho solitário?
A ausência de alinhamento com candidaturas do próprio grupo levanta uma dúvida legítima — não apenas entre adversários, mas entre aliados: trata-se de independência política ou de ruptura silenciosa?
Outro ponto sensível é a justificativa das faltas. Buscar recursos é nobre, necessário e digno de reconhecimento. Mas a função parlamentar também exige presença, debate e compromisso institucional. A frase “faltei e faltarei quando for necessário” carrega uma carga simbólica forte — e perigosa. Porque pode ser interpretada não como sacrifício em nome da cidade, mas como relativização do mandato.
A política exige equilíbrio.
Ao trazer à tona problemas graves — como a falta de oncologistas e neuropediatras — o vereador cumpre seu papel de denúncia e representação. Mas essas pautas não podem servir como escudo para todas as críticas. A população precisa de resultados, mas também de coerência e responsabilidade política.
E há, por fim, um elemento humano que merece respeito: a dor pessoal pela perda do pai. Isso não se discute. Isso se acolhe. A trajetória de superação é legítima e toca qualquer cidadão. No entanto, emoção não pode substituir a análise política — nem justificar decisões que impactam coletivamente.
A política não é feita apenas de resistência individual — ela é construída sobre confiança coletiva.
O discurso de que “não vai cair” pode até soar forte. Mas, na política, cair não é apenas perder mandato ou apoio popular. Cair, muitas vezes, é perder a coerência com a própria história.
E é exatamente isso que está em jogo.
Não se trata de desqualificar o vereador Diogo Azevedo. Trata-se de lembrar que a política exige mais do que coragem para enfrentar críticas — exige grandeza para reconhecer os caminhos que o trouxeram até aqui.
Porque, no fim, a pergunta que permanece não é se ele é traidor ou não.
A pergunta é outra, mais profunda e mais incômoda:
Houve reciprocidade?
E, na política, essa resposta costuma definir o futuro.




