Política e Resenha

LULA, A BÍBLIA E AS URNAS: O PLANO PARA ROMPER A RESISTÊNCIA EVANGÉLICA EM 2026

 

 

Por Padre Carlos

A política brasileira possui uma extraordinária capacidade de transformar velhas estratégias em novidades embaladas para consumo eleitoral. A mais recente delas surge na forma de uma carta aberta do Partido dos Trabalhadores ao eleitorado evangélico. O documento, cuidadosamente construído, mistura versículos bíblicos, programas sociais e propostas de governo numa tentativa evidente de estabelecer uma ponte com um segmento que, há anos, representa um dos maiores desafios eleitorais para a esquerda brasileira.

Não há nada de novo no uso da linguagem religiosa pela política. Tampouco existe novidade no uso da política pela religião. Desde os tempos do Império Romano, passando pelas monarquias europeias e chegando à América Latina contemporânea, governantes e grupos políticos compreenderam que a fé mobiliza corações com uma intensidade que nenhuma teoria econômica consegue alcançar.

O curioso é observar como o PT, durante décadas acusado por setores evangélicos de representar uma ameaça aos valores cristãos, agora procura dialogar justamente com esse público utilizando uma ferramenta que lhe era frequentemente atribuída aos adversários: a linguagem da fé.

A carta apresenta versículos de Isaías, Tiago, Mateus, Efésios e Pedro como moldura para temas como combate à pobreza, reforma agrária, fortalecimento da agricultura familiar, proteção ambiental e ampliação de programas sociais. O texto procura demonstrar que determinadas políticas públicas encontram respaldo nos princípios bíblicos de justiça social, solidariedade e cuidado com os mais vulneráveis.

Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma jogada inteligente. Afinal, ignorar um grupo que representa mais de um quarto da população brasileira seria um erro político elementar. Os números do IBGE mostram que os evangélicos já são uma das maiores forças sociais do país, e as pesquisas eleitorais revelam que o campo progressista enfrenta dificuldades históricas para conquistar sua confiança.

Mas há uma ironia interessante nesse movimento.

Durante anos, parte da esquerda criticou duramente a presença da religião no debate político. Muitos intelectuais e militantes denunciaram o uso eleitoral da fé quando ele favorecia adversários conservadores. Agora, quando a Bíblia aparece ao lado de propostas alinhadas ao governo, o fenômeno passa a ser apresentado como diálogo democrático.

Por outro lado, também seria injusto ignorar a contradição do outro lado da trincheira. Setores conservadores que durante décadas misturaram sermões, campanhas eleitorais e disputas partidárias parecem desconfortáveis quando a mesma estratégia passa a ser utilizada por seus adversários. O que antes era considerado legítimo passa a ser denunciado como instrumentalização da religião.

No fundo, estamos diante de uma disputa por narrativas.

A Bíblia tornou-se um território político. Cada grupo procura destacar os versículos que melhor dialogam com sua visão de mundo. Uns enfatizam costumes, família e moralidade. Outros ressaltam pobreza, justiça social e inclusão. O resultado é uma espécie de campeonato hermenêutico nacional, onde cada lado busca demonstrar que Deus está mais próximo de sua plataforma eleitoral.

O problema começa quando a fé deixa de iluminar a política e passa a ser utilizada como combustível eleitoral.

A religião possui uma dimensão transcendente que ultrapassa governos, partidos e mandatos. Quando se transforma em mera ferramenta de marketing político, corre o risco de perder exatamente aquilo que lhe confere força: sua capacidade de falar à consciência humana acima das disputas temporárias do poder.

Talvez o aspecto mais revelador de toda essa história seja a autocrítica feita pela própria Janja ao reconhecer que o PT se afastou das igrejas durante muitos anos. Esse reconhecimento sugere que a carta não é apenas uma declaração de princípios; é também uma tentativa de reconstrução de pontes perdidas.

O sucesso dessa estratégia, contudo, dependerá menos dos versículos citados e mais da credibilidade de quem os utiliza. O eleitor evangélico brasileiro não é um bloco homogêneo, como o próprio documento reconhece. É formado por milhões de pessoas com diferentes visões políticas, sociais e teológicas.

No final das contas, permanece uma pergunta inevitável: estamos assistindo a um diálogo sincero entre política e fé ou apenas a mais um capítulo da eterna corrida por votos?

A resposta provavelmente surgirá não nas páginas da carta, mas nas urnas de 2026.

E as urnas, diferentemente dos partidos e dos pastores, não costumam citar versículos.