
Autor: Padre Carlos
Há momentos na vida pública em que a política precisa se calar. Não por covardia, mas por respeito. Há horas em que o silêncio é mais digno do que qualquer discurso. A morte, a dor de uma família, a angústia de uma cidade inteira não podem — não devem — ser transformadas em instrumento de disputa partidária.
Foi com esse sentimento de perplexidade que tomei conhecimento do pronunciamento de um deputado da nossa região após a tragédia envolvendo Rosânia Silva Borges, arrastada por uma enxurrada na Avenida Caracas, em Vitória da Conquista. O carro em que ela estava foi levado pela correnteza que deságua no canal do Rio Verruga durante um forte temporal, numa cena que abalou profundamente a cidade e mobilizou equipes de resgate e bombeiros em uma operação angustiante.
Diante de uma dor dessa magnitude, o que se espera de um representante público é solidariedade sincera, mobilização institucional e, sobretudo, grandeza moral. Espera-se que ele use o peso do cargo para buscar soluções, não culpados. Espera-se articulação — não acusação.
Mas não foi exatamente isso que se viu.
O deputado manifestou solidariedade à família, é verdade. Entretanto, nas entrelinhas do discurso, surgiu algo que incomoda profundamente: a tentativa de transformar uma tragédia humana em argumento político. Classificou o episódio como “tragédia anunciada” e direcionou críticas à gestão municipal, liderada pela prefeita Sheila Lemos, insinuando falhas estruturais na infraestrutura urbana da cidade.
Aqui é preciso fazer uma pausa — e refletir com seriedade.
Macrodrenagem urbana não é obra trivial. Não é pintura de meio-fio nem recapeamento de rua. Trata-se de um dos investimentos mais caros da engenharia urbana, exigindo projetos complexos, estudos hidrológicos e, sobretudo, vultosos recursos financeiros — quase sempre provenientes da União e dos estados. Municípios, especialmente fora das capitais, raramente têm capacidade orçamentária para executar sozinhos intervenções dessa magnitude.
Portanto, a pergunta que precisa ser feita não é apenas quem é culpado, mas quem está disposto a ajudar.
É justamente nesse ponto que o discurso político se torna desconcertante. Porque, segundo relatos que circularam na própria arena política local, o mesmo deputado que cobra obras estruturais teria declarado que não destina emendas para a prefeitura. Se isso é verdade, estamos diante de uma contradição que beira o absurdo.
Como cobrar obras milionárias de drenagem sem colaborar para viabilizá-las?
A política não pode se transformar nesse teatro de cobranças seletivas. Se um parlamentar reconhece que macrodrenagem é o maior problema urbano da cidade — como ele próprio afirmou — então sua responsabilidade não é apenas discursar sobre o problema, mas mobilizar recursos para solucioná-lo.
Deputados federais têm instrumentos para isso. Emendas parlamentares, articulação ministerial, diálogo com o governo estadual, pressão institucional em Brasília. A política serve exatamente para isso: transformar influência em solução.
E aqui reside o verdadeiro contraste.
Enquanto a cidade chorava uma vida perdida e equipes do Corpo de Bombeiros lutavam contra a correnteza em busca de respostas, o que a população precisava ouvir era um compromisso de união institucional — não uma disputa de narrativas.
Tragédias exigem estadistas. Não estrategistas eleitorais.
É compreensível que o debate público exista. A crítica faz parte da democracia. Mas há uma diferença abissal entre criticar para construir e criticar para capitalizar politicamente o sofrimento.
Quando a dor de uma família vira argumento de palanque, algo se rompe no tecido moral da política.
A cidade de Vitória da Conquista — a chamada Joia do Sertão Baiano — conhece bem seus desafios estruturais. Chuvas intensas, canais antigos, crescimento urbano acelerado. Problemas que atravessam décadas e diferentes administrações. Nenhuma gestão isoladamente criou esse cenário — e nenhuma conseguirá resolvê-lo sozinha.
É por isso que a verdadeira liderança se mede pela capacidade de somar forças, não de distribuir culpas.
O momento exige menos retórica e mais responsabilidade. Menos cálculo político e mais compaixão. Menos acusações e mais recursos destinados à solução.
Porque quando a política esquece sua dimensão humana, ela perde sua razão de existir.
E diante da memória de Rosânia Silva Borges, a cidade não precisa de discursos que apontem dedos.
Precisa de mãos estendidas.











