Política Baiana · Desenvolvimento Regional
Os governos de costas para o interior da Bahia
Desde Tomé de Souza até os dias atuais, a desigualdade regional entre o litoral e o interior baiano não é acidente — é política. E uma política secular.
Por JOSE MARIA CAIRES-DUPLICA SUDOESTE | Política e Resenha | Vitória da Conquista, Bahia
A BR-116 no sudoeste baiano: uma promessa que o interior espera há décadas.
Há uma imagem que resume séculos de história baiana: o mar à frente, os olhos voltados para o Atlântico, e as costas — largas e indiferentes — apontadas para o sertão. Quando Tomé de Souza aportou em Salvador, em 1549, inaugurando a primeira capital do Brasil colonial, ele não veio construir um Estado para todos. Veio explorar um litoral. O interior da Bahia, vasto e diverso, seria, por séculos, apenas o fundo do cenário — distante, esquecido, tratado como margem de uma história que se escrevia à beira-mar.
Essa herança colonial não ficou enterrada nos arquivos. Ela se reproduziu, geração após geração, nas decisões orçamentárias, nos traçados das obras públicas, na distribuição dos investimentos. A desigualdade regional na Bahia não é um fenômeno contemporâneo nem o erro isolado de um governante imprudente. É uma estrutura. É um padrão. É uma escolha reiterada, que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.
“A desigualdade regional na Bahia não é o erro de um governante — é uma estrutura secular. Uma escolha reiterada que atravessa partidos, mandatos e retóricas de campanha.”Salvador e Camaçari: o epicentro do Brasil baiano

A lógica que prevalece na política baiana é simples e perversa: onde há visibilidade, há investimento. Salvador concentra não apenas a população e o poder, mas também a narrativa do que é a Bahia — seus carnavais, seus circuitos, sua imagem exportada ao mundo. Camaçari, com seu polo petroquímico, alimenta a arrecadação do Estado. O resultado prático é que a maior parte dos investimentos públicos gravitam em torno do litoral como planetas em torno de um sol — e o interior orbita, longínquo, à margem da luz.
Não se trata de negar a importância de Salvador. Uma capital pujante é condição de qualquer Estado forte. Mas há uma diferença entre fortalecer a capital e sugar o interior. E quando o cidadão do interior da Bahia observa o mapa das obras públicas, o que vê não é complementaridade — é exclusão.
A BR-116 e o grito do sudoeste baiano

No sudoeste da Bahia, uma reivindicação atravessa décadas com a persistência de quem aprendeu a cobrar sem esperar ser ouvido: a duplicação da BR-116. A rodovia é artéria vital de uma região que produz, exporta e movimenta uma economia que raramente aparece nos discursos dos governantes estaduais. Municípios como Vitória da Conquista, Jequié, Poções e tantos outros dependem dessa estrada para o escoamento de sua produção, para o deslocamento seguro de sua gente, para a integração com os mercados do sul e do sudeste do país.
A duplicação não é luxo. Em uma rodovia com o tráfego e o histórico de acidentes da BR-116, duplicar é salvar vidas. É garantir infraestrutura mínima de circulação para uma região que representa parcela significativa do território baiano. Mas o apelo popular por essa obra — reiterado em manifestações, petições, plenárias e pronunciamentos — segue encontrando o mesmo obstáculo de sempre: a indiferença estrutural dos que governam de costas.
O contraste que indigna
Interior · Vitória da Conquista
R$ 40 milhões
Viaduto na saída de Vitória da Conquista para Itambé. Orçado. Prometido. Não realizado.
×
Capital · Salvador
R$ 2 bilhões
Linha 1 do Metrô — da Estação da Lapa ao Campo Grande. 1,1 km subterrâneo para melhorar a mobilidade no circuito do Carnaval.
Quando o orçamento público revela uma escolha política
Os números acima não são coincidência. São uma declaração. Quando o poder público encontra R$ 2 bilhões para construir 1,1 km de metrô subterrâneo em Salvador — uma obra de inegável relevância, diga-se, mas cuja urgência se vincula ao calendário do Carnaval tanto quanto às necessidades cotidianas da população — e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto que desafoga o trânsito e reduz acidentes em uma das principais entradas de Vitória da Conquista, o que se revela não é falta de recursos. O que se revela é uma hierarquia de prioridades. E nessa hierarquia, o interior da Bahia está, como sempre esteve, nas últimas posições.
O argumento de que obras na capital beneficiam toda a Bahia — pela geração de empregos, pelo aquecimento econômico, pela movimentação turística — é frequentemente invocado como escudo. Mas esse argumento tem limites. Quando o trabalhador de Guanambi, de Brumado, de Conquista, precisar se deslocar com segurança pela BR-116, nenhum quilômetro de metrô soteropolitano lhe será útil. O desenvolvimento regional exige investimento no território, não apenas na vitrine.
O abandono que não tem partido
É preciso dizer com clareza: este não é um problema de um governo específico. Seria cômodo demais — e intelectualmente desonesto — reduzir séculos de negligência histórica à gestão de uma sigla partidária. A política baiana em todas as suas colorações partidárias, da esquerda à direita, do conservador ao progressista, reproduziu, com poucas exceções, a mesma lógica centralista e litorânea. O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.
A população do sudoeste baiano não ignora essa realidade. A sensação de abandono — e ela é sentida, discutida nas feiras, nas igrejas, nos botecos e nas praças — não nasce do ressentimento gratuito. Nasce da experiência acumulada de ver promessas se repetirem sem se realizarem, de ver obras inauguradas longe e esperar, sempre esperar, por aquelas que nunca chegam. Esse sentimento é político. É legítimo. E merece ser nomeado como o que é: o fruto de uma desigualdade regional institucionalizada.
“O interior foi instrumentalizado eleitoralmente — como reduto de votos, como território de promessas — mas raramente tratado como destinatário prioritário de políticas estruturais de Estado.”
De Tomé de Souza a hoje: a longa sombra do litoral
Não é exagero retornar ao século XVI para entender o problema do século XXI. Quando se diz que a Bahia foi construída de costas para o seu interior, não se faz poesia — faz-se diagnóstico. O litoral era a janela para o lucro colonial: era por onde escoava o açúcar, o fumo, o ouro. O interior era obstáculo ou reservatório — de mão de obra, de recursos naturais a serem extraídos, de populações a serem controladas. Essa gramática nunca foi completamente reescrita.
A infraestrutura — estradas, pontes, viadutos, hospitais, universidades, saneamento — é a linguagem material pela qual um Estado demonstra quem ele considera cidadão de primeira classe. E quando se compara o que foi construído no litoral com o que foi prometido e não construído no interior, a resposta é dolorosamente clara. O interior da Bahia ainda aguarda ser tratado como parte integrante — e não como apêndice tolerado — do projeto de Estado.
O que se exige: não favor, mas justiça
A reivindicação do sudoeste baiano pela duplicação da BR-116 não é pedido de esmola. É a cobrança de um direito. É a exigência de que o Estado cumpra sua função básica de garantir condições dignas de vida, mobilidade e segurança a todos os cidadãos — independentemente de onde vivam. A luta encampada por lideranças como José Maria Caires, que há anos organiza e vocaliza a demanda da comunidade pelo Duplica Sudoeste, é expressão legítima de uma cidadania que se recusa a aceitar o abandono como destino natural.
O que o interior da Bahia pede não é generosidade. Pede equidade. Pede que os impostos pagos pelo trabalhador de Conquista, pelo produtor de Guanambi, pelo comerciante de Brumado retornem em forma de obras, de serviços, de políticas. Pede que o desenvolvimento regional deixe de ser retórica de palanque e se torne prioridade de gabinete.
Reflexão Final
Há uma diferença fundamental entre governar um Estado e governar para uma cidade. A Bahia, com seus 417 municípios, suas caatingas e cerrados, seus sertões e chapadas, não cabe em nenhum Carnaval de Salvador — por mais grandioso que seja. Um Estado que constrói 1,1 km de metrô por R$ 2 bilhões na capital e não encontra R$ 40 milhões para um viaduto no interior não está distribuindo recursos: está distribuindo cidadãos em categorias.
Tomé de Souza chegou em 1549 e virou as costas para o sertão. Quinhentos anos depois, o interior baiano ainda espera que alguém, enfim, se vire de frente.
Assinado
#Duplica Sudoeste · #José Maria Caires · #BR116Bahia











