
Há momentos em que uma cidade é obrigada a se olhar no espelho. Não no espelho confortável das inaugurações, dos discursos e das promessas de progresso, mas naquele reflexo mais duro — o das águas correndo pelas ruas, dos canais transbordando e da sensação coletiva de que algo estrutural ficou para trás.
As chuvas recentes em Vitória da Conquista trouxeram exatamente esse tipo de reflexão. Não se trata apenas de um evento climático. Trata-se de um alerta urbano.
Ao acompanhar atentamente a entrevista do secretário municipal Jackson Yoshiura, é preciso reconhecer algo fundamental: a resposta emergencial da prefeitura foi correta. O secretário demonstrou sobriedade institucional, falou com responsabilidade técnica e teve o cuidado de se colocar exatamente no lugar que ocupa — o de gestor municipal lidando com uma situação urgente.
Isso, em política, não é pouco.
Em tempos de protagonismos exagerados e narrativas inflamadas, a postura de um secretário que explica, esclarece e assume a dimensão real de sua função merece registro. As ações imediatas, os esforços de contenção e a transparência na comunicação demonstram que a administração municipal buscou responder à crise com os instrumentos disponíveis.
Mas é exatamente aí que começa o verdadeiro debate.
Porque uma cidade não se constrói apenas na emergência. Cidades se constroem no planejamento — e, sobretudo, na capacidade de antecipar o futuro.
Vitória da Conquista enfrenta hoje um problema que não é exclusivo dela, mas que assume aqui contornos muito próprios: a ausência de um projeto estruturante de macrodrenagem urbana.
E é preciso dizer isso com absoluta franqueza: macrodrenagem não é obra simples, não é intervenção de curto prazo e, sobretudo, não é trabalho para amadores.
Projetos dessa natureza exigem equipes altamente especializadas, estudos hidrológicos complexos, planejamento territorial integrado e, principalmente, cooperação entre diferentes níveis de governo. Nenhum município brasileiro — salvo raríssimas exceções — possui sozinho capacidade financeira para executar obras estruturais dessa magnitude.
Também não se trata de algo que o Estado possa resolver isoladamente, tampouco a União.
Macrodrenagem é, por natureza, uma agenda federativa.
Ela exige articulação política, planejamento de décadas e investimentos robustos que ultrapassam mandatos e calendários eleitorais.
Mas o problema de Conquista não começa na chuva. Ele começa muito antes, na forma como as cidades brasileiras — e a nossa não é exceção — cresceram ao longo das últimas décadas.
Urbanização acelerada, ocupação de áreas naturais de drenagem, impermeabilização do solo e expansão urbana pouco planejada criaram uma equação difícil. Onde antes havia terra capaz de absorver água, surgiram asfalto, concreto e edificações.
O resultado é simples: a água continua caindo. Apenas não tem mais para onde ir.
Basta observar com atenção o próprio desenho urbano da cidade. Áreas que historicamente funcionavam como corredores naturais de drenagem foram progressivamente ocupadas. Regiões próximas ao Jurema, trechos canalizados ao longo da Juracy Magalhães e diversos outros pontos da malha urbana revelam um padrão recorrente.
A natureza desenhou caminhos para a água. A cidade, muitas vezes, decidiu ignorá-los.
E quando a chuva vem — como veio recentemente — ela apenas tenta reencontrar esses caminhos.
Mas há ainda um elemento novo nessa equação. Um elemento que altera completamente as bases de qualquer planejamento urbano contemporâneo: as mudanças climáticas.
Durante muito tempo, os relatórios científicos eram tratados como previsões distantes. Meteorologistas, climatologistas e pesquisadores alertavam para cenários futuros de eventos extremos. Falava-se em aumento de temperatura, ciclos mais intensos de seca e chuva, instabilidade climática crescente.
Hoje, porém, já não se trata de previsão.
Trata-se de realidade.
Secas prolongadas, enchentes súbitas, ondas de calor, incêndios florestais e degelo em regiões polares compõem o cotidiano do planeta. O clima global entrou em uma nova fase — e as cidades são o lugar onde esses impactos se manifestam de forma mais direta.
Isso significa que mesmo cidades que possuam planos de drenagem elaborados décadas atrás estão sendo obrigadas a revisá-los. Infraestruturas projetadas para padrões pluviométricos antigos simplesmente não suportam os volumes atuais de precipitação.
Ou seja: o desafio não é apenas construir sistemas de drenagem. É reconstruir a lógica urbana diante de um novo clima.
Nesse ponto, uma referência conceitual importante emerge no debate internacional: o modelo das chamadas “cidades-esponja”, desenvolvido pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu.
A proposta é ao mesmo tempo simples e revolucionária.
Em vez de lutar contra a água com mais concreto, a cidade passa a trabalhar com a natureza. Parques inundáveis, áreas verdes permeáveis, jardins de chuva, reservatórios naturais e corredores ecológicos são integrados ao planejamento urbano para permitir que a água seja absorvida, filtrada e reaproveitada.
A cidade deixa de repelir a chuva — e aprende a absorvê-la.
Vitória da Conquista, curiosamente, possui características naturais que poderiam dialogar muito bem com esse conceito. Sua topografia, a presença histórica de áreas de drenagem e a própria permeabilidade original de seus solos oferecem condições que, se bem planejadas, poderiam transformar parte da cidade em um sistema urbano mais resiliente.
Mas isso exige algo raro na política brasileira: pensamento de longo prazo.
Significa reunir especialistas em hidrologia urbana, engenharia ambiental, urbanismo e planejamento territorial. Significa mapear áreas de drenagem natural, recuperar espaços degradados e incorporar soluções baseadas na natureza ao desenho urbano.
Significa, sobretudo, compreender que a cidade do futuro não será construída apenas com cimento e tubulações.
Ela será construída com inteligência ecológica.
Nada disso diminui o mérito das ações emergenciais da prefeitura. Ao contrário. Em situações de crise, agir rapidamente é obrigação de qualquer gestor público.
Mas é preciso reconhecer uma diferença essencial entre apagar incêndios e reorganizar a estrutura da cidade.
A primeira tarefa pertence à emergência. A segunda pertence à história.
Vitória da Conquista já demonstrou diversas vezes sua capacidade de enfrentar desafios. É uma cidade que cresceu, se consolidou como polo regional e desenvolveu forte identidade urbana.
Agora, porém, enfrenta um novo tipo de teste.
Não se trata apenas de atravessar a próxima chuva. Trata-se de decidir que cidade queremos ser nas próximas décadas.
Uma cidade que reage aos eventos ou uma cidade que se prepara para eles.
Porque, no fim das contas, a pergunta que paira sobre nossas ruas molhadas é simples — e profundamente política:
vamos continuar tentando expulsar a água da cidade, ou finalmente aprenderemos a conviver com ela?
O futuro urbano de Conquista pode muito bem depender dessa resposta.
Wilton Cunha