
Há momentos na história em que o silêncio não é apenas omissão — é cumplicidade. O golpe de 1964, que mergulhou o Brasil em uma longa noite de supressão de direitos, não foi obra exclusiva de tanques e generais. Ele foi também construído com tinta, papel e ondas de rádio. Foi legitimado por narrativas. Foi embalado como salvação.
E é aqui que recai o peso inevitável sobre a Rede Globo e outros conglomerados que representavam o chamado baronato da comunicação.
A imagem que você trouxe — um recorte de jornal do dia — é mais do que um registro histórico. É uma peça de acusação. Nela, vemos a construção de uma linguagem que naturaliza o golpe, que o apresenta como necessidade, como ordem, como “salvação” diante de um suposto caos. Não há ali o choque democrático. Há adesão. Há narrativa.
A CONSTRUÇÃO DA LEGITIMIDADE DO GOLPE
A imprensa não apenas noticiou os acontecimentos do Golpe Militar de 1964 — ela ajudou a moldá-los.
Nos dias que antecederam o golpe, jornais e emissoras reforçaram um clima de medo:
- o “perigo comunista”
- a “desordem institucional”
- a “ameaça à família e à propriedade”
Essa construção simbólica foi fundamental. Golpes não se sustentam apenas com força — precisam de justificativa moral. E essa justificativa foi fornecida por setores da mídia.
A RESPONSABILIDADE DA REDE GLOBO
A Rede Globo, que se consolidaria nos anos seguintes como a maior emissora do país, não apenas cresceu sob o regime — ela floresceu dentro dele.
É impossível ignorar:
- sua expansão ocorreu durante a ditadura
- sua linha editorial, por anos, foi alinhada ao regime
- sua narrativa ajudou a suavizar a repressão e invisibilizar a violência
Ainda que, décadas depois, a própria emissora tenha reconhecido como “erro” o apoio ao golpe, o impacto histórico não se desfaz com uma nota editorial tardia.
O papel de um ombudsman não é julgar com paixão — é analisar com rigor. E o rigor nos leva a uma conclusão desconfortável:
houve responsabilidade ativa na construção do ambiente que tornou o golpe possível.
ENTRE A IMPRENSA E O PODER: UMA RELAÇÃO PERIGOSA
O que se revela ali não é apenas um episódio isolado, mas um padrão:
quando a imprensa abandona seu papel crítico e se torna aliada do poder econômico e político, ela deixa de informar — passa a conduzir.
O baronato midiático da época não operava como fiscal da democracia, mas como agente de seus próprios interesses. E, diante da ameaça de reformas sociais e mudanças estruturais, optou por apoiar a ruptura.
A CULPA HISTÓRICA
A culpa não é simples, nem absoluta. Não se trata de dizer que a imprensa “fez o golpe sozinha”.
Mas também não se pode absolver:
- quem legitimou
- quem silenciou
- quem distorceu
A história cobra. E cobra não apenas dos militares, mas de todos que, direta ou indiretamente, ajudaram a apagar a luz da democracia.
A LIÇÃO PARA O PRESENTE
O verdadeiro papel de um ombudsman é transformar memória em alerta.
Porque a pergunta que permanece não é apenas sobre 1964:
é sobre hoje.
Quando a imprensa escolhe lados, quando amplifica narrativas de medo, quando se curva a interesses econômicos — ela volta a flertar com os mesmos erros.
E a história, quando ignorada, tem o hábito perigoso de se repetir.











