O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) vive um momento decisivo. Criado em 2004 como alternativa à esquerda do PT, o partido carrega em seu DNA a contradição entre a defesa de princípios radicais e a necessidade de se afirmar como força política relevante. Hoje, fragmentado em correntes que oscilam entre o apoio ao governo Lula e críticas à sua política econômica, o PSOL reflete os dilemas de uma esquerda que ainda não superou as cicatrizes de sua origem dissidente.
Das expulsões no PT à fundação do PSOL: um legado de ruptura
A história do PSOL está intrinsecamente ligada a um racha no PT durante o primeiro governo Lula. Em 2003, a votação contra a reforma da previdência levou à expulsão de quatro parlamentares petistas, incluindo Heloísa Helena e Luciana Genro, que fundaram o partido em 2005. O PSOL surgiu como um “grito de resistência” à guinada moderada do PT, prometendo uma esquerda mais fiel aos ideais socialistas e menos disposta a negociar com o establishment.
Nas eleições de 2006, Heloísa Helena obteve 6,5 milhões de votos para a presidência, consolidando o partido como voz crítica ao lulismo. Nas décadas seguintes, projetos como a destinação de 10% do PIB para a educação e a CPI das Milícias no Rio de Janeiro marcaram sua trajetória. Mas a unidade inicial não resistiu ao tempo.
A encruzilhada de 2025: governo Lula, Haddad e o racha na bancada
Atualmente, o PSOL está dividido em dois blocos antagônicos:
- O “PSOL de Todas as Lutas”, liderado por Guilherme Boulos, defende uma postura de apoio crítico ao governo Lula, priorizando a luta contra a extrema direita.
- A “Oposição de Esquerda”, com Sâmia Bomfim e Glauber Braga, critica a política econômica de Fernando Haddad e exige maior independência do Planalto.
A crise deflagrada pela demissão do economista David Deccache, assessor ligado à ala minoritária, escancarou a disputa. Acusado de atacar parlamentares governistas, Deccache tornou-se símbolo do embate entre pragmatismo e radicalismo. Seus aliados denunciam “autoritarismo” na condução do partido, enquanto a maioria alega “conflito ético-profissional”.
Reformulação programática: o PSOL no século XXI
Pela primeira vez em 20 anos, o partido revisará seu programa político. A proposta inclui debates sobre temas como:
- Regulação de redes sociais e inteligência artificial;
- Redução da jornada de trabalho;
- Questões ambientais e identitárias.
A atualização é urgente: o texto original ainda menciona a extinta Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e ignora desafios contemporâneos. Para Paula Coradi, presidente do partido, a reformulação visa atrair novas gerações sem abandonar o socialismo como “horizonte estratégico”.
O dilema da unidade: entre o PT e o abismo
O PSOL repete, em escala menor, os mesmos erros que o PT cometeu nos anos 2000. A tentativa de conciliar correntes antagônicas — de trotskistas a social-democratas — gera paralisia. Enquanto Boulos busca ampliar o eleitorado com discursos menos radicais, setores internos resistem a qualquer aproximação com o “lulismo traidor”.
A saída depende de responder a uma pergunta incômoda: o PSOL quer ser um partido de governo ou de protesto? A primeira opção exigiria pactuar com reformas graduais; a segunda, radicalizar o discurso e arriscar o isolamento.
Conclusão: o futuro de uma utopia fragmentada
O PSOL nasceu da desilusão com o PT, mas hoje enfrenta dilemas semelhantes. Seu maior desafio não é derrotar a direita, mas convencer suas próprias alas de que a unidade não significa uniformidade. Enquanto debates como o ajuste fiscal de Haddad dividem o partido, a sociedade espera respostas para o desemprego, a violência e a crise climática.
A sobrevivência do PSOL como projeto relevante depende de resgatar seu DNA crítico sem cair no sectarismo. Como alertou Valter Pomar em 2021, “o antipetismo é de direita”, mas a submissão acrítica ao governo também é um beco sem saída. Resta saber se o partido conseguirá navegar entre esses extremos — ou se sucumbirá ao mesmo destino de tantas dissidências da esquerda latino-americana.
Padre Carlos