
Em tempos de inflação persistente e busca incessante por alternativas acessíveis, o ovo, outrora o “campeão da economia” na mesa do brasileiro, parece ter perdido seu reinado. A notícia de que o preço da bandeja de ovos em Vitória da Conquista ultrapassou o valor do quilo do frango e da bisteca suína soa como um duro golpe no bolso do consumidor, especialmente em um estado como a Bahia, onde a alimentação básica já representa um peso significativo no orçamento familiar.
A explicação para essa súbita escalada de preços, conforme apontam especialistas e a Associação Brasileira de Avicultura, reside em uma complexa teia de fatores, que vão desde a crise sanitária nos Estados Unidos até os custos de produção em alta no Brasil. A gripe aviária, que assolou os EUA e dizimou seus plantéis de galinhas, gerou uma demanda voraz por ovos no mercado internacional. Com isso, grandes empresas produtoras brasileiras, historicamente responsáveis por abastecer o Nordeste, redirecionaram sua produção para atender aos lucrativos contratos de exportação.
O resultado é evidente: menos ovos disponíveis no mercado interno, especialmente no Nordeste, e, consequentemente, um aumento expressivo nos preços. A lógica da oferta e da procura, implacável como sempre, castiga o consumidor baiano, que se vê diante de um dilema: abrir mão de um alimento nutritivo e versátil ou comprometer ainda mais o orçamento familiar.
No entanto, a crise sanitária americana é apenas uma peça desse intrincado quebra-cabeça. Os custos de produção, impulsionados pelo aumento dos salários, do frete e, principalmente, da ração, também contribuem para a inflação do ovo. Em um país onde a infraestrutura precária e a alta carga tributária pesam sobre o setor produtivo, o aumento dos combustíveis impacta diretamente o preço dos insumos, elevando os custos para os produtores e, inevitavelmente, para o consumidor final.
Diante desse cenário, é preciso questionar: o que pode ser feito para conter essa escalada de preços e garantir o acesso a um alimento tão importante para a população? A resposta não é simples e exige uma ação coordenada entre o governo, os produtores e os comerciantes.
Em primeiro lugar, é fundamental que o governo implemente políticas públicas que incentivem a produção local de ovos, reduzindo a dependência do mercado externo e fortalecendo a economia regional. Isso pode ser feito por meio de linhas de crédito facilitadas, incentivos fiscais e programas de apoio técnico aos pequenos e médios produtores.
Em segundo lugar, é preciso investir em infraestrutura, modernizando as estradas e os portos, a fim de reduzir os custos de transporte e facilitar o escoamento da produção. A desoneração da folha de pagamento e a revisão da política de preços dos combustíveis também são medidas urgentes para aliviar o peso dos custos de produção sobre o setor avícola.
Por fim, é importante que os comerciantes atuem com responsabilidade, evitando práticas abusivas e buscando alternativas para oferecer preços mais competitivos aos consumidores. A transparência na formação dos preços e a busca por negociações justas com os produtores podem contribuir para estabilizar o mercado e garantir o acesso a um alimento essencial para a população.
O ovo que virou ouro é um símbolo da fragilidade da economia brasileira e da necessidade urgente de políticas públicas que promovam o desenvolvimento sustentável e a segurança alimentar. Em um país onde a desigualdade social ainda é uma realidade gritante, garantir o acesso a alimentos nutritivos e acessíveis é um imperativo moral e uma condição fundamental para o bem-estar da população. Caso contrário, a inflação do ovo será apenas mais um capítulo da triste história da fome e da exclusão social no Brasil.