Política e Resenha

“TRAFICANTES ECOLÓGICOS”? DUPLA É PRESA COM DROGAS EM CARRO ELÉTRICO E CASO CHAMA ATENÇÃO EM VITÓRIA DA CONQUISTA

Uma ocorrência policial inusitada movimentou a zona oeste de Vitória da Conquista nesta quinta-feira (09) e rapidamente chamou a atenção da população: dois indivíduos foram presos transportando uma quantidade significativa de drogas em um carro elétrico, em um episódio que, pela peculiaridade, gerou comentários e até ironias nas redes sociais, sendo apelidado por alguns como o caso dos “traficantes ecológicos”.

A ação teve início nas imediações do bairro Vila Serrana, quando uma guarnição identificou um veículo em atitude suspeita. Apesar de, em um primeiro momento, os ocupantes conseguirem sair do radar policial, o comportamento posterior acabou chamando ainda mais atenção. O condutor passou a realizar manobras perigosas ao perceber a aproximação da viatura, o que motivou uma abordagem mais incisiva.

A partir da interceptação, o caso ganhou novos desdobramentos. Durante o interrogatório, um dos suspeitos revelou informações que levaram os agentes a outro endereço, onde foram encontrados mais entorpecentes e materiais relacionados à atividade criminosa. A operação evidenciou não apenas a tentativa de fuga, mas também a estrutura organizada por trás da ação.

No total, foram apreendidos um veículo elétrico da marca BYD, valores em dinheiro, dezenas de porções de substância análoga à cocaína — somando aproximadamente 450 gramas —, além de balanças de precisão, celulares de diferentes marcas, embalagens para acondicionamento e objetos de valor. O conjunto dos itens reforça a suspeita de atuação estruturada no tráfico de drogas.

O caso, além de seu aspecto curioso, evidencia um ponto importante: a modernização dos meios utilizados por criminosos não passa despercebida pelas forças de segurança. A atuação rápida e coordenada da polícia demonstra a capacidade de adaptação diante de novas estratégias, garantindo uma resposta eficaz à sociedade.

Mesmo diante de situações inusitadas, o trabalho policial segue firme, baseado em inteligência, investigação e presença ostensiva. A apreensão e a prisão dos envolvidos reforçam o compromisso institucional com a segurança pública e com a tranquilidade da população conquistense.

O episódio, que mistura tecnologia, ousadia e ilegalidade, termina com uma mensagem clara: independentemente do meio utilizado, a lei continua sendo aplicada com rigor, e o esforço conjunto das instituições segue como peça-chave na construção de uma cidade mais segura.

(Maria Clara)

“TRAFICANTES ECOLÓGICOS”? DUPLA É PRESA COM DROGAS EM CARRO ELÉTRICO E CASO CHAMA ATENÇÃO EM VITÓRIA DA CONQUISTA

Uma ocorrência policial inusitada movimentou a zona oeste de Vitória da Conquista nesta quinta-feira (09) e rapidamente chamou a atenção da população: dois indivíduos foram presos transportando uma quantidade significativa de drogas em um carro elétrico, em um episódio que, pela peculiaridade, gerou comentários e até ironias nas redes sociais, sendo apelidado por alguns como o caso dos “traficantes ecológicos”.

A ação teve início nas imediações do bairro Vila Serrana, quando uma guarnição identificou um veículo em atitude suspeita. Apesar de, em um primeiro momento, os ocupantes conseguirem sair do radar policial, o comportamento posterior acabou chamando ainda mais atenção. O condutor passou a realizar manobras perigosas ao perceber a aproximação da viatura, o que motivou uma abordagem mais incisiva.

A partir da interceptação, o caso ganhou novos desdobramentos. Durante o interrogatório, um dos suspeitos revelou informações que levaram os agentes a outro endereço, onde foram encontrados mais entorpecentes e materiais relacionados à atividade criminosa. A operação evidenciou não apenas a tentativa de fuga, mas também a estrutura organizada por trás da ação.

No total, foram apreendidos um veículo elétrico da marca BYD, valores em dinheiro, dezenas de porções de substância análoga à cocaína — somando aproximadamente 450 gramas —, além de balanças de precisão, celulares de diferentes marcas, embalagens para acondicionamento e objetos de valor. O conjunto dos itens reforça a suspeita de atuação estruturada no tráfico de drogas.

O caso, além de seu aspecto curioso, evidencia um ponto importante: a modernização dos meios utilizados por criminosos não passa despercebida pelas forças de segurança. A atuação rápida e coordenada da polícia demonstra a capacidade de adaptação diante de novas estratégias, garantindo uma resposta eficaz à sociedade.

Mesmo diante de situações inusitadas, o trabalho policial segue firme, baseado em inteligência, investigação e presença ostensiva. A apreensão e a prisão dos envolvidos reforçam o compromisso institucional com a segurança pública e com a tranquilidade da população conquistense.

O episódio, que mistura tecnologia, ousadia e ilegalidade, termina com uma mensagem clara: independentemente do meio utilizado, a lei continua sendo aplicada com rigor, e o esforço conjunto das instituições segue como peça-chave na construção de uma cidade mais segura.

(Maria Clara)

Projeto de Léia Meira propõe título histórico: Vitória da Conquista pode se tornar a Capital Baiana do Cavalo!

Vitória da Conquista está prestes a dar um passo simbólico e histórico que promete fortalecer ainda mais sua identidade cultural e econômica. Um projeto de lei apresentado na Câmara Municipal propõe reconhecer oficialmente o município como a Capital Baiana do Cavalo, além de instituir o Dia Municipal do Cavalo, a ser celebrado anualmente no terceiro sábado de maio.

A proposta, de autoria da vereadora Léia Meira (Léia de Quinho), foi protocolada no último dia 8 de abril e já desperta grande interesse entre criadores, trabalhadores rurais, amantes da cultura sertaneja e toda a população que reconhece a força dessa tradição na região.

O texto do projeto destaca algo que os conquistenses conhecem bem: o cavalo não é apenas um animal, mas parte viva da história local. A cidade possui uma das mais fortes tradições equestres da Bahia, com destaque para a criação de raças consagradas como o Mangalarga Marchador e o Quarto de Milha, além de sediar eventos que movimentam a economia e reforçam os laços culturais.

Cavalgadas, vaquejadas, provas de marcha, leilões e festas populares fazem parte do calendário e da memória afetiva da população. Essas manifestações não apenas preservam costumes, mas também geram emprego, renda e fortalecem o turismo regional.

A proposta também resgata figuras históricas fundamentais para a construção do município, como o tropeiro e o vaqueiro, personagens que ajudaram a desbravar o território e consolidar a identidade do sertão baiano. Esse resgate ganha ainda mais força com iniciativas recentes, como o reconhecimento das cavalgadas como patrimônio cultural imaterial e a realização da primeira Missa do Vaqueiro da Joia do Sertão Baiano, em novembro de 2025, que reuniu participantes de diversas cidades e emocionou o público presente.

Outro ponto importante do projeto é o seu caráter colaborativo. Caso aprovado, não haverá imposição de obrigações diretas ao poder público, permitindo que associações, entidades e a própria comunidade organizem eventos e celebrações, fortalecendo o protagonismo local.

A proposta agora segue para análise dos vereadores, em um processo que valoriza o diálogo institucional e a construção coletiva de iniciativas que beneficiem a cidade.

Se aprovado, o projeto não apenas reconhecerá oficialmente uma vocação histórica de Vitória da Conquista, mas também abrirá caminho para novas oportunidades culturais, econômicas e turísticas, consolidando ainda mais o município como referência no cenário equestre baiano.

A cidade, que já carrega em sua essência a força do campo e das tradições, pode agora transformar esse orgulho em um título oficial — um reconhecimento que ecoa passado, presente e futuro.

(Maria Clara)

Projeto de Léia Meira propõe título histórico: Vitória da Conquista pode se tornar a Capital Baiana do Cavalo!

Vitória da Conquista está prestes a dar um passo simbólico e histórico que promete fortalecer ainda mais sua identidade cultural e econômica. Um projeto de lei apresentado na Câmara Municipal propõe reconhecer oficialmente o município como a Capital Baiana do Cavalo, além de instituir o Dia Municipal do Cavalo, a ser celebrado anualmente no terceiro sábado de maio.

A proposta, de autoria da vereadora Léia Meira (Léia de Quinho), foi protocolada no último dia 8 de abril e já desperta grande interesse entre criadores, trabalhadores rurais, amantes da cultura sertaneja e toda a população que reconhece a força dessa tradição na região.

O texto do projeto destaca algo que os conquistenses conhecem bem: o cavalo não é apenas um animal, mas parte viva da história local. A cidade possui uma das mais fortes tradições equestres da Bahia, com destaque para a criação de raças consagradas como o Mangalarga Marchador e o Quarto de Milha, além de sediar eventos que movimentam a economia e reforçam os laços culturais.

Cavalgadas, vaquejadas, provas de marcha, leilões e festas populares fazem parte do calendário e da memória afetiva da população. Essas manifestações não apenas preservam costumes, mas também geram emprego, renda e fortalecem o turismo regional.

A proposta também resgata figuras históricas fundamentais para a construção do município, como o tropeiro e o vaqueiro, personagens que ajudaram a desbravar o território e consolidar a identidade do sertão baiano. Esse resgate ganha ainda mais força com iniciativas recentes, como o reconhecimento das cavalgadas como patrimônio cultural imaterial e a realização da primeira Missa do Vaqueiro da Joia do Sertão Baiano, em novembro de 2025, que reuniu participantes de diversas cidades e emocionou o público presente.

Outro ponto importante do projeto é o seu caráter colaborativo. Caso aprovado, não haverá imposição de obrigações diretas ao poder público, permitindo que associações, entidades e a própria comunidade organizem eventos e celebrações, fortalecendo o protagonismo local.

A proposta agora segue para análise dos vereadores, em um processo que valoriza o diálogo institucional e a construção coletiva de iniciativas que beneficiem a cidade.

Se aprovado, o projeto não apenas reconhecerá oficialmente uma vocação histórica de Vitória da Conquista, mas também abrirá caminho para novas oportunidades culturais, econômicas e turísticas, consolidando ainda mais o município como referência no cenário equestre baiano.

A cidade, que já carrega em sua essência a força do campo e das tradições, pode agora transformar esse orgulho em um título oficial — um reconhecimento que ecoa passado, presente e futuro.

(Maria Clara)

COMOÇÃO EM CONQUISTA: MORTE PRECOCE DE EDVAL ARAÚJO NETO ABALA A CIDADE NESTA SEXTA-FEIRA

A manhã desta sexta-feira (10) foi marcada por profunda tristeza em Vitória da Conquista. A notícia do falecimento de Edval Araújo Neto, aos 47 anos, rapidamente se espalhou, gerando comoção entre familiares, amigos e diversos setores da sociedade local.

Edval estava internado no Hospital Geral de Vitória da Conquista, onde vinha recebendo cuidados médicos diante de um quadro de saúde delicado. Apesar dos esforços das equipes de saúde, ele não resistiu às complicações, deixando um sentimento coletivo de perda e consternação.

Filho do empresário Carlos Alberto Daniel de Moura Filho, conhecido na cidade como Daniel da Eletec, Edval era uma figura conhecida e querida em seu círculo social. Sua partida precoce interrompe uma trajetória marcada por vínculos familiares sólidos e relações construídas ao longo dos anos em Vitória da Conquista.

A mobilização em torno de sua despedida reflete o impacto de sua ausência. A cerimônia de velório está sendo realizada no Cerimonial Vitória, localizado na Rua Olavo Bilac, nº 312, no Centro, reunindo amigos e familiares que prestam as últimas homenagens. O sepultamento está previsto para as 16h desta sexta-feira, em um momento que promete ser de forte emoção e solidariedade.

Diante de perdas como esta, a cidade se une em um gesto coletivo de empatia, reafirmando os laços que conectam sua população. O episódio também ressalta a importância das estruturas de saúde e do cuidado contínuo com a vida, elementos fundamentais para o bem-estar da comunidade.

Neste momento de dor, ficam as lembranças, o legado afetivo e a certeza de que Edval Araújo Neto será lembrado por aqueles que compartilharam sua caminhada.

(Maria Clara)

COMOÇÃO EM CONQUISTA: MORTE PRECOCE DE EDVAL ARAÚJO NETO ABALA A CIDADE NESTA SEXTA-FEIRA

A manhã desta sexta-feira (10) foi marcada por profunda tristeza em Vitória da Conquista. A notícia do falecimento de Edval Araújo Neto, aos 47 anos, rapidamente se espalhou, gerando comoção entre familiares, amigos e diversos setores da sociedade local.

Edval estava internado no Hospital Geral de Vitória da Conquista, onde vinha recebendo cuidados médicos diante de um quadro de saúde delicado. Apesar dos esforços das equipes de saúde, ele não resistiu às complicações, deixando um sentimento coletivo de perda e consternação.

Filho do empresário Carlos Alberto Daniel de Moura Filho, conhecido na cidade como Daniel da Eletec, Edval era uma figura conhecida e querida em seu círculo social. Sua partida precoce interrompe uma trajetória marcada por vínculos familiares sólidos e relações construídas ao longo dos anos em Vitória da Conquista.

A mobilização em torno de sua despedida reflete o impacto de sua ausência. A cerimônia de velório está sendo realizada no Cerimonial Vitória, localizado na Rua Olavo Bilac, nº 312, no Centro, reunindo amigos e familiares que prestam as últimas homenagens. O sepultamento está previsto para as 16h desta sexta-feira, em um momento que promete ser de forte emoção e solidariedade.

Diante de perdas como esta, a cidade se une em um gesto coletivo de empatia, reafirmando os laços que conectam sua população. O episódio também ressalta a importância das estruturas de saúde e do cuidado contínuo com a vida, elementos fundamentais para o bem-estar da comunidade.

Neste momento de dor, ficam as lembranças, o legado afetivo e a certeza de que Edval Araújo Neto será lembrado por aqueles que compartilharam sua caminhada.

(Maria Clara)

ARTIGO – O ESTADO QUE CRIMINALIZA A PRÓPRIA SOCIEDADE (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na história em que as palavras deixam de ser metáforas e passam a soar como sentenças. Chamar o Estado de criminoso não é apenas um recurso retórico — é um grito. Um grito que ecoa das periferias esquecidas, dos corredores lotados dos hospitais públicos, das filas invisíveis da justiça que nunca chega. É o retrato de um país onde a promessa constitucional de dignidade se dissolve diante da realidade.

O que acontece quando o Estado, criado para proteger, passa a ferir? Quando aquele que deveria garantir direitos se transforma no principal agente de sua negação? Não se trata apenas de corrupção, embora ela exista. Trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e, por isso mesmo, mais perverso: a normalização da injustiça como política pública.

No Brasil contemporâneo, o Estado falha — e falha sistematicamente. Falha na segurança, quando permite que territórios inteiros sejam dominados pelo medo. Falha na saúde, quando transforma o sofrimento em rotina e a espera em sentença. Falha na educação, quando abandona gerações inteiras à ignorância funcional. E falha, sobretudo, na justiça, quando aplica a lei com pesos diferentes, dependendo de quem está diante dela.

É nesse ponto que a acusação ganha força: não é apenas incompetência. É seletividade. É escolha. O Estado que prende com rapidez o pequeno infrator, mas arrasta processos de grandes escândalos por anos, está dizendo — ainda que em silêncio — quem realmente importa. E quem pode ser descartado.

A violência institucional, muitas vezes invisível para quem está no topo, é sentida na pele por quem vive na base. Ela não aparece apenas nos confrontos explícitos, mas nas decisões burocráticas, nos cortes orçamentários, na ausência de políticas públicas eficazes. É a violência do abandono. E o abandono, quando sistemático, também mata.

O mais inquietante é que esse modelo vai se naturalizando. A sociedade se acostuma. A indignação vira cansaço. E o cansaço abre espaço para o cinismo: “sempre foi assim”. Mas não, não deveria ser. Um Estado democrático não pode se permitir agir como uma máquina de exclusão.

Há uma responsabilidade moral que não pode ser ignorada. Governar não é apenas administrar números, é lidar com vidas. Cada decisão — ou omissão — carrega consequências concretas. E quando essas consequências recaem sempre sobre os mesmos, estamos diante de uma estrutura que não apenas falha, mas escolhe falhar.

Romper esse ciclo exige mais do que reformas técnicas. Exige coragem política e consciência coletiva. Exige que a sociedade volte a cobrar, a questionar, a não aceitar como normal aquilo que é, em essência, uma distorção grave do papel do Estado.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é se o Estado pode ser criminoso. A pergunta é: até quando vamos aceitar que ele seja?

ARTIGO – O ESTADO QUE CRIMINALIZA A PRÓPRIA SOCIEDADE (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na história em que as palavras deixam de ser metáforas e passam a soar como sentenças. Chamar o Estado de criminoso não é apenas um recurso retórico — é um grito. Um grito que ecoa das periferias esquecidas, dos corredores lotados dos hospitais públicos, das filas invisíveis da justiça que nunca chega. É o retrato de um país onde a promessa constitucional de dignidade se dissolve diante da realidade.

O que acontece quando o Estado, criado para proteger, passa a ferir? Quando aquele que deveria garantir direitos se transforma no principal agente de sua negação? Não se trata apenas de corrupção, embora ela exista. Trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e, por isso mesmo, mais perverso: a normalização da injustiça como política pública.

No Brasil contemporâneo, o Estado falha — e falha sistematicamente. Falha na segurança, quando permite que territórios inteiros sejam dominados pelo medo. Falha na saúde, quando transforma o sofrimento em rotina e a espera em sentença. Falha na educação, quando abandona gerações inteiras à ignorância funcional. E falha, sobretudo, na justiça, quando aplica a lei com pesos diferentes, dependendo de quem está diante dela.

É nesse ponto que a acusação ganha força: não é apenas incompetência. É seletividade. É escolha. O Estado que prende com rapidez o pequeno infrator, mas arrasta processos de grandes escândalos por anos, está dizendo — ainda que em silêncio — quem realmente importa. E quem pode ser descartado.

A violência institucional, muitas vezes invisível para quem está no topo, é sentida na pele por quem vive na base. Ela não aparece apenas nos confrontos explícitos, mas nas decisões burocráticas, nos cortes orçamentários, na ausência de políticas públicas eficazes. É a violência do abandono. E o abandono, quando sistemático, também mata.

O mais inquietante é que esse modelo vai se naturalizando. A sociedade se acostuma. A indignação vira cansaço. E o cansaço abre espaço para o cinismo: “sempre foi assim”. Mas não, não deveria ser. Um Estado democrático não pode se permitir agir como uma máquina de exclusão.

Há uma responsabilidade moral que não pode ser ignorada. Governar não é apenas administrar números, é lidar com vidas. Cada decisão — ou omissão — carrega consequências concretas. E quando essas consequências recaem sempre sobre os mesmos, estamos diante de uma estrutura que não apenas falha, mas escolhe falhar.

Romper esse ciclo exige mais do que reformas técnicas. Exige coragem política e consciência coletiva. Exige que a sociedade volte a cobrar, a questionar, a não aceitar como normal aquilo que é, em essência, uma distorção grave do papel do Estado.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é se o Estado pode ser criminoso. A pergunta é: até quando vamos aceitar que ele seja?

ARTIGO — O PREÇO DO PODER E A PERDA DA ALMA (Padre Carlos)

 

 

Há partidos que nascem como instrumentos históricos. Outros, como resposta moral. E há aqueles que, ao longo do tempo, se tornam vítimas da própria trajetória. O Partido dos Trabalhadores foi, sem dúvida, uma das mais vigorosas expressões de organização popular da história política recente do Brasil. Nasceu das greves, das pastorais, das periferias e dos sonhos. Era mais que uma sigla: era identidade, pertencimento, quase uma fé política.

Mas o tempo — e sobretudo o poder — cobra seu preço.

A permanência prolongada no comando do Estado foi, para o PT, ao mesmo tempo conquista e armadilha. Ao se consolidar como força governante, o partido passou a operar não mais sob a lógica da mobilização de base, mas sob o cálculo frio da governabilidade. E foi nesse deslocamento que algo essencial começou a se perder.

A política, que antes era alimentada pela militância, passou a ser regida por acordos. As bases, antes protagonistas, tornaram-se figurantes. E os princípios, que davam sentido à luta, passaram a ser relativizados em nome da permanência no poder.

Não se trata de ingenuidade. Governar exige articulação. Mas quando as alianças com setores de centro e até de centro-direita se tornam mais importantes que a escuta das bases, o partido deixa de ser instrumento de transformação e passa a ser apenas mais um operador do sistema.

É nesse contexto que saídas como a de Moema Gramacho ganham significado que vai além do gesto individual. Após mais de quatro décadas de militância, sua decisão de deixar o partido revela não apenas um rompimento pessoal, mas um sintoma coletivo. Quando quadros históricos começam a sair, não é apenas uma crise de filiação — é uma crise de identidade.

Moema não é uma figura qualquer. Sua trajetória em Lauro de Freitas ajudou a estruturar políticas públicas importantes, especialmente nas áreas sociais e de proteção às mulheres. Sob sua gestão, nasceram iniciativas como o Centro de Referência Lélia Gonzalez, a Secretaria de Políticas para Mulheres e programas de segurança alimentar e habitação. Há um legado concreto, que dialoga com aquilo que o PT sempre disse representar.

No entanto, mesmo lideranças com essa história parecem hoje diante de um dilema incômodo: ou se submetem às decisões dos “caciques” partidários, muitas vezes distantes da realidade local, ou seguem outro caminho. A política interna, que deveria ser espaço de debate e construção coletiva, se transforma em ambiente de imposição.

E isso tem consequências profundas.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a saída de uma ex-prefeita ou a crise de um partido específico. É algo maior: a dificuldade de organizações políticas de massa em preservar sua essência quando atravessam longos períodos no poder.

O pragmatismo, quando absoluto, corrói. Ele substitui o sonho pela estratégia, o coletivo pelo cálculo, a identidade pela conveniência.

E talvez seja essa a maior tristeza de todas.

Ver um partido que nasceu das ruas, das greves e das comunidades ser gradualmente diluído por decisões que priorizam a sobrevivência política em detrimento da coerência ideológica. Ver militantes históricos se afastando não por discordâncias pontuais, mas por não mais se reconhecerem naquilo que ajudaram a construir.

O poder, afinal, não é neutro. Ele transforma — e, muitas vezes, deforma.

Resta saber se ainda há espaço para reconstrução ou se o processo de distanciamento entre partido e base já alcançou um ponto de não retorno.

Porque quando a alma de um projeto político se perde, o que sobra pode até vencer eleições — mas dificilmente continuará inspirando gerações.

ARTIGO — O PREÇO DO PODER E A PERDA DA ALMA (Padre Carlos)

 

 

Há partidos que nascem como instrumentos históricos. Outros, como resposta moral. E há aqueles que, ao longo do tempo, se tornam vítimas da própria trajetória. O Partido dos Trabalhadores foi, sem dúvida, uma das mais vigorosas expressões de organização popular da história política recente do Brasil. Nasceu das greves, das pastorais, das periferias e dos sonhos. Era mais que uma sigla: era identidade, pertencimento, quase uma fé política.

Mas o tempo — e sobretudo o poder — cobra seu preço.

A permanência prolongada no comando do Estado foi, para o PT, ao mesmo tempo conquista e armadilha. Ao se consolidar como força governante, o partido passou a operar não mais sob a lógica da mobilização de base, mas sob o cálculo frio da governabilidade. E foi nesse deslocamento que algo essencial começou a se perder.

A política, que antes era alimentada pela militância, passou a ser regida por acordos. As bases, antes protagonistas, tornaram-se figurantes. E os princípios, que davam sentido à luta, passaram a ser relativizados em nome da permanência no poder.

Não se trata de ingenuidade. Governar exige articulação. Mas quando as alianças com setores de centro e até de centro-direita se tornam mais importantes que a escuta das bases, o partido deixa de ser instrumento de transformação e passa a ser apenas mais um operador do sistema.

É nesse contexto que saídas como a de Moema Gramacho ganham significado que vai além do gesto individual. Após mais de quatro décadas de militância, sua decisão de deixar o partido revela não apenas um rompimento pessoal, mas um sintoma coletivo. Quando quadros históricos começam a sair, não é apenas uma crise de filiação — é uma crise de identidade.

Moema não é uma figura qualquer. Sua trajetória em Lauro de Freitas ajudou a estruturar políticas públicas importantes, especialmente nas áreas sociais e de proteção às mulheres. Sob sua gestão, nasceram iniciativas como o Centro de Referência Lélia Gonzalez, a Secretaria de Políticas para Mulheres e programas de segurança alimentar e habitação. Há um legado concreto, que dialoga com aquilo que o PT sempre disse representar.

No entanto, mesmo lideranças com essa história parecem hoje diante de um dilema incômodo: ou se submetem às decisões dos “caciques” partidários, muitas vezes distantes da realidade local, ou seguem outro caminho. A política interna, que deveria ser espaço de debate e construção coletiva, se transforma em ambiente de imposição.

E isso tem consequências profundas.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a saída de uma ex-prefeita ou a crise de um partido específico. É algo maior: a dificuldade de organizações políticas de massa em preservar sua essência quando atravessam longos períodos no poder.

O pragmatismo, quando absoluto, corrói. Ele substitui o sonho pela estratégia, o coletivo pelo cálculo, a identidade pela conveniência.

E talvez seja essa a maior tristeza de todas.

Ver um partido que nasceu das ruas, das greves e das comunidades ser gradualmente diluído por decisões que priorizam a sobrevivência política em detrimento da coerência ideológica. Ver militantes históricos se afastando não por discordâncias pontuais, mas por não mais se reconhecerem naquilo que ajudaram a construir.

O poder, afinal, não é neutro. Ele transforma — e, muitas vezes, deforma.

Resta saber se ainda há espaço para reconstrução ou se o processo de distanciamento entre partido e base já alcançou um ponto de não retorno.

Porque quando a alma de um projeto político se perde, o que sobra pode até vencer eleições — mas dificilmente continuará inspirando gerações.

QUANDO UMA CIDADE DO SERTÃO DECIDE MUDAR O MUNDO

Primeiro Encontro Internacional de ODS em Vitória da Conquista

ARTIGO DE OPINIÃO

ARTIGO – QUANDO UMA CIDADE DO SERTÃO DECIDE MUDAR O MUNDO: O DESAFIO DOS ODS CHEGOU A VITÓRIA DA CONQUISTA

O primeiro encontro internacional sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável realizado em solo conquistense não é apenas um evento — é o anúncio de que o futuro das cidades começa agora, aqui, no coração do Sudoeste baiano.


Há momentos na história de uma cidade em que o simples fato de reunir pessoas em torno de uma ideia já é, por si só, um ato político de enorme significado. Vitória da Conquista viveu um desses momentos. Pela primeira vez, representantes internacionais, especialistas em políticas públicas, gestores municipais e lideranças da sociedade civil se encontraram numa mesma sala para debater algo que, durante décadas, pareceu pertencer apenas aos gabinetes de Brasília, Genebra ou Nova York: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Mas o ODS não é uma sigla reservada às potências do hemisfério norte. É uma bússola para qualquer cidade que se recuse a aceitar que pobreza, desigualdade e destruição ambiental sejam destinos inevitáveis. E foi exatamente com essa convicção que Vitória da Conquista ergueu a mão e disse: estamos prontos para essa conversa.

“A transformação das cidades não nasce nos parlamentos nacionais — nasce nas prefeituras, nas comunidades, nas decisões cotidianas de quem governa o mais próximo do cidadão.”

O que torna este encontro singular não é apenas o prestígio dos convidados ou a pauta densa de debates. É a coragem implícita no gesto de uma cidade média do interior baiano de se colocar no mesmo plano de diálogo que metrópoles e organismos internacionais. Essa coragem tem nome: governança colaborativa. É ela que transforma a gestão pública de um exercício burocrático em um processo vivo, participativo, capaz de adaptar modelos globais à realidade local sem perder sua essência transformadora.

Durante décadas, o discurso do desenvolvimento sustentável chegou ao Brasil pelas beiradas — como relatório, como meta distante, como exigência de organismos financeiros. Faltava o componente mais vital: a troca horizontal de experiências entre cidades que enfrentam problemas semelhantes, mas encontraram caminhos diferentes. Foi exatamente isso que Vitória da Conquista propôs ao sediar este evento: criar um laboratório vivo de inovação urbana, onde o modelo que funcionou em Medellín pode iluminar uma solução para o bairro da Lagoa das Flores; onde a política pública de mobilidade de uma cidade europeia pode inspirar o planejamento do transporte coletivo do Sudoeste baiano.

“Cooperação internacional não é luxo de capital. É ferramenta de qualquer município que entenda que o conhecimento não tem CEP — e que os problemas das cidades têm mais em comum do que nos fazem crer as fronteiras no mapa.”

Os 17 ODS e suas 169 metas não são uma utopia tecnocrática. São uma agenda de responsabilidade civilizatória que interpela cada prefeito, cada vereador, cada gestor de secretaria: o que a sua decisão de hoje produz no território amanhã? Falar de desenvolvimento sustentável em Vitória da Conquista é falar de saneamento nos bairros periféricos, de segurança alimentar nas comunidades rurais do entorno, de geração de emprego com dignidade, de uma cidade que cresce sem devorar o que a sustenta. É falar, em última análise, de um projeto de civilidade local inserido num projeto global.

A gestão pública eficiente do século XXI não se mede apenas pelo equilíbrio das contas. Mede-se pela capacidade de transformar dados em decisões, de ouvir comunidades antes de assinar contratos, de criar alianças intermunicipais e com o setor privado sem abrir mão do interesse coletivo. Vitória da Conquista, como polo regional do Sudoeste baiano, tem a dimensão certa para exercer este papel: grande o suficiente para influenciar, pequena o suficiente para sentir no cotidiano os efeitos de cada política.

A integração regional é, aliás, um dos capítulos mais estratégicos desta agenda. O Sudoeste da Bahia não avança sozinho. Municípios menores dependem do polo conquistense para saúde, educação, comércio e cultura. Isso significa que a sustentabilidade de Vitória da Conquista é, também, a sustentabilidade de dezenas de cidades ao redor. Cada decisão tomada aqui irradia para além das suas fronteiras administrativas. Cada política de inovação urbana bem-sucedida pode se tornar modelo para a região inteira.

“As cidades que lideram o futuro não são as mais ricas, nem as maiores. São as que primeiro entenderam que sustentabilidade é escolha política — e tiveram a coragem de fazê-la antes que fosse tarde demais.”

Há uma frase que deveria habitar as paredes de todas as prefeituras do Brasil: “Pense globalmente, aja localmente.” Ela nunca foi tão urgente quanto agora. As crises climáticas, a crise democrática, a crise de confiança nas instituições — todas elas encontram na escala municipal o seu campo de resposta mais imediato e mais concreto. Não é nas cúpulas da ONU que o cidadão sente a diferença. É na calçada que foi construída, na creche que funcionou, na praça que foi recuperada, na empresa que foi atraída para gerar emprego sem destruir o manancial.

Este encontro inaugural não é o fim de um processo. É o ponto zero de uma jornada. O desafio agora é transformar o calor das palestras em frio da planilha, em metas com prazos, em orçamentos que reflitam prioridades, em monitoramento transparente perante a sociedade. A grande armadilha dos eventos de alto nível é a ilusão de que debater já é avançar. Não é. Debater é o primeiro passo — necessário, mas insuficiente.

O que Vitória da Conquista tem nas mãos agora é algo raro: um mandato simbólico. A cidade que ousou sediar o primeiro encontro internacional de ODS do interior baiano assumiu, perante sua própria história, o compromisso de não ser apenas palco — mas protagonista. E protagonismo, no campo das políticas públicas, se constrói com constância, coragem e clareza de propósito.


O mundo muda de baixo para cima. Muda quando uma prefeitura decide que saúde é prioridade antes de ser obrigação legal. Muda quando uma cidade do sertão olha para o futuro sem esperar permissão dos grandes centros. Muda quando gestores, técnicos, lideranças e cidadãos comuns sentam à mesma mesa e percebem que o problema é deles — e que a solução, também, pode ser. Vitória da Conquista deu o primeiro passo. O segundo depende de cada um de nós.

Padre Carlos

Articulista político · Vitória da Conquista, Bahia

QUANDO UMA CIDADE DO SERTÃO DECIDE MUDAR O MUNDO

Primeiro Encontro Internacional de ODS em Vitória da Conquista

ARTIGO DE OPINIÃO

ARTIGO – QUANDO UMA CIDADE DO SERTÃO DECIDE MUDAR O MUNDO: O DESAFIO DOS ODS CHEGOU A VITÓRIA DA CONQUISTA

O primeiro encontro internacional sobre Objetivos de Desenvolvimento Sustentável realizado em solo conquistense não é apenas um evento — é o anúncio de que o futuro das cidades começa agora, aqui, no coração do Sudoeste baiano.


Há momentos na história de uma cidade em que o simples fato de reunir pessoas em torno de uma ideia já é, por si só, um ato político de enorme significado. Vitória da Conquista viveu um desses momentos. Pela primeira vez, representantes internacionais, especialistas em políticas públicas, gestores municipais e lideranças da sociedade civil se encontraram numa mesma sala para debater algo que, durante décadas, pareceu pertencer apenas aos gabinetes de Brasília, Genebra ou Nova York: os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Mas o ODS não é uma sigla reservada às potências do hemisfério norte. É uma bússola para qualquer cidade que se recuse a aceitar que pobreza, desigualdade e destruição ambiental sejam destinos inevitáveis. E foi exatamente com essa convicção que Vitória da Conquista ergueu a mão e disse: estamos prontos para essa conversa.

“A transformação das cidades não nasce nos parlamentos nacionais — nasce nas prefeituras, nas comunidades, nas decisões cotidianas de quem governa o mais próximo do cidadão.”

O que torna este encontro singular não é apenas o prestígio dos convidados ou a pauta densa de debates. É a coragem implícita no gesto de uma cidade média do interior baiano de se colocar no mesmo plano de diálogo que metrópoles e organismos internacionais. Essa coragem tem nome: governança colaborativa. É ela que transforma a gestão pública de um exercício burocrático em um processo vivo, participativo, capaz de adaptar modelos globais à realidade local sem perder sua essência transformadora.

Durante décadas, o discurso do desenvolvimento sustentável chegou ao Brasil pelas beiradas — como relatório, como meta distante, como exigência de organismos financeiros. Faltava o componente mais vital: a troca horizontal de experiências entre cidades que enfrentam problemas semelhantes, mas encontraram caminhos diferentes. Foi exatamente isso que Vitória da Conquista propôs ao sediar este evento: criar um laboratório vivo de inovação urbana, onde o modelo que funcionou em Medellín pode iluminar uma solução para o bairro da Lagoa das Flores; onde a política pública de mobilidade de uma cidade europeia pode inspirar o planejamento do transporte coletivo do Sudoeste baiano.

“Cooperação internacional não é luxo de capital. É ferramenta de qualquer município que entenda que o conhecimento não tem CEP — e que os problemas das cidades têm mais em comum do que nos fazem crer as fronteiras no mapa.”

Os 17 ODS e suas 169 metas não são uma utopia tecnocrática. São uma agenda de responsabilidade civilizatória que interpela cada prefeito, cada vereador, cada gestor de secretaria: o que a sua decisão de hoje produz no território amanhã? Falar de desenvolvimento sustentável em Vitória da Conquista é falar de saneamento nos bairros periféricos, de segurança alimentar nas comunidades rurais do entorno, de geração de emprego com dignidade, de uma cidade que cresce sem devorar o que a sustenta. É falar, em última análise, de um projeto de civilidade local inserido num projeto global.

A gestão pública eficiente do século XXI não se mede apenas pelo equilíbrio das contas. Mede-se pela capacidade de transformar dados em decisões, de ouvir comunidades antes de assinar contratos, de criar alianças intermunicipais e com o setor privado sem abrir mão do interesse coletivo. Vitória da Conquista, como polo regional do Sudoeste baiano, tem a dimensão certa para exercer este papel: grande o suficiente para influenciar, pequena o suficiente para sentir no cotidiano os efeitos de cada política.

A integração regional é, aliás, um dos capítulos mais estratégicos desta agenda. O Sudoeste da Bahia não avança sozinho. Municípios menores dependem do polo conquistense para saúde, educação, comércio e cultura. Isso significa que a sustentabilidade de Vitória da Conquista é, também, a sustentabilidade de dezenas de cidades ao redor. Cada decisão tomada aqui irradia para além das suas fronteiras administrativas. Cada política de inovação urbana bem-sucedida pode se tornar modelo para a região inteira.

“As cidades que lideram o futuro não são as mais ricas, nem as maiores. São as que primeiro entenderam que sustentabilidade é escolha política — e tiveram a coragem de fazê-la antes que fosse tarde demais.”

Há uma frase que deveria habitar as paredes de todas as prefeituras do Brasil: “Pense globalmente, aja localmente.” Ela nunca foi tão urgente quanto agora. As crises climáticas, a crise democrática, a crise de confiança nas instituições — todas elas encontram na escala municipal o seu campo de resposta mais imediato e mais concreto. Não é nas cúpulas da ONU que o cidadão sente a diferença. É na calçada que foi construída, na creche que funcionou, na praça que foi recuperada, na empresa que foi atraída para gerar emprego sem destruir o manancial.

Este encontro inaugural não é o fim de um processo. É o ponto zero de uma jornada. O desafio agora é transformar o calor das palestras em frio da planilha, em metas com prazos, em orçamentos que reflitam prioridades, em monitoramento transparente perante a sociedade. A grande armadilha dos eventos de alto nível é a ilusão de que debater já é avançar. Não é. Debater é o primeiro passo — necessário, mas insuficiente.

O que Vitória da Conquista tem nas mãos agora é algo raro: um mandato simbólico. A cidade que ousou sediar o primeiro encontro internacional de ODS do interior baiano assumiu, perante sua própria história, o compromisso de não ser apenas palco — mas protagonista. E protagonismo, no campo das políticas públicas, se constrói com constância, coragem e clareza de propósito.


O mundo muda de baixo para cima. Muda quando uma prefeitura decide que saúde é prioridade antes de ser obrigação legal. Muda quando uma cidade do sertão olha para o futuro sem esperar permissão dos grandes centros. Muda quando gestores, técnicos, lideranças e cidadãos comuns sentam à mesma mesa e percebem que o problema é deles — e que a solução, também, pode ser. Vitória da Conquista deu o primeiro passo. O segundo depende de cada um de nós.

Padre Carlos

Articulista político · Vitória da Conquista, Bahia

A Morte que não faz Barulho

Pastoral & Reflexão

A Morte que não faz Barulho

Há mortes que não chegam de repente, com sirenes e lamentos. Chegam devagar, no silêncio de uma vida que vai perdendo o sentido — e poucos percebem.

Por Padre Carlos  |  Política e Resenha  |  Vitória da Conquista, Bahia

A Morte que não faz Barulho — Eu já morri uma vez

Existe uma morte que não chega com cortejo. Não traz flores, não acende velas, não reúne a família ao redor de um leito. Ela se instala em silêncio, como névoa que vai tomando os cômodos de uma casa vazia — e a pessoa continua de pé, continua trabalhando, continua sorrindo nas fotografias, mas por dentro algo essencial já se foi.

Eu já acompanhei muitos mortos. Na pastoral carcerária, sentei ao lado de homens que cumpriam penas longas e me diziam, com uma calma aterradora, que já tinham morrido — antes de qualquer sentença, antes de qualquer grade. A morte deles aconteceu no dia em que perceberam que ninguém os esperava. Ou no dia em que a vergonha pesou mais do que o desejo de continuar. Ou simplesmente na manhã em que acordaram e não encontraram mais nenhuma razão para levantar.

“Eu já morri uma vez. Ninguém foi ao velório.”

Esta frase não é metáfora literária. É o depoimento literal de uma pessoa real, pronunciado com a voz serena de quem já ultrapassou o abismo e voltou para contar. Ela me foi dita em um contexto de acompanhamento pastoral, e nunca mais me deixou. Porque há nela uma verdade que nossa cultura prefere não nomear: existem mortes que acontecem dentro da vida — mortes do desejo, da esperança, da identidade, do amor próprio — e essas mortes não têm data no calendário nem registro em cartório.

A morte silenciosa que a sociedade não vê

Vivemos em uma civilização barulhenta. As mortes que reconhecemos são aquelas que interrompem o barulho — o acidente, a doença fulminante, o obituário publicado. Mas a morte lenta, a que vai consumindo a pessoa de dentro para fora enquanto ela ainda responde a mensagens no celular e aparece nas reuniões de trabalho — essa morte não tem espaço no noticiário, não merece luto oficial, não recebe sequer o consolo de ser nomeada.

O homem que lava a louça às onze da noite depois de um dia que não significou nada. A mulher que sorri na foto de família mas chora no banheiro antes de dormir. O jovem que tem tudo o que a sociedade define como sucesso e mesmo assim sente que está desaparecendo. Eles não estão em obituários. Estão no ônibus da manhã, na fila do banco, na missa de domingo — presentes de corpo, ausentes de alma.

O que a fé tem a dizer sobre isso

O Evangelho não tem medo desta conversa. Jesus não esquivou das mortes invisíveis. Ele foi ao encontro de Lázaro depois que todos tinham desistido — e a cena mais perturbadora não é o milagre da ressurreição; é o versículo anterior: “Jesus chorou.” O Filho de Deus parou diante da morte de um amigo e chorou. Não pregou. Não explicou. Chorou.

Há uma sabedoria pastoral enorme nessa cena. Antes de qualquer palavra de consolo, antes de qualquer discurso sobre a ressurreição, Jesus se deixou atravessar pela dor. Ele legitimou o luto. Ele disse, com as lágrimas, que a dor daquelas pessoas era real e merecia ser sentida — não suprimida, não espiritualizada prematuramente, não convertida em lição de moral.

“Antes de ressuscitar Lázaro, Jesus chorou. Ele ensinou que sentir a dor é o primeiro ato de amor.”

— Padre Carlos

É exatamente isso que falta em boa parte da nossa pastoral contemporânea: a coragem de ficar em silêncio diante da dor do outro, sem pressa de resolver, sem o reflexo automático de oferecer versículos como analgésicos. A fé que só sabe falar — que não sabe ouvir, que não sabe calar, que não sabe chorar — não alcança as mortes silenciosas. Ela passa por elas sem as ver.

Reconhecer a morte para poder voltar

Nomear a morte interior é o primeiro passo para atravessá-la. Há uma diferença enorme entre a pessoa que diz “estou cansada” e a que consegue dizer “eu já morri uma vez e preciso de ajuda para voltar.” A segunda frase exige uma coragem que nossa cultura sistematicamente destrói — a coragem de admitir a vulnerabilidade, de pedir socorro, de reconhecer que não está bem.

Em meu ministério pastoral, aprendi que as pessoas não precisam de respostas prontas. Precisam de presença. Precisam de alguém que se disponha a entrar no túmulo junto — não para ficar lá, mas para que não estejam sozinhas enquanto atravessam a escuridão. O acompanhamento pastoral das mortes invisíveis não é tarefa para os que têm pressa. É tarefa para os que aprenderam a sentar no silêncio sem fugir dele.

Se você reconhece em si esta morte silenciosa —
saiba que ela tem nome, e que pode ser atravessada.

Procure ajuda. Um sacerdote, um terapeuta, um amigo de confiança. Você não precisa velá-la sozinho.

A ressurreição de Lázaro não começou quando ele saiu do túmulo. Começou quando alguém se importou o suficiente para ir até lá. Para chamar pelo nome. Para dizer, com autoridade e com ternura: Sai.

É isso que a fé pode fazer pelas mortes que não fazem barulho. Não apagar a dor com palavras. Ir até ela. Chamá-la pelo nome. E ficar — até que a luz volte.

✦ ✦ ✦

Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e articulista. Editor do blog Política e Resenha. Ministra pastoral carcerária e acompanhamento de enlutados em Vitória da Conquista, Bahia.

A Morte que não faz Barulho

Pastoral & Reflexão

A Morte que não faz Barulho

Há mortes que não chegam de repente, com sirenes e lamentos. Chegam devagar, no silêncio de uma vida que vai perdendo o sentido — e poucos percebem.

Por Padre Carlos  |  Política e Resenha  |  Vitória da Conquista, Bahia

A Morte que não faz Barulho — Eu já morri uma vez

Existe uma morte que não chega com cortejo. Não traz flores, não acende velas, não reúne a família ao redor de um leito. Ela se instala em silêncio, como névoa que vai tomando os cômodos de uma casa vazia — e a pessoa continua de pé, continua trabalhando, continua sorrindo nas fotografias, mas por dentro algo essencial já se foi.

Eu já acompanhei muitos mortos. Na pastoral carcerária, sentei ao lado de homens que cumpriam penas longas e me diziam, com uma calma aterradora, que já tinham morrido — antes de qualquer sentença, antes de qualquer grade. A morte deles aconteceu no dia em que perceberam que ninguém os esperava. Ou no dia em que a vergonha pesou mais do que o desejo de continuar. Ou simplesmente na manhã em que acordaram e não encontraram mais nenhuma razão para levantar.

“Eu já morri uma vez. Ninguém foi ao velório.”

Esta frase não é metáfora literária. É o depoimento literal de uma pessoa real, pronunciado com a voz serena de quem já ultrapassou o abismo e voltou para contar. Ela me foi dita em um contexto de acompanhamento pastoral, e nunca mais me deixou. Porque há nela uma verdade que nossa cultura prefere não nomear: existem mortes que acontecem dentro da vida — mortes do desejo, da esperança, da identidade, do amor próprio — e essas mortes não têm data no calendário nem registro em cartório.

A morte silenciosa que a sociedade não vê

Vivemos em uma civilização barulhenta. As mortes que reconhecemos são aquelas que interrompem o barulho — o acidente, a doença fulminante, o obituário publicado. Mas a morte lenta, a que vai consumindo a pessoa de dentro para fora enquanto ela ainda responde a mensagens no celular e aparece nas reuniões de trabalho — essa morte não tem espaço no noticiário, não merece luto oficial, não recebe sequer o consolo de ser nomeada.

O homem que lava a louça às onze da noite depois de um dia que não significou nada. A mulher que sorri na foto de família mas chora no banheiro antes de dormir. O jovem que tem tudo o que a sociedade define como sucesso e mesmo assim sente que está desaparecendo. Eles não estão em obituários. Estão no ônibus da manhã, na fila do banco, na missa de domingo — presentes de corpo, ausentes de alma.

O que a fé tem a dizer sobre isso

O Evangelho não tem medo desta conversa. Jesus não esquivou das mortes invisíveis. Ele foi ao encontro de Lázaro depois que todos tinham desistido — e a cena mais perturbadora não é o milagre da ressurreição; é o versículo anterior: “Jesus chorou.” O Filho de Deus parou diante da morte de um amigo e chorou. Não pregou. Não explicou. Chorou.

Há uma sabedoria pastoral enorme nessa cena. Antes de qualquer palavra de consolo, antes de qualquer discurso sobre a ressurreição, Jesus se deixou atravessar pela dor. Ele legitimou o luto. Ele disse, com as lágrimas, que a dor daquelas pessoas era real e merecia ser sentida — não suprimida, não espiritualizada prematuramente, não convertida em lição de moral.

“Antes de ressuscitar Lázaro, Jesus chorou. Ele ensinou que sentir a dor é o primeiro ato de amor.”

— Padre Carlos

É exatamente isso que falta em boa parte da nossa pastoral contemporânea: a coragem de ficar em silêncio diante da dor do outro, sem pressa de resolver, sem o reflexo automático de oferecer versículos como analgésicos. A fé que só sabe falar — que não sabe ouvir, que não sabe calar, que não sabe chorar — não alcança as mortes silenciosas. Ela passa por elas sem as ver.

Reconhecer a morte para poder voltar

Nomear a morte interior é o primeiro passo para atravessá-la. Há uma diferença enorme entre a pessoa que diz “estou cansada” e a que consegue dizer “eu já morri uma vez e preciso de ajuda para voltar.” A segunda frase exige uma coragem que nossa cultura sistematicamente destrói — a coragem de admitir a vulnerabilidade, de pedir socorro, de reconhecer que não está bem.

Em meu ministério pastoral, aprendi que as pessoas não precisam de respostas prontas. Precisam de presença. Precisam de alguém que se disponha a entrar no túmulo junto — não para ficar lá, mas para que não estejam sozinhas enquanto atravessam a escuridão. O acompanhamento pastoral das mortes invisíveis não é tarefa para os que têm pressa. É tarefa para os que aprenderam a sentar no silêncio sem fugir dele.

Se você reconhece em si esta morte silenciosa —
saiba que ela tem nome, e que pode ser atravessada.

Procure ajuda. Um sacerdote, um terapeuta, um amigo de confiança. Você não precisa velá-la sozinho.

A ressurreição de Lázaro não começou quando ele saiu do túmulo. Começou quando alguém se importou o suficiente para ir até lá. Para chamar pelo nome. Para dizer, com autoridade e com ternura: Sai.

É isso que a fé pode fazer pelas mortes que não fazem barulho. Não apagar a dor com palavras. Ir até ela. Chamá-la pelo nome. E ficar — até que a luz volte.

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Padre Carlos

Teólogo, sacerdote e articulista. Editor do blog Política e Resenha. Ministra pastoral carcerária e acompanhamento de enlutados em Vitória da Conquista, Bahia.

ARTIGO — O EDITORIAL QUE RASGA A TOGA DA IMPRENSA (Padre Carlos)

 

 

 

 

Há momentos na história em que a imprensa abandona o papel de observadora crítica e decide vestir, sem qualquer pudor, a fantasia de protagonista político. O recente editorial do Estadão contra Jorge Messias é um desses momentos constrangedores — daqueles que fariam corar até os mais cínicos operadores do poder.

Não se trata de jornalismo. Não se trata de análise. Trata-se de uma peça de militância política explícita, quase panfletária, que tenta constranger o Senado Federal a agir como extensão editorial de um jornal. Ora, desde quando um veículo de imprensa se arroga o direito de dizer que o Senado “tem o dever” de rejeitar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal?

“Dever”? Dever com quem? Com a Constituição ou com a linha editorial da redação?

É aqui que o texto do jornal ultrapassa todos os limites — não apenas do bom senso, mas do próprio Estado Democrático de Direito.

A imprensa que cobra democracia, mas pratica pressão

O que mais impressiona — e revolta — é a contradição gritante. O mesmo Estadão que, em editoriais passados, se coloca como guardião das instituições, agora atua como agente de pressão direta sobre elas.

Vamos aos fatos — ou melhor, às falhas:

  1. Interferência indevida no processo institucional
    Ao afirmar que o Senado “deve rejeitar” um nome, o jornal abandona a crítica e entra no campo da imposição política.
  2. Quebra do princípio da imparcialidade
    Editorial não é sentença. Opinião não pode se travestir de obrigação institucional.
  3. Militância seletiva
    Onde estava esse “rigor moral” em outras indicações ao STF? Ou ele só aparece conforme a conveniência ideológica?
  4. Pressão pública como instrumento de poder
    O texto tenta constranger senadores perante a opinião pública — uma forma indireta de chantagem política.
  5. Deslegitimação antecipada
    Antes mesmo de qualquer sabatina, o indicado já é tratado como inadequado. Baseado em quê? Em argumentos técnicos ou em preferências políticas?

Liberdade de imprensa não é licença para manipular

Sim, a imprensa é livre. E deve ser. Mas liberdade não é salvo-conduto para agir como partido político disfarçado.

Quando um jornal passa a atuar como ator político ativo, tentando influenciar decisões institucionais de forma direta, ele deixa de informar e passa a disputar poder. E isso muda completamente o jogo.

O problema não é criticar — criticar é saudável. O problema é querer substituir o processo democrático por uma vontade editorial.

E onde entra a responsabilidade?

Se há um ponto ainda mais grave, é o silêncio institucional diante desse tipo de postura. O Presidente da República indica, o Senado avalia — esse é o rito constitucional. Quando um órgão de imprensa tenta interferir nesse fluxo, ele não está apenas opinando: está tensionando o equilíbrio entre os Poderes.

E isso, sim, exige reflexão séria — inclusive jurídica.

Porque se amanhã cada grande veículo decidir “determinar” o que o Senado deve ou não fazer, estaremos diante de quê? De uma democracia ou de um editorialismo autoritário?

O perigo do jornal que se acha poder

O editorial do Estadão não é apenas um texto infeliz. É um sintoma.

Sintoma de uma imprensa que, em certos momentos, parece esquecer que sua força está na credibilidade — não na imposição.

E credibilidade não se constrói com ordens. Muito menos com ironias travestidas de autoridade moral.

Se há algo que precisa ser rejeitado — com urgência — não é um nome indicado ao STF.

É a ideia de que um jornal pode se colocar acima das instituições.

Porque quando isso acontece, não é apenas o jornalismo que perde.

É a própria democracia que começa a ser editada.

ARTIGO — O EDITORIAL QUE RASGA A TOGA DA IMPRENSA (Padre Carlos)

 

 

 

 

Há momentos na história em que a imprensa abandona o papel de observadora crítica e decide vestir, sem qualquer pudor, a fantasia de protagonista político. O recente editorial do Estadão contra Jorge Messias é um desses momentos constrangedores — daqueles que fariam corar até os mais cínicos operadores do poder.

Não se trata de jornalismo. Não se trata de análise. Trata-se de uma peça de militância política explícita, quase panfletária, que tenta constranger o Senado Federal a agir como extensão editorial de um jornal. Ora, desde quando um veículo de imprensa se arroga o direito de dizer que o Senado “tem o dever” de rejeitar uma indicação ao Supremo Tribunal Federal?

“Dever”? Dever com quem? Com a Constituição ou com a linha editorial da redação?

É aqui que o texto do jornal ultrapassa todos os limites — não apenas do bom senso, mas do próprio Estado Democrático de Direito.

A imprensa que cobra democracia, mas pratica pressão

O que mais impressiona — e revolta — é a contradição gritante. O mesmo Estadão que, em editoriais passados, se coloca como guardião das instituições, agora atua como agente de pressão direta sobre elas.

Vamos aos fatos — ou melhor, às falhas:

  1. Interferência indevida no processo institucional
    Ao afirmar que o Senado “deve rejeitar” um nome, o jornal abandona a crítica e entra no campo da imposição política.
  2. Quebra do princípio da imparcialidade
    Editorial não é sentença. Opinião não pode se travestir de obrigação institucional.
  3. Militância seletiva
    Onde estava esse “rigor moral” em outras indicações ao STF? Ou ele só aparece conforme a conveniência ideológica?
  4. Pressão pública como instrumento de poder
    O texto tenta constranger senadores perante a opinião pública — uma forma indireta de chantagem política.
  5. Deslegitimação antecipada
    Antes mesmo de qualquer sabatina, o indicado já é tratado como inadequado. Baseado em quê? Em argumentos técnicos ou em preferências políticas?

Liberdade de imprensa não é licença para manipular

Sim, a imprensa é livre. E deve ser. Mas liberdade não é salvo-conduto para agir como partido político disfarçado.

Quando um jornal passa a atuar como ator político ativo, tentando influenciar decisões institucionais de forma direta, ele deixa de informar e passa a disputar poder. E isso muda completamente o jogo.

O problema não é criticar — criticar é saudável. O problema é querer substituir o processo democrático por uma vontade editorial.

E onde entra a responsabilidade?

Se há um ponto ainda mais grave, é o silêncio institucional diante desse tipo de postura. O Presidente da República indica, o Senado avalia — esse é o rito constitucional. Quando um órgão de imprensa tenta interferir nesse fluxo, ele não está apenas opinando: está tensionando o equilíbrio entre os Poderes.

E isso, sim, exige reflexão séria — inclusive jurídica.

Porque se amanhã cada grande veículo decidir “determinar” o que o Senado deve ou não fazer, estaremos diante de quê? De uma democracia ou de um editorialismo autoritário?

O perigo do jornal que se acha poder

O editorial do Estadão não é apenas um texto infeliz. É um sintoma.

Sintoma de uma imprensa que, em certos momentos, parece esquecer que sua força está na credibilidade — não na imposição.

E credibilidade não se constrói com ordens. Muito menos com ironias travestidas de autoridade moral.

Se há algo que precisa ser rejeitado — com urgência — não é um nome indicado ao STF.

É a ideia de que um jornal pode se colocar acima das instituições.

Porque quando isso acontece, não é apenas o jornalismo que perde.

É a própria democracia que começa a ser editada.

ARTIGO — O PARTIDO DIVIDIDO E O PROJETO FRAGMENTADO (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na política em que um gesto, por mais simbólico que pareça, revela fissuras profundas que vinham sendo cuidadosamente ocultadas. A pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República pelo PSD é um desses momentos. Mal anunciada, já nasce cercada por silêncios, ausências e, mais grave ainda, por resistências explícitas dentro da própria legenda.

O que se vê não é apenas uma divergência pontual, mas um retrato claro de um partido que, embora robusto em sua capilaridade nacional, carece de unidade programática. No Nordeste — região estratégica em qualquer disputa presidencial — o projeto de Caiado simplesmente não ecoa. E política, como se sabe, não vive de anúncios, mas de adesões.

O caso de Fábio Mitidieri, em Sergipe, não deixa margem para interpretações ambíguas. Ao reafirmar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo diante da possível candidatura de um correligionário, ele não apenas faz uma escolha local — ele expõe uma realidade nacional: o PSD, em muitos estados, já tem lado definido. E não é o de Caiado.

Em Pernambuco, a postura de Raquel Lyra reforça esse cenário. Sua recente filiação ao PSD não significou alinhamento automático a um projeto presidencial do partido. Ao contrário, sua proximidade com Lula — inclusive em eventos de forte simbolismo popular como o Carnaval — sinaliza que, na prática, a política real se sobrepõe às decisões formais.

Na Bahia, a situação é ainda mais emblemática. O senador Otto Alencar foi direto: o partido no estado está fechado com Lula. E mais — deixou claro que essa decisão conta com o aval de Gilberto Kassab. Ou seja, não se trata de rebeldia regional, mas de uma estratégia que, na prática, esvazia qualquer pretensão de unidade nacional em torno de Caiado.

O que está em jogo aqui vai além de uma candidatura. Trata-se de um teste de coerência partidária. O PSD, conhecido por sua flexibilidade e pragmatismo, sempre operou como uma federação de interesses regionais. Mas há um limite entre a diversidade interna e a completa ausência de direção.

Caiado, por sua vez, enfrenta um desafio que não se resolve com discursos ou articulações de bastidores. Sua candidatura precisaria nascer como um ponto de convergência — mas, até agora, se apresenta como um ponto de tensão. E política presidencial exige exatamente o contrário: construção de consenso, capacidade de agregação e, sobretudo, legitimidade interna.

Há também um fator estratégico que não pode ser ignorado: o peso eleitoral do Nordeste. Ignorar ou subestimar essa região é, historicamente, um erro fatal em eleições nacionais. E, neste momento, o que se observa é um PSD nordestino alinhado a Lula, não por imposição, mas por cálculo político e leitura de realidade.

No fundo, o que este episódio revela é algo maior: a dificuldade dos partidos brasileiros em sustentarem projetos nacionais coesos. Em um sistema cada vez mais fragmentado, candidaturas não se impõem — elas precisam ser construídas com base em alianças reais, não formais.

A pré-candidatura de Ronaldo Caiado, portanto, já começa marcada por um paradoxo: é oficial no papel, mas contestada na prática. E na política, como na vida, o que vale não é o anúncio — é a sustentação.

Se nada mudar, o que se desenha no horizonte não é uma candidatura competitiva, mas um movimento isolado dentro de um partido que fala várias línguas ao mesmo tempo — e que, neste caso, parece não estar disposto a falar a língua de seu próprio pré-candidato.

ARTIGO — O PARTIDO DIVIDIDO E O PROJETO FRAGMENTADO (Padre Carlos)

 

 

 

Há momentos na política em que um gesto, por mais simbólico que pareça, revela fissuras profundas que vinham sendo cuidadosamente ocultadas. A pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República pelo PSD é um desses momentos. Mal anunciada, já nasce cercada por silêncios, ausências e, mais grave ainda, por resistências explícitas dentro da própria legenda.

O que se vê não é apenas uma divergência pontual, mas um retrato claro de um partido que, embora robusto em sua capilaridade nacional, carece de unidade programática. No Nordeste — região estratégica em qualquer disputa presidencial — o projeto de Caiado simplesmente não ecoa. E política, como se sabe, não vive de anúncios, mas de adesões.

O caso de Fábio Mitidieri, em Sergipe, não deixa margem para interpretações ambíguas. Ao reafirmar apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, mesmo diante da possível candidatura de um correligionário, ele não apenas faz uma escolha local — ele expõe uma realidade nacional: o PSD, em muitos estados, já tem lado definido. E não é o de Caiado.

Em Pernambuco, a postura de Raquel Lyra reforça esse cenário. Sua recente filiação ao PSD não significou alinhamento automático a um projeto presidencial do partido. Ao contrário, sua proximidade com Lula — inclusive em eventos de forte simbolismo popular como o Carnaval — sinaliza que, na prática, a política real se sobrepõe às decisões formais.

Na Bahia, a situação é ainda mais emblemática. O senador Otto Alencar foi direto: o partido no estado está fechado com Lula. E mais — deixou claro que essa decisão conta com o aval de Gilberto Kassab. Ou seja, não se trata de rebeldia regional, mas de uma estratégia que, na prática, esvazia qualquer pretensão de unidade nacional em torno de Caiado.

O que está em jogo aqui vai além de uma candidatura. Trata-se de um teste de coerência partidária. O PSD, conhecido por sua flexibilidade e pragmatismo, sempre operou como uma federação de interesses regionais. Mas há um limite entre a diversidade interna e a completa ausência de direção.

Caiado, por sua vez, enfrenta um desafio que não se resolve com discursos ou articulações de bastidores. Sua candidatura precisaria nascer como um ponto de convergência — mas, até agora, se apresenta como um ponto de tensão. E política presidencial exige exatamente o contrário: construção de consenso, capacidade de agregação e, sobretudo, legitimidade interna.

Há também um fator estratégico que não pode ser ignorado: o peso eleitoral do Nordeste. Ignorar ou subestimar essa região é, historicamente, um erro fatal em eleições nacionais. E, neste momento, o que se observa é um PSD nordestino alinhado a Lula, não por imposição, mas por cálculo político e leitura de realidade.

No fundo, o que este episódio revela é algo maior: a dificuldade dos partidos brasileiros em sustentarem projetos nacionais coesos. Em um sistema cada vez mais fragmentado, candidaturas não se impõem — elas precisam ser construídas com base em alianças reais, não formais.

A pré-candidatura de Ronaldo Caiado, portanto, já começa marcada por um paradoxo: é oficial no papel, mas contestada na prática. E na política, como na vida, o que vale não é o anúncio — é a sustentação.

Se nada mudar, o que se desenha no horizonte não é uma candidatura competitiva, mas um movimento isolado dentro de um partido que fala várias línguas ao mesmo tempo — e que, neste caso, parece não estar disposto a falar a língua de seu próprio pré-candidato.


Política Baiana · Desenvolvimento Regional

Os governos de costas para o interior da Bahia

Desde Tomé de Souza até os dias atuais, a desigualdade regional entre o litoral e o interior baiano não é acidente — é política. E uma política secular.


Por JOSE MARIA CAIRES-DUPLICA SUDOESTE  |  Política e Resenha  |  Vitória da Conquista, Bahia

A BR-116 no sudoeste baiano: uma promessa que o interior espera há décadas.

Há uma imagem que resume séculos de história baiana: o mar à frente, os olhos voltados para o Atlântico, e as costas — largas e indiferentes — apontadas para o sertão. Quando Tomé de Souza aportou em Salvador, em 1549, inaugurando a primeira capital do Brasil colonial, ele não veio construir um Estado para todos. Veio explorar um litoral. O interior da Bahia, vasto e diverso, seria, por séculos, apenas o fundo do cenário — distante, esquecido, tratado como margem de uma história que se escrevia à beira-mar.

Essa herança colonial não ficou enterrada nos arquivos. Ela se reproduziu, geração após geração, nas decisões orçamentárias, nos traçados das obras públicas, na distribuição dos investimentos. A desigualdade regional na Bahia não é um fenômeno contemporâneo nem o erro isolado de um governante imprudente. É uma estrutura. É um padrão. É uma escolha reiterada, que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.

“A desigualdade regional na Bahia não é o erro de um governante — é uma estrutura secular. Uma escolha reiterada que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.”Salvador e Camaçari: o epicentro do Brasil baiano

A lógica que prevalece na política baiana é simples e perversa: onde há visibilidade, há investimento. Salvador concentra não apenas a população e o poder, mas também a narrativa do que é a Bahia — seus carnavais, seus circuitos, sua imagem exportada ao mundo. Camaçari, com seu polo petroquímico, alimenta a arrecadação do Estado. O resultado prático é que a maior parte dos investimentos públicos gravitam em torno do litoral como planetas em torno de um sol — e o interior orbita, longínquo, à margem da luz.

Não se trata de negar a importância de Salvador. Uma capital pujante é condição de qualquer Estado forte. Mas há uma diferença entre fortalecer a capital e sugar o interior. E quando o cidadão do interior da Bahia observa o mapa das obras públicas, o que vê não é complementaridade — é exclusão.

A BR-116 e o grito do sudoeste baiano

No sudoeste da Bahia, uma reivindicação atravessa décadas com a persistência de quem aprendeu a cobrar sem esperar ser ouvido: a duplicação da BR-116. A rodovia é artéria vital de uma região que produz, exporta e movimenta uma economia que raramente aparece nos discursos dos governantes estaduais. Municípios como Vitória da Conquista, Jequié, Poções e tantos outros dependem dessa estrada para o escoamento de sua produção, para o deslocamento seguro de sua gente, para a integração com os mercados do sul e do sudeste do país.

A duplicação não é luxo. Em uma rodovia com o tráfego e o histórico de acidentes da BR-116, duplicar é salvar vidas. É garantir infraestrutura mínima de circulação para uma região que representa parcela significativa do território baiano. Mas o apelo popular por essa obra — reiterado em manifestações, petições, plenárias e pronunciamentos — segue encontrando o mesmo obstáculo de sempre: a indiferença estrutural dos que governam de costas.

O contraste que indigna

Interior · Vitória da Conquista

R$ 40 milhões

Viaduto na saída de Vitória da Conquista para Itambé. Orçado. Prometido. Não realizado.

×

Capital · Salvador

R$ 2 bilhões

Linha 1 do Metrô — da Estação da Lapa ao Campo Grande. 1,1 km subterrâneo para melhorar a mobilidade no circuito do Carnaval.

Quando o orçamento público revela uma escolha política

Os números acima não são coincidência. São uma declaração. Quando o poder público encontra R$ 2 bilhões para construir 1,1 km de metrô subterrâneo em Salvador — uma obra de inegável relevância, diga-se, mas cuja urgência se vincula ao calendário do Carnaval tanto quanto às necessidades cotidianas da população — e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto que desafoga o trânsito e reduz acidentes em uma das principais entradas de Vitória da Conquista, o que se revela não é falta de recursos. O que se revela é uma hierarquia de prioridades. E nessa hierarquia, o interior da Bahia está, como sempre esteve, nas últimas posições.

O argumento de que obras na capital beneficiam toda a Bahia — pela geração de empregos, pelo aquecimento econômico, pela movimentação turística — é frequentemente invocado como escudo. Mas esse argumento tem limites. Quando o trabalhador de Guanambi, de Brumado, de Conquista, precisar se deslocar com segurança pela BR-116, nenhum quilômetro de metrô soteropolitano lhe será útil. O desenvolvimento regional exige investimento no território, não apenas na vitrine.

O abandono que não tem partido

É preciso dizer com clareza: este não é um problema de um governo específico. Seria cômodo demais — e intelectualmente desonesto — reduzir séculos de negligência histórica à gestão de uma sigla partidária. A política baiana em todas as suas colorações partidárias, da esquerda à direita, do conservador ao progressista, reproduziu, com poucas exceções, a mesma lógica centralista e litorânea. O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.

A população do sudoeste baiano não ignora essa realidade. A sensação de abandono — e ela é sentida, discutida nas feiras, nas igrejas, nos botecos e nas praças — não nasce do ressentimento gratuito. Nasce da experiência acumulada de ver promessas se repetirem sem se realizarem, de ver obras inauguradas longe e esperar, sempre esperar, por aquelas que nunca chegam. Esse sentimento é político. É legítimo. E merece ser nomeado como o que é: o fruto de uma desigualdade regional institucionalizada.

“O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.”

De Tomé de Souza a hoje: a longa sombra do litoral

Não é exagero retornar ao século XVI para entender o problema do século XXI. Quando se diz que a Bahia foi construída de costas para o seu interior, não se faz poesia — faz-se diagnóstico. O litoral era a janela para o lucro colonial: era por onde escoava o açúcar, o fumo, o ouro. O interior era obstáculo ou reservatório — de mão de obra, de recursos naturais a serem extraídos, de populações a serem controladas. Essa gramática nunca foi completamente reescrita.

A infraestrutura — estradas, pontes, viadutos, hospitais, universidades, saneamento — é a linguagem material pela qual um Estado demonstra quem ele considera cidadão de primeira classe. E quando se compara o que foi construído no litoral com o que foi prometido e não construído no interior, a resposta é dolorosamente clara. O interior da Bahia ainda aguarda ser tratado como parte integrante — e não como apêndice tolerado — do projeto de Estado.

O que se exige: não favor, mas justiça

A reivindicação do sudoeste baiano pela duplicação da BR-116 não é pedido de esmola. É a cobrança de um direito. É a exigência de que o Estado cumpra sua função básica de garantir condições dignas de vida, mobilidade e segurança a todos os cidadãos — independentemente de onde vivam. A luta encampada por lideranças como José Maria Caires, que há anos organiza e vocaliza a demanda da comunidade pelo Duplica Sudoeste, é expressão legítima de uma cidadania que se recusa a aceitar o abandono como destino natural.

O que o interior da Bahia pede não é generosidade. Pede equidade. Pede que os impostos pagos pelo trabalhador de Conquista, pelo produtor de Guanambi, pelo comerciante de Brumado retornem em forma de obras, de serviços, de políticas. Pede que o desenvolvimento regional deixe de ser retórica de palanque e se torne prioridade de gabinete.


Reflexão Final

Há uma diferença fundamental entre governar um Estado e governar para uma cidade. A Bahia, com seus 417 municípios, suas caatingas e cerrados, seus sertões e chapadas, não cabe em nenhum Carnaval de Salvador — por mais grandioso que seja. Um Estado que constrói 1,1 km de metrô por R$ 2 bilhões na capital e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto no interior não está distribuindo recursos: está distribuindo cidadãos em categorias.

Tomé de Souza chegou em 1549 e virou as costas para o sertão. Quinhentos anos depois, o interior baiano ainda espera que alguém, enfim, se vire de frente.


Assinado

#Duplica Sudoeste  ·  #José Maria Caires  ·  #BR116Bahia


Política Baiana · Desenvolvimento Regional

Os governos de costas para o interior da Bahia

Desde Tomé de Souza até os dias atuais, a desigualdade regional entre o litoral e o interior baiano não é acidente — é política. E uma política secular.


Por JOSE MARIA CAIRES-DUPLICA SUDOESTE  |  Política e Resenha  |  Vitória da Conquista, Bahia

A BR-116 no sudoeste baiano: uma promessa que o interior espera há décadas.

Há uma imagem que resume séculos de história baiana: o mar à frente, os olhos voltados para o Atlântico, e as costas — largas e indiferentes — apontadas para o sertão. Quando Tomé de Souza aportou em Salvador, em 1549, inaugurando a primeira capital do Brasil colonial, ele não veio construir um Estado para todos. Veio explorar um litoral. O interior da Bahia, vasto e diverso, seria, por séculos, apenas o fundo do cenário — distante, esquecido, tratado como margem de uma história que se escrevia à beira-mar.

Essa herança colonial não ficou enterrada nos arquivos. Ela se reproduziu, geração após geração, nas decisões orçamentárias, nos traçados das obras públicas, na distribuição dos investimentos. A desigualdade regional na Bahia não é um fenômeno contemporâneo nem o erro isolado de um governante imprudente. É uma estrutura. É um padrão. É uma escolha reiterada, que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.

“A desigualdade regional na Bahia não é o erro de um governante — é uma estrutura secular. Uma escolha reiterada que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.”Salvador e Camaçari: o epicentro do Brasil baiano

A lógica que prevalece na política baiana é simples e perversa: onde há visibilidade, há investimento. Salvador concentra não apenas a população e o poder, mas também a narrativa do que é a Bahia — seus carnavais, seus circuitos, sua imagem exportada ao mundo. Camaçari, com seu polo petroquímico, alimenta a arrecadação do Estado. O resultado prático é que a maior parte dos investimentos públicos gravitam em torno do litoral como planetas em torno de um sol — e o interior orbita, longínquo, à margem da luz.

Não se trata de negar a importância de Salvador. Uma capital pujante é condição de qualquer Estado forte. Mas há uma diferença entre fortalecer a capital e sugar o interior. E quando o cidadão do interior da Bahia observa o mapa das obras públicas, o que vê não é complementaridade — é exclusão.

A BR-116 e o grito do sudoeste baiano

No sudoeste da Bahia, uma reivindicação atravessa décadas com a persistência de quem aprendeu a cobrar sem esperar ser ouvido: a duplicação da BR-116. A rodovia é artéria vital de uma região que produz, exporta e movimenta uma economia que raramente aparece nos discursos dos governantes estaduais. Municípios como Vitória da Conquista, Jequié, Poções e tantos outros dependem dessa estrada para o escoamento de sua produção, para o deslocamento seguro de sua gente, para a integração com os mercados do sul e do sudeste do país.

A duplicação não é luxo. Em uma rodovia com o tráfego e o histórico de acidentes da BR-116, duplicar é salvar vidas. É garantir infraestrutura mínima de circulação para uma região que representa parcela significativa do território baiano. Mas o apelo popular por essa obra — reiterado em manifestações, petições, plenárias e pronunciamentos — segue encontrando o mesmo obstáculo de sempre: a indiferença estrutural dos que governam de costas.

O contraste que indigna

Interior · Vitória da Conquista

R$ 40 milhões

Viaduto na saída de Vitória da Conquista para Itambé. Orçado. Prometido. Não realizado.

×

Capital · Salvador

R$ 2 bilhões

Linha 1 do Metrô — da Estação da Lapa ao Campo Grande. 1,1 km subterrâneo para melhorar a mobilidade no circuito do Carnaval.

Quando o orçamento público revela uma escolha política

Os números acima não são coincidência. São uma declaração. Quando o poder público encontra R$ 2 bilhões para construir 1,1 km de metrô subterrâneo em Salvador — uma obra de inegável relevância, diga-se, mas cuja urgência se vincula ao calendário do Carnaval tanto quanto às necessidades cotidianas da população — e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto que desafoga o trânsito e reduz acidentes em uma das principais entradas de Vitória da Conquista, o que se revela não é falta de recursos. O que se revela é uma hierarquia de prioridades. E nessa hierarquia, o interior da Bahia está, como sempre esteve, nas últimas posições.

O argumento de que obras na capital beneficiam toda a Bahia — pela geração de empregos, pelo aquecimento econômico, pela movimentação turística — é frequentemente invocado como escudo. Mas esse argumento tem limites. Quando o trabalhador de Guanambi, de Brumado, de Conquista, precisar se deslocar com segurança pela BR-116, nenhum quilômetro de metrô soteropolitano lhe será útil. O desenvolvimento regional exige investimento no território, não apenas na vitrine.

O abandono que não tem partido

É preciso dizer com clareza: este não é um problema de um governo específico. Seria cômodo demais — e intelectualmente desonesto — reduzir séculos de negligência histórica à gestão de uma sigla partidária. A política baiana em todas as suas colorações partidárias, da esquerda à direita, do conservador ao progressista, reproduziu, com poucas exceções, a mesma lógica centralista e litorânea. O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.

A população do sudoeste baiano não ignora essa realidade. A sensação de abandono — e ela é sentida, discutida nas feiras, nas igrejas, nos botecos e nas praças — não nasce do ressentimento gratuito. Nasce da experiência acumulada de ver promessas se repetirem sem se realizarem, de ver obras inauguradas longe e esperar, sempre esperar, por aquelas que nunca chegam. Esse sentimento é político. É legítimo. E merece ser nomeado como o que é: o fruto de uma desigualdade regional institucionalizada.

“O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.”

De Tomé de Souza a hoje: a longa sombra do litoral

Não é exagero retornar ao século XVI para entender o problema do século XXI. Quando se diz que a Bahia foi construída de costas para o seu interior, não se faz poesia — faz-se diagnóstico. O litoral era a janela para o lucro colonial: era por onde escoava o açúcar, o fumo, o ouro. O interior era obstáculo ou reservatório — de mão de obra, de recursos naturais a serem extraídos, de populações a serem controladas. Essa gramática nunca foi completamente reescrita.

A infraestrutura — estradas, pontes, viadutos, hospitais, universidades, saneamento — é a linguagem material pela qual um Estado demonstra quem ele considera cidadão de primeira classe. E quando se compara o que foi construído no litoral com o que foi prometido e não construído no interior, a resposta é dolorosamente clara. O interior da Bahia ainda aguarda ser tratado como parte integrante — e não como apêndice tolerado — do projeto de Estado.

O que se exige: não favor, mas justiça

A reivindicação do sudoeste baiano pela duplicação da BR-116 não é pedido de esmola. É a cobrança de um direito. É a exigência de que o Estado cumpra sua função básica de garantir condições dignas de vida, mobilidade e segurança a todos os cidadãos — independentemente de onde vivam. A luta encampada por lideranças como José Maria Caires, que há anos organiza e vocaliza a demanda da comunidade pelo Duplica Sudoeste, é expressão legítima de uma cidadania que se recusa a aceitar o abandono como destino natural.

O que o interior da Bahia pede não é generosidade. Pede equidade. Pede que os impostos pagos pelo trabalhador de Conquista, pelo produtor de Guanambi, pelo comerciante de Brumado retornem em forma de obras, de serviços, de políticas. Pede que o desenvolvimento regional deixe de ser retórica de palanque e se torne prioridade de gabinete.


Reflexão Final

Há uma diferença fundamental entre governar um Estado e governar para uma cidade. A Bahia, com seus 417 municípios, suas caatingas e cerrados, seus sertões e chapadas, não cabe em nenhum Carnaval de Salvador — por mais grandioso que seja. Um Estado que constrói 1,1 km de metrô por R$ 2 bilhões na capital e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto no interior não está distribuindo recursos: está distribuindo cidadãos em categorias.

Tomé de Souza chegou em 1549 e virou as costas para o sertão. Quinhentos anos depois, o interior baiano ainda espera que alguém, enfim, se vire de frente.


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