Política e Resenha

Uma Manhã de Tempestade e um Alerta Silencioso: O Que o Temporal em Vitória da Conquista Nos Revela

Chuva intensa, ventos fortes e um susto no estacionamento reacendem o debate sobre prevenção e segurança urbana

A manhã deste sábado, 28, começou sob o impacto de um temporal em Vitória da Conquista, transformando a rotina de muitos moradores em minutos de apreensão. A cidade, que já estava sob alerta meteorológico para chuvas intensas, registrou um episódio que chamou a atenção de quem circulava pela Avenida Rosa Cruz.

Uma árvore caiu no estacionamento do Supermercado Mineirão, atingindo um carro estacionado e alcançando outro veículo que se encontrava no pátio comercial. Apesar do impacto e do susto evidente entre clientes e funcionários, não houve registro de feridos.

O episódio ocorreu em meio a um cenário de instabilidade climática. De acordo com os alertas meteorológicos vigentes, o município pode registrar volumes superiores a 50 milímetros de chuva por dia, com rajadas de vento que podem alcançar até 60 km/h. Essas condições elevam o risco de ocorrências como quedas de galhos e árvores, interrupções no fornecimento de energia elétrica, alagamentos pontuais e descargas elétricas.

O alerta meteorológico e seus desdobramentos

A classificação de “chuvas intensas” não se resume ao volume acumulado. A combinação entre solo encharcado e ventos fortes potencializa a vulnerabilidade de árvores, estruturas metálicas e redes elétricas. Em áreas urbanas, onde o fluxo de pessoas e veículos é constante, os impactos podem ganhar maior visibilidade — ainda que, felizmente, nem sempre resultem em vítimas.

Eventos como o registrado na Avenida Rosa Cruz reforçam a importância do acompanhamento contínuo dos boletins meteorológicos e da adoção de medidas preventivas por parte da população, como evitar estacionar sob árvores em períodos de ventania e redobrar a atenção ao circular por áreas abertas durante tempestades.

Segurança e prevenção

As recomendações em situações de alerta incluem:

  • Evitar abrigo sob árvores ou estruturas metálicas durante descargas elétricas;
  • Não estacionar veículos próximos a árvores ou postes em dias de vento intenso;
  • Reduzir a velocidade ao dirigir sob chuva forte;
  • Evitar áreas conhecidas por histórico de alagamentos;
  • Acompanhar comunicados oficiais e orientações das autoridades competentes.

O episódio deste sábado termina com uma notícia positiva: ninguém ficou ferido. No entanto, serve como sinal de atenção em um período de instabilidade climática que pode se prolongar.

A natureza, quando se manifesta com intensidade, exige vigilância, prudência e informação. Em tempos de alertas meteorológicos frequentes, cada ocorrência reforça a necessidade de preparo coletivo e responsabilidade individual.

(Maria Clara)

Uma Manhã de Tempestade e um Alerta Silencioso: O Que o Temporal em Vitória da Conquista Nos Revela

Chuva intensa, ventos fortes e um susto no estacionamento reacendem o debate sobre prevenção e segurança urbana

A manhã deste sábado, 28, começou sob o impacto de um temporal em Vitória da Conquista, transformando a rotina de muitos moradores em minutos de apreensão. A cidade, que já estava sob alerta meteorológico para chuvas intensas, registrou um episódio que chamou a atenção de quem circulava pela Avenida Rosa Cruz.

Uma árvore caiu no estacionamento do Supermercado Mineirão, atingindo um carro estacionado e alcançando outro veículo que se encontrava no pátio comercial. Apesar do impacto e do susto evidente entre clientes e funcionários, não houve registro de feridos.

O episódio ocorreu em meio a um cenário de instabilidade climática. De acordo com os alertas meteorológicos vigentes, o município pode registrar volumes superiores a 50 milímetros de chuva por dia, com rajadas de vento que podem alcançar até 60 km/h. Essas condições elevam o risco de ocorrências como quedas de galhos e árvores, interrupções no fornecimento de energia elétrica, alagamentos pontuais e descargas elétricas.

O alerta meteorológico e seus desdobramentos

A classificação de “chuvas intensas” não se resume ao volume acumulado. A combinação entre solo encharcado e ventos fortes potencializa a vulnerabilidade de árvores, estruturas metálicas e redes elétricas. Em áreas urbanas, onde o fluxo de pessoas e veículos é constante, os impactos podem ganhar maior visibilidade — ainda que, felizmente, nem sempre resultem em vítimas.

Eventos como o registrado na Avenida Rosa Cruz reforçam a importância do acompanhamento contínuo dos boletins meteorológicos e da adoção de medidas preventivas por parte da população, como evitar estacionar sob árvores em períodos de ventania e redobrar a atenção ao circular por áreas abertas durante tempestades.

Segurança e prevenção

As recomendações em situações de alerta incluem:

  • Evitar abrigo sob árvores ou estruturas metálicas durante descargas elétricas;
  • Não estacionar veículos próximos a árvores ou postes em dias de vento intenso;
  • Reduzir a velocidade ao dirigir sob chuva forte;
  • Evitar áreas conhecidas por histórico de alagamentos;
  • Acompanhar comunicados oficiais e orientações das autoridades competentes.

O episódio deste sábado termina com uma notícia positiva: ninguém ficou ferido. No entanto, serve como sinal de atenção em um período de instabilidade climática que pode se prolongar.

A natureza, quando se manifesta com intensidade, exige vigilância, prudência e informação. Em tempos de alertas meteorológicos frequentes, cada ocorrência reforça a necessidade de preparo coletivo e responsabilidade individual.

(Maria Clara)

Urgente: Saiba quem é a mulher encontrada morta dentro de casa no Bairro Ibirapuera

A tarde deste sábado (28) foi marcada por uma ocorrência que mobilizou moradores do Bairro Ibirapuera, localizado na zona oeste de Vitória da Conquista. Uma mulher foi encontrada morta dentro de casa, fato que chamou a atenção da comunidade local e das autoridades responsáveis pelo atendimento da ocorrência.

A vítima foi identificada como Andressa. Até o momento, a causa da morte não foi oficialmente determinada. O caso está sendo tratado com a cautela necessária, enquanto os procedimentos legais seguem seu curso.

De acordo com as informações apuradas, após a constatação do óbito, o corpo será removido para o Instituto Médico Legal (IML) de Vitória da Conquista, onde passará por exames que deverão esclarecer as circunstâncias da morte. Somente após a conclusão dos laudos periciais será possível confirmar a causa.

Moradores da região relataram surpresa com a movimentação na área. O Bairro Ibirapuera é conhecido por ser predominantemente residencial, e episódios dessa natureza geram comoção e expectativa por esclarecimentos. Ainda não há divulgação de detalhes adicionais sobre o contexto em que o corpo foi encontrado.

As autoridades competentes conduzem o caso dentro dos protocolos legais, garantindo a preservação do local e a coleta de informações necessárias para a investigação. A divulgação de dados oficiais deverá ocorrer após a conclusão dos exames técnicos.

O episódio reforça a importância dos procedimentos periciais na elucidação de ocorrências dessa natureza, assegurando que todas as informações sejam tratadas com responsabilidade e baseadas em evidências.

Novas informações poderão ser divulgadas assim que confirmadas pelos órgãos responsáveis.

(Maria Clara)

Urgente: Saiba quem é a mulher encontrada morta dentro de casa no Bairro Ibirapuera

A tarde deste sábado (28) foi marcada por uma ocorrência que mobilizou moradores do Bairro Ibirapuera, localizado na zona oeste de Vitória da Conquista. Uma mulher foi encontrada morta dentro de casa, fato que chamou a atenção da comunidade local e das autoridades responsáveis pelo atendimento da ocorrência.

A vítima foi identificada como Andressa. Até o momento, a causa da morte não foi oficialmente determinada. O caso está sendo tratado com a cautela necessária, enquanto os procedimentos legais seguem seu curso.

De acordo com as informações apuradas, após a constatação do óbito, o corpo será removido para o Instituto Médico Legal (IML) de Vitória da Conquista, onde passará por exames que deverão esclarecer as circunstâncias da morte. Somente após a conclusão dos laudos periciais será possível confirmar a causa.

Moradores da região relataram surpresa com a movimentação na área. O Bairro Ibirapuera é conhecido por ser predominantemente residencial, e episódios dessa natureza geram comoção e expectativa por esclarecimentos. Ainda não há divulgação de detalhes adicionais sobre o contexto em que o corpo foi encontrado.

As autoridades competentes conduzem o caso dentro dos protocolos legais, garantindo a preservação do local e a coleta de informações necessárias para a investigação. A divulgação de dados oficiais deverá ocorrer após a conclusão dos exames técnicos.

O episódio reforça a importância dos procedimentos periciais na elucidação de ocorrências dessa natureza, assegurando que todas as informações sejam tratadas com responsabilidade e baseadas em evidências.

Novas informações poderão ser divulgadas assim que confirmadas pelos órgãos responsáveis.

(Maria Clara)

Urgente: Dois onibus da Cidade Sol, empresa que atua em Conquista, são consumidos pelo fogo

Na tarde deste sábado (28), um episódio envolvendo a empresa de transporte Cidade Sol chamou a atenção de moradores da cidade de Irecê, no interior da Bahia. Um ônibus da companhia foi consumido por um incêndio enquanto estava estacionado na garagem. As chamas se espalharam rapidamente, provocando uma intensa fumaça preta que pôde ser vista a distância e gerou apreensão entre os moradores da área.

Segundo informações preliminares, o veículo não estava em circulação no momento do incidente. Não há registro de feridos. As causas do incêndio ainda não foram oficialmente divulgadas.

Relatos de testemunhas indicam que o fogo se alastrou em poucos minutos, exigindo resposta rápida para conter as chamas e evitar que o incêndio atingisse outros veículos nas proximidades. A presença da fumaça densa reforçou a preocupação inicial de quem acompanhava a cena.

A empresa Cidade Sol atua em diversas cidades do interior baiano, incluindo Vitória da Conquista e municípios da região sudoeste. Por transportar diariamente um número significativo de passageiros, situações como essa naturalmente despertam questionamentos sobre protocolos de manutenção preventiva, segurança operacional e gestão de riscos.

Até o momento, não foram divulgadas informações conclusivas sobre o que pode ter provocado o incêndio. Casos dessa natureza costumam demandar perícia técnica para identificar se houve falha mecânica, pane elétrica ou outro fator eventual.

Especialistas em segurança veicular destacam que incêndios em ônibus, embora não sejam ocorrências frequentes, podem estar associados a diferentes causas técnicas e, por isso, a investigação detalhada é essencial para o esclarecimento dos fatos e para eventual adoção de medidas preventivas adicionais.

A expectativa agora é que a empresa e os órgãos competentes apresentem esclarecimentos oficiais após a conclusão das análises técnicas. Enquanto isso, o episódio permanece sob acompanhamento, principalmente pelo impacto que a empresa possui na mobilidade regional.

(maria clara)

Urgente: Dois onibus da Cidade Sol, empresa que atua em Conquista, são consumidos pelo fogo

Na tarde deste sábado (28), um episódio envolvendo a empresa de transporte Cidade Sol chamou a atenção de moradores da cidade de Irecê, no interior da Bahia. Um ônibus da companhia foi consumido por um incêndio enquanto estava estacionado na garagem. As chamas se espalharam rapidamente, provocando uma intensa fumaça preta que pôde ser vista a distância e gerou apreensão entre os moradores da área.

Segundo informações preliminares, o veículo não estava em circulação no momento do incidente. Não há registro de feridos. As causas do incêndio ainda não foram oficialmente divulgadas.

Relatos de testemunhas indicam que o fogo se alastrou em poucos minutos, exigindo resposta rápida para conter as chamas e evitar que o incêndio atingisse outros veículos nas proximidades. A presença da fumaça densa reforçou a preocupação inicial de quem acompanhava a cena.

A empresa Cidade Sol atua em diversas cidades do interior baiano, incluindo Vitória da Conquista e municípios da região sudoeste. Por transportar diariamente um número significativo de passageiros, situações como essa naturalmente despertam questionamentos sobre protocolos de manutenção preventiva, segurança operacional e gestão de riscos.

Até o momento, não foram divulgadas informações conclusivas sobre o que pode ter provocado o incêndio. Casos dessa natureza costumam demandar perícia técnica para identificar se houve falha mecânica, pane elétrica ou outro fator eventual.

Especialistas em segurança veicular destacam que incêndios em ônibus, embora não sejam ocorrências frequentes, podem estar associados a diferentes causas técnicas e, por isso, a investigação detalhada é essencial para o esclarecimento dos fatos e para eventual adoção de medidas preventivas adicionais.

A expectativa agora é que a empresa e os órgãos competentes apresentem esclarecimentos oficiais após a conclusão das análises técnicas. Enquanto isso, o episódio permanece sob acompanhamento, principalmente pelo impacto que a empresa possui na mobilidade regional.

(maria clara)

O Mundo Gira, a Memória Some: A Ironia Política que Expõe o MDB na Bahia

 

 

Há momentos na política brasileira em que a ironia não precisa de cronista. Ela se escreve sozinha. Basta que a gente tenha memória — essa senhora tantas vezes maltratada pelo noticiário ligeiro e pelas conveniências partidárias.

Quando li, em um blog de Salvador, que o ex-prefeito de Xique-Xique, Reinaldinho Braga, seria expulso do Movimento Democrático Brasileiro um dia depois de comparar a chapa governista a uma “tecnologia 4G”, confesso que senti aquele déjà-vu moral que só a política brasileira é capaz de produzir. A decisão de abrir o processo de expulsão foi anunciada, com ares de autoridade ética, por ninguém menos que Geddel Vieira Lima, presidente de honra da sigla.

Sim, o mundo dá voltas.

Em agosto de 2015, nas ruas inflamadas por cartazes contra a corrupção, lá estava Geddel, inflamado também. Seu discurso era um libelo contra “um governo incompetente”, “um país dilacerado pela crise”, “salários corroídos pela inflação”, “roubo”, “assalto aos cofres públicos”. O tom era de indignação cívica. A retórica, de pureza moral. O alvo, claro, era o governo petista.

Nada contra a crítica política — ela é o oxigênio da democracia. O que causa perplexidade é o contraste entre o discurso moral de ontem e o rigor seletivo de hoje. O que exatamente justificaria a expulsão sumária de um correligionário por uma metáfora tecnológica? Desde quando comparar uma chapa a “4G” configura heresia ideológica capaz de macular a honra partidária?

A política, infelizmente, tem essa mania de tratar divergência como traição e memória como inconveniente.

Não se trata aqui de defender Reinaldinho Braga. Nem de atacar Geddel Vieira Lima por esporte retórico. Trata-se de apontar uma incoerência estrutural que atravessa partidos, espectros ideológicos e biografias públicas: o moralismo é sempre mais severo quando dirigido ao outro.

Quando convém, invoca-se o clamor das ruas. Quando interessa, ergue-se a espada da disciplina partidária. Quando necessário, reescreve-se o passado como se o eleitor fosse desprovido de arquivos mentais — como se fôssemos todos distraídos, desatentos ou, pior, ingênuos.

Mas o eleitor não é bobo. Pode até perdoar, mas dificilmente esquece.

Há algo de simbólico nessa história. Um ex-prefeito elogiando a modernidade da chapa governista e, no dia seguinte, sendo enquadrado pelo partido que, anos antes, empunhava a bandeira da moralidade nas ruas. A “tecnologia 4G” virou motivo de processo disciplinar. A indignação de 2015 virou lembrança distante. E o Brasil, mais uma vez, assiste à coreografia conhecida: alianças flexíveis, memórias elásticas, coerências provisórias.

A política brasileira precisa urgentemente de menos teatralidade e mais honestidade intelectual. Se a divergência interna é crime, que se diga claramente. Se o partido exige alinhamento automático, que o declare sem subterfúgios. O que não dá é para vestir a toga da moralidade apenas quando ela serve ao jogo circunstancial.

O mundo gira, é verdade. Mas a memória também deveria girar — e voltar.

Porque democracia não é só o direito de ir às ruas gritar contra a corrupção. É também o dever de sustentar coerência quando os ventos mudam. É fácil acusar governos de incompetência e corrupção quando se está na arquibancada. Difícil é manter o mesmo rigor quando se ocupa o centro do palco.

Talvez o episódio de Xique-Xique seja pequeno no mapa nacional. Mas ele revela uma verdade grande: a política brasileira ainda sofre de amnésia seletiva. E enquanto a memória for tratada como detalhe, continuaremos a assistir a esses ciclos de indignação performática seguidos de disciplina conveniente.

O mundo dá voltas. Mas a história — essa, sim — cobra coerência.

O Mundo Gira, a Memória Some: A Ironia Política que Expõe o MDB na Bahia

 

 

Há momentos na política brasileira em que a ironia não precisa de cronista. Ela se escreve sozinha. Basta que a gente tenha memória — essa senhora tantas vezes maltratada pelo noticiário ligeiro e pelas conveniências partidárias.

Quando li, em um blog de Salvador, que o ex-prefeito de Xique-Xique, Reinaldinho Braga, seria expulso do Movimento Democrático Brasileiro um dia depois de comparar a chapa governista a uma “tecnologia 4G”, confesso que senti aquele déjà-vu moral que só a política brasileira é capaz de produzir. A decisão de abrir o processo de expulsão foi anunciada, com ares de autoridade ética, por ninguém menos que Geddel Vieira Lima, presidente de honra da sigla.

Sim, o mundo dá voltas.

Em agosto de 2015, nas ruas inflamadas por cartazes contra a corrupção, lá estava Geddel, inflamado também. Seu discurso era um libelo contra “um governo incompetente”, “um país dilacerado pela crise”, “salários corroídos pela inflação”, “roubo”, “assalto aos cofres públicos”. O tom era de indignação cívica. A retórica, de pureza moral. O alvo, claro, era o governo petista.

Nada contra a crítica política — ela é o oxigênio da democracia. O que causa perplexidade é o contraste entre o discurso moral de ontem e o rigor seletivo de hoje. O que exatamente justificaria a expulsão sumária de um correligionário por uma metáfora tecnológica? Desde quando comparar uma chapa a “4G” configura heresia ideológica capaz de macular a honra partidária?

A política, infelizmente, tem essa mania de tratar divergência como traição e memória como inconveniente.

Não se trata aqui de defender Reinaldinho Braga. Nem de atacar Geddel Vieira Lima por esporte retórico. Trata-se de apontar uma incoerência estrutural que atravessa partidos, espectros ideológicos e biografias públicas: o moralismo é sempre mais severo quando dirigido ao outro.

Quando convém, invoca-se o clamor das ruas. Quando interessa, ergue-se a espada da disciplina partidária. Quando necessário, reescreve-se o passado como se o eleitor fosse desprovido de arquivos mentais — como se fôssemos todos distraídos, desatentos ou, pior, ingênuos.

Mas o eleitor não é bobo. Pode até perdoar, mas dificilmente esquece.

Há algo de simbólico nessa história. Um ex-prefeito elogiando a modernidade da chapa governista e, no dia seguinte, sendo enquadrado pelo partido que, anos antes, empunhava a bandeira da moralidade nas ruas. A “tecnologia 4G” virou motivo de processo disciplinar. A indignação de 2015 virou lembrança distante. E o Brasil, mais uma vez, assiste à coreografia conhecida: alianças flexíveis, memórias elásticas, coerências provisórias.

A política brasileira precisa urgentemente de menos teatralidade e mais honestidade intelectual. Se a divergência interna é crime, que se diga claramente. Se o partido exige alinhamento automático, que o declare sem subterfúgios. O que não dá é para vestir a toga da moralidade apenas quando ela serve ao jogo circunstancial.

O mundo gira, é verdade. Mas a memória também deveria girar — e voltar.

Porque democracia não é só o direito de ir às ruas gritar contra a corrupção. É também o dever de sustentar coerência quando os ventos mudam. É fácil acusar governos de incompetência e corrupção quando se está na arquibancada. Difícil é manter o mesmo rigor quando se ocupa o centro do palco.

Talvez o episódio de Xique-Xique seja pequeno no mapa nacional. Mas ele revela uma verdade grande: a política brasileira ainda sofre de amnésia seletiva. E enquanto a memória for tratada como detalhe, continuaremos a assistir a esses ciclos de indignação performática seguidos de disciplina conveniente.

O mundo dá voltas. Mas a história — essa, sim — cobra coerência.

Palácio das Rachadinhas? A Alerj Tem Peso Moral para Escolher o Próximo Governador?

 

O Cláudio Castro anunciou que deixará o cargo em abril para disputar o Senado. A decisão, legítima no calendário eleitoral, arrasta o Rio de Janeiro para um cenário incomum: eleição indireta para governador, conduzida exclusivamente pelos deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

É constitucional? Sim.
É politicamente delicado? Muito.
É moralmente confortável? Eis a questão.

Porque, no imaginário popular, a Alerj não é apenas o parlamento estadual. Para muitos, ela se tornou símbolo de escândalos, investigações e suspeitas que atravessaram diferentes legislaturas. Daí a pergunta incômoda que ecoa nas ruas: o “palácio das rachadinhas” tem autoridade moral para escolher o governador que comandará o estado até dezembro?

A expressão é dura. Mas nasce da própria história recente do Rio.

Legalidade não basta

A Constituição prevê que, havendo dupla vacância nos dois últimos anos de mandato, a eleição seja indireta. O procedimento é legal. O voto é dos deputados.

Mas a legitimidade política não se constrói apenas com base na letra fria da lei. Ela depende de confiança pública.

E confiança é justamente o ativo mais escasso na política fluminense.

A Alerj tem autonomia para definir as regras do pleito, desde que não contrarie a Constituição. Contudo, quando o mesmo parlamento que legisla também estabelece as regras da própria disputa, a sociedade observa com desconfiança. Não se trata de ilegalidade — trata-se de percepção.

E, na política, percepção muitas vezes pesa tanto quanto o fato.

O entrave jurídico e o STF

O problema da desincompatibilização adiciona mais tensão ao cenário. A Constituição exige que candidatos deixem cargos públicos seis meses antes da eleição. Nomes ventilados nos bastidores não cumpriram esse prazo.

A controvérsia deve desembocar no Supremo Tribunal Federal, que já enfrentou situação semelhante em 2022, no caso de Alagoas, exigindo o cumprimento do prazo.

Se o entendimento for mantido, o Rio terá que buscar candidatos fora da máquina pública atual. Isso embaralha acordos e redesenha alianças.

Mais uma vez, o Judiciário como árbitro final de um jogo que deveria ser predominantemente político.

O peso da biografia institucional

O Rio de Janeiro carrega uma biografia que o persegue. Governadores presos. Ex-governadores condenados. Operações que atravessaram gabinetes e romperam a blindagem do poder.

Nesse contexto, a eleição indireta ganha contornos ainda mais sensíveis.

Não é apenas escolher um nome para um mandato-tampão. É decidir quem ocupará o Palácio Guanabara em um estado marcado pela instabilidade crônica.

E a pergunta volta, insistente: um parlamento que também enfrentou investigações e crises de imagem possui autoridade moral suficiente para realizar essa escolha sem que paire a suspeita de autopreservação?

E Cláudio Castro?

Castro aposta na disputa ao Senado. O movimento é calculado. Mas, no Rio, a política raramente segue roteiro linear.

Há investigações, há desgaste, há um ambiente onde qualquer denúncia ganha proporções ampliadas pelo histórico do estado. Isso não significa culpa antecipada. O Estado de Direito exige prova, contraditório e devido processo legal.

Mas significa que o risco político é real.

Conseguirá eleger-se senador? Ou o ambiente jurídico e a atmosfera de suspeita pesarão antes?

O risco maior: normalizar o excepcional

O problema não é apenas quem assumirá até dezembro.

O problema é o hábito da exceção.

Quando eleições indiretas deixam de ser raridade e passam a integrar o repertório frequente da política estadual, algo estrutural está falhando. Quando o Legislativo, fragilizado em sua imagem pública, assume a tarefa de escolher o chefe do Executivo, a tensão institucional se intensifica.

O Rio precisa mais do que uma solução regimental. Precisa reconstruir sua autoridade moral.

Porque governar já é difícil.
Governar sob suspeita é paralisante.
E ser escolhido por um parlamento que também carrega suspeitas torna o início de qualquer mandato uma travessia sob desconfiança.

No fim, a pergunta não é apenas se o procedimento é legal.

A pergunta é se ele será legítimo aos olhos do cidadão comum.

E, no Rio de Janeiro, legitimidade não é detalhe — é sobrevivência institucional.

Palácio das Rachadinhas? A Alerj Tem Peso Moral para Escolher o Próximo Governador?

 

O Cláudio Castro anunciou que deixará o cargo em abril para disputar o Senado. A decisão, legítima no calendário eleitoral, arrasta o Rio de Janeiro para um cenário incomum: eleição indireta para governador, conduzida exclusivamente pelos deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.

É constitucional? Sim.
É politicamente delicado? Muito.
É moralmente confortável? Eis a questão.

Porque, no imaginário popular, a Alerj não é apenas o parlamento estadual. Para muitos, ela se tornou símbolo de escândalos, investigações e suspeitas que atravessaram diferentes legislaturas. Daí a pergunta incômoda que ecoa nas ruas: o “palácio das rachadinhas” tem autoridade moral para escolher o governador que comandará o estado até dezembro?

A expressão é dura. Mas nasce da própria história recente do Rio.

Legalidade não basta

A Constituição prevê que, havendo dupla vacância nos dois últimos anos de mandato, a eleição seja indireta. O procedimento é legal. O voto é dos deputados.

Mas a legitimidade política não se constrói apenas com base na letra fria da lei. Ela depende de confiança pública.

E confiança é justamente o ativo mais escasso na política fluminense.

A Alerj tem autonomia para definir as regras do pleito, desde que não contrarie a Constituição. Contudo, quando o mesmo parlamento que legisla também estabelece as regras da própria disputa, a sociedade observa com desconfiança. Não se trata de ilegalidade — trata-se de percepção.

E, na política, percepção muitas vezes pesa tanto quanto o fato.

O entrave jurídico e o STF

O problema da desincompatibilização adiciona mais tensão ao cenário. A Constituição exige que candidatos deixem cargos públicos seis meses antes da eleição. Nomes ventilados nos bastidores não cumpriram esse prazo.

A controvérsia deve desembocar no Supremo Tribunal Federal, que já enfrentou situação semelhante em 2022, no caso de Alagoas, exigindo o cumprimento do prazo.

Se o entendimento for mantido, o Rio terá que buscar candidatos fora da máquina pública atual. Isso embaralha acordos e redesenha alianças.

Mais uma vez, o Judiciário como árbitro final de um jogo que deveria ser predominantemente político.

O peso da biografia institucional

O Rio de Janeiro carrega uma biografia que o persegue. Governadores presos. Ex-governadores condenados. Operações que atravessaram gabinetes e romperam a blindagem do poder.

Nesse contexto, a eleição indireta ganha contornos ainda mais sensíveis.

Não é apenas escolher um nome para um mandato-tampão. É decidir quem ocupará o Palácio Guanabara em um estado marcado pela instabilidade crônica.

E a pergunta volta, insistente: um parlamento que também enfrentou investigações e crises de imagem possui autoridade moral suficiente para realizar essa escolha sem que paire a suspeita de autopreservação?

E Cláudio Castro?

Castro aposta na disputa ao Senado. O movimento é calculado. Mas, no Rio, a política raramente segue roteiro linear.

Há investigações, há desgaste, há um ambiente onde qualquer denúncia ganha proporções ampliadas pelo histórico do estado. Isso não significa culpa antecipada. O Estado de Direito exige prova, contraditório e devido processo legal.

Mas significa que o risco político é real.

Conseguirá eleger-se senador? Ou o ambiente jurídico e a atmosfera de suspeita pesarão antes?

O risco maior: normalizar o excepcional

O problema não é apenas quem assumirá até dezembro.

O problema é o hábito da exceção.

Quando eleições indiretas deixam de ser raridade e passam a integrar o repertório frequente da política estadual, algo estrutural está falhando. Quando o Legislativo, fragilizado em sua imagem pública, assume a tarefa de escolher o chefe do Executivo, a tensão institucional se intensifica.

O Rio precisa mais do que uma solução regimental. Precisa reconstruir sua autoridade moral.

Porque governar já é difícil.
Governar sob suspeita é paralisante.
E ser escolhido por um parlamento que também carrega suspeitas torna o início de qualquer mandato uma travessia sob desconfiança.

No fim, a pergunta não é apenas se o procedimento é legal.

A pergunta é se ele será legítimo aos olhos do cidadão comum.

E, no Rio de Janeiro, legitimidade não é detalhe — é sobrevivência institucional.

Há silêncios que machucam. E há silêncios que paralisam estradas.

 

O Sudoeste baiano conhece esse tipo de silêncio. Ele não faz barulho, mas pesa. Não aparece nas manchetes diárias, mas se acumula nos ombros de quem acorda cedo, de quem depende do comércio, de quem atravessa a BR-116 com a esperança de voltar para casa em segurança. É um silêncio que se mistura à poeira do acostamento, ao asfalto irregular, ao medo que acompanha cada ultrapassagem arriscada.

Durante anos, a sociedade civil organizada fez o que se espera de uma democracia madura: dialogou. Protocolou ofícios. Participou de audiências. Respeitou os trâmites institucionais. Bateu às portas certas. Nunca foi uma luta movida por gritos vazios, mas por argumentos técnicos, dados econômicos, estatísticas de acidentes, relatórios de impacto regional. Foi uma luta legítima, persistente, republicana.

É justo reconhecer avanços. A saída da VIABAHIA representou um marco. Era uma reivindicação antiga, sustentada por evidências de que o modelo de concessão não atendia às necessidades da região. A conclusão do projeto de duplicação também foi um passo importante. Planejamento é condição essencial para execução responsável. Não se pode ignorar essas conquistas. Elas são frutos de mobilização social séria e de decisões institucionais relevantes.

Mas é precisamente porque houve avanços que a expectativa se consolidou.

Foi anunciado que o edital de concessão seria publicado em setembro de 2025. Havia calendário. Havia sinalização pública. Havia previsibilidade. Em política pública, previsibilidade é sinônimo de confiança. E confiança é um capital que não se pode desperdiçar.

De repente, a programação desaparece.

Sem explicação clara. Sem nota técnica detalhada. Sem justificativa transparente.

E então surge a pergunta que ecoa em cada posto de gasolina, em cada feira livre, em cada gabinete empresarial do Sudoeste: por que o silêncio?

Se houve mudança técnica, que se explique.
Se houve revisão orçamentária, que se detalhe.
Se houve reavaliação estratégica, que se publique.

O que não se pode naturalizar é a ausência de resposta.

A neurociência nos ensina que a confiança nasce da coerência entre promessa e ação. Quando a expectativa é criada e depois frustrada sem explicação, instala-se a sensação de abandono. Não é apenas uma questão administrativa; é emocional. O cérebro humano reage à quebra de previsibilidade como reage à insegurança. E insegurança, quando persistente, se transforma em cansaço coletivo.

E estamos cansados.

Cansados de ver caminhões formando longas filas em trechos críticos.
Cansados de ouvir relatos de acidentes evitáveis.
Cansados de explicar para investidores por que a logística regional continua limitada.
Cansados de esperar.

A BR-116 não é apenas um traçado no mapa. Ela é a espinha dorsal econômica do Sudoeste baiano. Por ela escoam produtos agrícolas, circulam insumos industriais, transitam estudantes, profissionais de saúde, famílias inteiras. Cada buraco no asfalto é mais do que um defeito estrutural: é um símbolo de atraso. Cada trecho não duplicado é um gargalo que freia o desenvolvimento.

Imagine o pequeno comerciante que depende da regularidade no abastecimento. Imagine o caminhoneiro que percorre quilômetros sob tensão constante. Imagine a mãe que aguarda o filho chegar de viagem à noite, sabendo que a estrada exige atenção redobrada. Não se trata de abstração. Trata-se de vidas reais.

A economia regional sente o impacto. O custo do frete aumenta. O tempo de deslocamento se alonga. A competitividade diminui. Investidores observam, calculam riscos e, muitas vezes, recuam. O efeito dominó é silencioso, mas profundo. Quando a infraestrutura emperra, a prosperidade desacelera.

E ainda assim, o que recebemos é silêncio.

Não pedimos privilégio.
Pedimos respeito.

Não pedimos atalhos institucionais.
Pedimos transparência.

Não pedimos favorecimento regional.
Pedimos cumprimento de cronograma ou explicação pública consistente.

O Ministério dos Transportes tem responsabilidade técnica e política sobre o tema. Reconhecemos a complexidade das decisões, os limites orçamentários, os desafios regulatórios. Sabemos que grandes obras exigem cautela e planejamento rigoroso. Mas planejamento não é incompatível com comunicação clara. Pelo contrário: quanto maior o projeto, maior deve ser a transparência.

O que está em jogo não é apenas a duplicação de um trecho rodoviário. É a credibilidade do compromisso assumido com uma região inteira. Quando uma previsão oficial é retirada sem esclarecimento, instala-se a dúvida. E dúvida prolongada corrói a confiança institucional.

Perguntamos com serenidade, mas com firmeza: houve mudança de prioridade? Houve entrave jurídico? Houve revisão técnica que inviabilizou o cronograma original? Se houve, a sociedade merece saber. A democracia se fortalece quando a informação circula com clareza.

O Sudoeste baiano não é periférico. É produtivo, resiliente, estratégico. Contribui para o PIB estadual, gera empregos, movimenta cadeias logísticas. A BR-116 é sua artéria vital. Uma artéria congestionada compromete todo o organismo econômico.

O tempo não é neutro. Cada mês de indefinição amplia custos invisíveis. Cada adiamento não explicado gera desconfiança adicional. E a desconfiança, quando acumulada, se transforma em descrédito.

Não se trata de antagonizar instituições. Trata-se de fortalecê-las pela cobrança legítima. A pressão pública ética é parte do funcionamento saudável da República. Quando cidadãos organizados cobram explicações, não estão atacando o Estado; estão exercendo cidadania.

Há uma diferença entre oposição e responsabilidade social. A DUPLICA SUDOESTE nasceu da responsabilidade social. Sempre atuou com dados, estudos, diálogo. Nunca foi palco de radicalismo, mas espaço de convergência regional. É essa postura que sustenta a autoridade moral do pleito.

Mas autoridade moral não elimina a dor da espera.

A estrada continua lá, diariamente percorrida. O asfalto continua exigindo manutenção constante. O fluxo continua intenso. As demandas não diminuem porque o calendário foi retirado do site. A realidade concreta não se altera pela ausência de publicação oficial.

Quando o Estado comunica um prazo, ele cria uma linha no tempo da esperança coletiva. Ao retirar essa linha sem explicação, cria um vazio. E vazios institucionais raramente ficam neutros; são preenchidos por inquietação.

O que pedimos é simples na forma, profundo no conteúdo: clareza.

Se o edital sairá em nova data, que se anuncie.
Se há revisão em curso, que se compartilhe o estágio.
Se há obstáculos, que se apresentem.

Transparência não enfraquece a gestão. Fortalece-a.

Não pedimos privilégio.
Pedimos respeito.

Não pedimos favor.
Pedimos previsibilidade.

Não pedimos promessas adicionais.
Pedimos que as já feitas sejam honradas ou justificadamente revistas.

O Sudoeste baiano não deseja confronto; deseja solução. Não busca manchete; busca cronograma. Não reivindica tratamento especial; reivindica tratamento responsável.

Porque estrada não é retórica. É concreto. É asfalto. É vida que circula.

E quando a vida encontra barreiras constantes, o cansaço deixa de ser individual e se torna coletivo. É esse cansaço que hoje ecoa nas conversas cotidianas, nas associações comerciais, nos sindicatos, nas rodas de família. Um cansaço que não é de quem desistiu, mas de quem já esperou demais.

A urgência é institucional. Não é emocional apenas. Cada dia de indefinição impacta decisões econômicas, planejamento logístico, expectativas de investimento. Infraestrutura é base de desenvolvimento. Sem base sólida, o edifício social treme.

O Ministério dos Transportes tem diante de si uma oportunidade: transformar o silêncio em palavra clara. Converter inquietação em confiança renovada. Demonstrar que o compromisso com a BR-116 e com o Sudoeste baiano permanece vivo, consistente, executável.

A sociedade está pronta para ouvir. Está pronta para compreender ajustes técnicos. O que não pode é continuar sem resposta.

Porque quando o Estado silencia, a estrada fala.

E ela fala em cada freada brusca, em cada desvio improvisado, em cada olhar apreensivo de quem atravessa seus quilômetros.

O silêncio pode até ser administrativo. Mas seus efeitos são humanos.

E humanos não podem esperar indefinidamente.

Porque quando o Estado silencia, quem grita é a estrada.

JOSE MARIA CAIRES
DUPLICA SUDOESTE

Há silêncios que machucam. E há silêncios que paralisam estradas.

 

O Sudoeste baiano conhece esse tipo de silêncio. Ele não faz barulho, mas pesa. Não aparece nas manchetes diárias, mas se acumula nos ombros de quem acorda cedo, de quem depende do comércio, de quem atravessa a BR-116 com a esperança de voltar para casa em segurança. É um silêncio que se mistura à poeira do acostamento, ao asfalto irregular, ao medo que acompanha cada ultrapassagem arriscada.

Durante anos, a sociedade civil organizada fez o que se espera de uma democracia madura: dialogou. Protocolou ofícios. Participou de audiências. Respeitou os trâmites institucionais. Bateu às portas certas. Nunca foi uma luta movida por gritos vazios, mas por argumentos técnicos, dados econômicos, estatísticas de acidentes, relatórios de impacto regional. Foi uma luta legítima, persistente, republicana.

É justo reconhecer avanços. A saída da VIABAHIA representou um marco. Era uma reivindicação antiga, sustentada por evidências de que o modelo de concessão não atendia às necessidades da região. A conclusão do projeto de duplicação também foi um passo importante. Planejamento é condição essencial para execução responsável. Não se pode ignorar essas conquistas. Elas são frutos de mobilização social séria e de decisões institucionais relevantes.

Mas é precisamente porque houve avanços que a expectativa se consolidou.

Foi anunciado que o edital de concessão seria publicado em setembro de 2025. Havia calendário. Havia sinalização pública. Havia previsibilidade. Em política pública, previsibilidade é sinônimo de confiança. E confiança é um capital que não se pode desperdiçar.

De repente, a programação desaparece.

Sem explicação clara. Sem nota técnica detalhada. Sem justificativa transparente.

E então surge a pergunta que ecoa em cada posto de gasolina, em cada feira livre, em cada gabinete empresarial do Sudoeste: por que o silêncio?

Se houve mudança técnica, que se explique.
Se houve revisão orçamentária, que se detalhe.
Se houve reavaliação estratégica, que se publique.

O que não se pode naturalizar é a ausência de resposta.

A neurociência nos ensina que a confiança nasce da coerência entre promessa e ação. Quando a expectativa é criada e depois frustrada sem explicação, instala-se a sensação de abandono. Não é apenas uma questão administrativa; é emocional. O cérebro humano reage à quebra de previsibilidade como reage à insegurança. E insegurança, quando persistente, se transforma em cansaço coletivo.

E estamos cansados.

Cansados de ver caminhões formando longas filas em trechos críticos.
Cansados de ouvir relatos de acidentes evitáveis.
Cansados de explicar para investidores por que a logística regional continua limitada.
Cansados de esperar.

A BR-116 não é apenas um traçado no mapa. Ela é a espinha dorsal econômica do Sudoeste baiano. Por ela escoam produtos agrícolas, circulam insumos industriais, transitam estudantes, profissionais de saúde, famílias inteiras. Cada buraco no asfalto é mais do que um defeito estrutural: é um símbolo de atraso. Cada trecho não duplicado é um gargalo que freia o desenvolvimento.

Imagine o pequeno comerciante que depende da regularidade no abastecimento. Imagine o caminhoneiro que percorre quilômetros sob tensão constante. Imagine a mãe que aguarda o filho chegar de viagem à noite, sabendo que a estrada exige atenção redobrada. Não se trata de abstração. Trata-se de vidas reais.

A economia regional sente o impacto. O custo do frete aumenta. O tempo de deslocamento se alonga. A competitividade diminui. Investidores observam, calculam riscos e, muitas vezes, recuam. O efeito dominó é silencioso, mas profundo. Quando a infraestrutura emperra, a prosperidade desacelera.

E ainda assim, o que recebemos é silêncio.

Não pedimos privilégio.
Pedimos respeito.

Não pedimos atalhos institucionais.
Pedimos transparência.

Não pedimos favorecimento regional.
Pedimos cumprimento de cronograma ou explicação pública consistente.

O Ministério dos Transportes tem responsabilidade técnica e política sobre o tema. Reconhecemos a complexidade das decisões, os limites orçamentários, os desafios regulatórios. Sabemos que grandes obras exigem cautela e planejamento rigoroso. Mas planejamento não é incompatível com comunicação clara. Pelo contrário: quanto maior o projeto, maior deve ser a transparência.

O que está em jogo não é apenas a duplicação de um trecho rodoviário. É a credibilidade do compromisso assumido com uma região inteira. Quando uma previsão oficial é retirada sem esclarecimento, instala-se a dúvida. E dúvida prolongada corrói a confiança institucional.

Perguntamos com serenidade, mas com firmeza: houve mudança de prioridade? Houve entrave jurídico? Houve revisão técnica que inviabilizou o cronograma original? Se houve, a sociedade merece saber. A democracia se fortalece quando a informação circula com clareza.

O Sudoeste baiano não é periférico. É produtivo, resiliente, estratégico. Contribui para o PIB estadual, gera empregos, movimenta cadeias logísticas. A BR-116 é sua artéria vital. Uma artéria congestionada compromete todo o organismo econômico.

O tempo não é neutro. Cada mês de indefinição amplia custos invisíveis. Cada adiamento não explicado gera desconfiança adicional. E a desconfiança, quando acumulada, se transforma em descrédito.

Não se trata de antagonizar instituições. Trata-se de fortalecê-las pela cobrança legítima. A pressão pública ética é parte do funcionamento saudável da República. Quando cidadãos organizados cobram explicações, não estão atacando o Estado; estão exercendo cidadania.

Há uma diferença entre oposição e responsabilidade social. A DUPLICA SUDOESTE nasceu da responsabilidade social. Sempre atuou com dados, estudos, diálogo. Nunca foi palco de radicalismo, mas espaço de convergência regional. É essa postura que sustenta a autoridade moral do pleito.

Mas autoridade moral não elimina a dor da espera.

A estrada continua lá, diariamente percorrida. O asfalto continua exigindo manutenção constante. O fluxo continua intenso. As demandas não diminuem porque o calendário foi retirado do site. A realidade concreta não se altera pela ausência de publicação oficial.

Quando o Estado comunica um prazo, ele cria uma linha no tempo da esperança coletiva. Ao retirar essa linha sem explicação, cria um vazio. E vazios institucionais raramente ficam neutros; são preenchidos por inquietação.

O que pedimos é simples na forma, profundo no conteúdo: clareza.

Se o edital sairá em nova data, que se anuncie.
Se há revisão em curso, que se compartilhe o estágio.
Se há obstáculos, que se apresentem.

Transparência não enfraquece a gestão. Fortalece-a.

Não pedimos privilégio.
Pedimos respeito.

Não pedimos favor.
Pedimos previsibilidade.

Não pedimos promessas adicionais.
Pedimos que as já feitas sejam honradas ou justificadamente revistas.

O Sudoeste baiano não deseja confronto; deseja solução. Não busca manchete; busca cronograma. Não reivindica tratamento especial; reivindica tratamento responsável.

Porque estrada não é retórica. É concreto. É asfalto. É vida que circula.

E quando a vida encontra barreiras constantes, o cansaço deixa de ser individual e se torna coletivo. É esse cansaço que hoje ecoa nas conversas cotidianas, nas associações comerciais, nos sindicatos, nas rodas de família. Um cansaço que não é de quem desistiu, mas de quem já esperou demais.

A urgência é institucional. Não é emocional apenas. Cada dia de indefinição impacta decisões econômicas, planejamento logístico, expectativas de investimento. Infraestrutura é base de desenvolvimento. Sem base sólida, o edifício social treme.

O Ministério dos Transportes tem diante de si uma oportunidade: transformar o silêncio em palavra clara. Converter inquietação em confiança renovada. Demonstrar que o compromisso com a BR-116 e com o Sudoeste baiano permanece vivo, consistente, executável.

A sociedade está pronta para ouvir. Está pronta para compreender ajustes técnicos. O que não pode é continuar sem resposta.

Porque quando o Estado silencia, a estrada fala.

E ela fala em cada freada brusca, em cada desvio improvisado, em cada olhar apreensivo de quem atravessa seus quilômetros.

O silêncio pode até ser administrativo. Mas seus efeitos são humanos.

E humanos não podem esperar indefinidamente.

Porque quando o Estado silencia, quem grita é a estrada.

JOSE MARIA CAIRES
DUPLICA SUDOESTE

Fabrício Falcão: A Cidade que Escolheu Seu Filho

 

 

 

Por Padre Carlos

Há homens que nascem em uma cidade.
E há homens que escolhem uma cidade — e são escolhidos por ela.

A trajetória de Fabrício Falcão é uma dessas histórias em que destino e decisão se entrelaçam como rios que se encontram no mesmo leito. Ele não nasceu em Vitória da Conquista. Chegou aqui aos 14 anos, trazendo na mala pouco mais que sonhos e inquietações. Mas, se Deus lhe perguntasse — como numa dessas parábolas silenciosas que a vida nos faz — “Fabrício, se pudesse nascer de novo, o que mudaria?”, a resposta seria simples, quase infantil na sua pureza:
— “Teria nascido em Vitória da Conquista.”

Há amores que não são biológicos. São construídos. E este é um deles.

A cidade como escola moral

A história política do Sudoeste da Bahia não pode ser contada sem mencionar a força do movimento estudantil que floresceu entre corredores de escolas públicas, auditórios universitários e praças onde a juventude ousou discutir democracia, participação política e transformação social.

Foi nesse ambiente que Fabrício amadureceu.

Não como produto do acaso, mas como fruto de um tempo.
Um tempo em que jovens não queriam apenas conquistar mandatos. Queriam mudar estruturas partidárias. Queriam abrir janelas em prédios antigos onde o ar da política já estava rarefeito.

E isso tem preço.

O sistema — sabemos — trabalha para os quadros escolhidos. Para os sobrenomes tradicionais. Para os que aprendem cedo o jogo da acomodação. Romper esse ciclo exige algo que não se aprende em cartilha: coragem.

O início foi duro. Burocracia. Portas fechadas. Desconfiança. O medo rondando como sombra no fim da tarde.

Mas aqueles meninos — e eu os vi — não queriam apenas um diploma eleitoral. Queriam significado.

A honraria que molda um homem

Ser vereador em Vitória da Conquista talvez tenha sido, entre tantas honrarias que a vida lhe concedeu, uma das maiores. Não pelo cargo em si, mas pela pedagogia silenciosa que ele impõe.

É na vereança que o político aprende a ouvir a dor crua.
É ali que ele sente o peso real de uma rua sem calçamento, de uma mãe sem atendimento médico, de um estudante sem transporte.

Sem essa escola — a escola do chão — ele jamais seria o deputado que se tornou.

A política, quando é verdadeira, é uma pedagogia da escuta.

E Fabrício aprendeu.

A geração que ousou

Há algo maior nessa história: ela não é apenas individual. Ela é coletiva.

A saga de Fabrício se entrelaça com a saga de uma geração do movimento estudantil do Sudoeste da Bahia. Jovens que enfrentaram estruturas partidárias rígidas, que desafiaram lideranças estabelecidas, que ousaram disputar espaço onde tudo parecia previamente distribuído.

Eles não queriam apenas ocupar cadeiras.
Queriam mexer nas engrenagens.

E o sistema reage quando suas engrenagens são tocadas.

Lembro-me hoje de um empresário — amigo daquele menino que vimos crescer. Comovido com a determinação daquela juventude, presenteou a campanha com algumas camisas. Pode parecer pouco. Não era.

Era um gesto simbólico.
Era a cidade dizendo: “Eu acredito em vocês.”

Política também se faz de símbolos.

Framing da história: mérito, pertencimento e transformação

Quando analisamos essa trajetória sob a lente da política baiana contemporânea, vemos três elementos fundamentais:

1. Pertencimento construído – Vitória da Conquista não é apenas um endereço. É identidade.
2. Mobilidade política pelo mérito – Romper estruturas exige trabalho persistente.
3. Movimento estudantil como incubadora de lideranças – Muitas das vozes que hoje ecoam nos parlamentos nasceram nas assembleias estudantis.

Essa narrativa não é mero elogio. É contextualização histórica. O Sudoeste da Bahia produziu uma geração que compreendeu que democracia se constrói de baixo para cima.

Nem tudo são flores

Seria desonesto romantizar.

Houve frustrações. Conflitos internos. Resistências partidárias. O peso do “não é sua vez”. A sensação de que o sistema político brasileiro muitas vezes protege mais a estabilidade do poder do que a renovação de ideias.

Mas houve persistência.

E persistência, na política, é uma forma de fé.

Quando a cidade vira destino

Hoje, olhando para trás, vejo que aqueles jovens fizeram história. Não apenas pelas vitórias eleitorais, mas porque alteraram o mapa mental da política regional.

Mostraram que não é preciso nascer em um lugar para pertencer a ele.
Pertencer é escolher servir.

Fabrício Falcão não nasceu em Vitória da Conquista.
Mas foi aqui que aprendeu a dialogar, a ouvir, a respeitar diferenças. Foi aqui que compreendeu que liderança não é volume de voz — é capacidade de escuta.

E talvez seja essa a grande lição para as novas gerações:
a política não começa no poder. Começa no compromisso.

Conclusão: o que fica

A trajetória de Fabrício é, no fundo, a história de uma cidade que adotou um filho — e foi honrada por ele.

É a prova de que o movimento estudantil pode ser semente de transformação real.
É o testemunho de que romper estruturas partidárias é difícil, mas possível.
É a confirmação de que Vitória da Conquista continua sendo um celeiro de lideranças quando há coragem e vocação pública.

E se Deus, em algum momento, realmente lhe fizesse aquela pergunta…

Talvez a resposta continuasse a mesma.

Mas, no silêncio que se seguiria, haveria um detalhe novo:
ele não precisaria nascer aqui.

Porque, no que realmente importa, ele já nasceu.

Fabrício Falcão: A Cidade que Escolheu Seu Filho

 

 

 

Por Padre Carlos

Há homens que nascem em uma cidade.
E há homens que escolhem uma cidade — e são escolhidos por ela.

A trajetória de Fabrício Falcão é uma dessas histórias em que destino e decisão se entrelaçam como rios que se encontram no mesmo leito. Ele não nasceu em Vitória da Conquista. Chegou aqui aos 14 anos, trazendo na mala pouco mais que sonhos e inquietações. Mas, se Deus lhe perguntasse — como numa dessas parábolas silenciosas que a vida nos faz — “Fabrício, se pudesse nascer de novo, o que mudaria?”, a resposta seria simples, quase infantil na sua pureza:
— “Teria nascido em Vitória da Conquista.”

Há amores que não são biológicos. São construídos. E este é um deles.

A cidade como escola moral

A história política do Sudoeste da Bahia não pode ser contada sem mencionar a força do movimento estudantil que floresceu entre corredores de escolas públicas, auditórios universitários e praças onde a juventude ousou discutir democracia, participação política e transformação social.

Foi nesse ambiente que Fabrício amadureceu.

Não como produto do acaso, mas como fruto de um tempo.
Um tempo em que jovens não queriam apenas conquistar mandatos. Queriam mudar estruturas partidárias. Queriam abrir janelas em prédios antigos onde o ar da política já estava rarefeito.

E isso tem preço.

O sistema — sabemos — trabalha para os quadros escolhidos. Para os sobrenomes tradicionais. Para os que aprendem cedo o jogo da acomodação. Romper esse ciclo exige algo que não se aprende em cartilha: coragem.

O início foi duro. Burocracia. Portas fechadas. Desconfiança. O medo rondando como sombra no fim da tarde.

Mas aqueles meninos — e eu os vi — não queriam apenas um diploma eleitoral. Queriam significado.

A honraria que molda um homem

Ser vereador em Vitória da Conquista talvez tenha sido, entre tantas honrarias que a vida lhe concedeu, uma das maiores. Não pelo cargo em si, mas pela pedagogia silenciosa que ele impõe.

É na vereança que o político aprende a ouvir a dor crua.
É ali que ele sente o peso real de uma rua sem calçamento, de uma mãe sem atendimento médico, de um estudante sem transporte.

Sem essa escola — a escola do chão — ele jamais seria o deputado que se tornou.

A política, quando é verdadeira, é uma pedagogia da escuta.

E Fabrício aprendeu.

A geração que ousou

Há algo maior nessa história: ela não é apenas individual. Ela é coletiva.

A saga de Fabrício se entrelaça com a saga de uma geração do movimento estudantil do Sudoeste da Bahia. Jovens que enfrentaram estruturas partidárias rígidas, que desafiaram lideranças estabelecidas, que ousaram disputar espaço onde tudo parecia previamente distribuído.

Eles não queriam apenas ocupar cadeiras.
Queriam mexer nas engrenagens.

E o sistema reage quando suas engrenagens são tocadas.

Lembro-me hoje de um empresário — amigo daquele menino que vimos crescer. Comovido com a determinação daquela juventude, presenteou a campanha com algumas camisas. Pode parecer pouco. Não era.

Era um gesto simbólico.
Era a cidade dizendo: “Eu acredito em vocês.”

Política também se faz de símbolos.

Framing da história: mérito, pertencimento e transformação

Quando analisamos essa trajetória sob a lente da política baiana contemporânea, vemos três elementos fundamentais:

1. Pertencimento construído – Vitória da Conquista não é apenas um endereço. É identidade.
2. Mobilidade política pelo mérito – Romper estruturas exige trabalho persistente.
3. Movimento estudantil como incubadora de lideranças – Muitas das vozes que hoje ecoam nos parlamentos nasceram nas assembleias estudantis.

Essa narrativa não é mero elogio. É contextualização histórica. O Sudoeste da Bahia produziu uma geração que compreendeu que democracia se constrói de baixo para cima.

Nem tudo são flores

Seria desonesto romantizar.

Houve frustrações. Conflitos internos. Resistências partidárias. O peso do “não é sua vez”. A sensação de que o sistema político brasileiro muitas vezes protege mais a estabilidade do poder do que a renovação de ideias.

Mas houve persistência.

E persistência, na política, é uma forma de fé.

Quando a cidade vira destino

Hoje, olhando para trás, vejo que aqueles jovens fizeram história. Não apenas pelas vitórias eleitorais, mas porque alteraram o mapa mental da política regional.

Mostraram que não é preciso nascer em um lugar para pertencer a ele.
Pertencer é escolher servir.

Fabrício Falcão não nasceu em Vitória da Conquista.
Mas foi aqui que aprendeu a dialogar, a ouvir, a respeitar diferenças. Foi aqui que compreendeu que liderança não é volume de voz — é capacidade de escuta.

E talvez seja essa a grande lição para as novas gerações:
a política não começa no poder. Começa no compromisso.

Conclusão: o que fica

A trajetória de Fabrício é, no fundo, a história de uma cidade que adotou um filho — e foi honrada por ele.

É a prova de que o movimento estudantil pode ser semente de transformação real.
É o testemunho de que romper estruturas partidárias é difícil, mas possível.
É a confirmação de que Vitória da Conquista continua sendo um celeiro de lideranças quando há coragem e vocação pública.

E se Deus, em algum momento, realmente lhe fizesse aquela pergunta…

Talvez a resposta continuasse a mesma.

Mas, no silêncio que se seguiria, haveria um detalhe novo:
ele não precisaria nascer aqui.

Porque, no que realmente importa, ele já nasceu.

A Guerra Que Começa no Céu de Teerã

 

 

Quando as primeiras explosões rasgam o céu de Teerã, não é apenas o Irã que treme. É o mundo.

O ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã — confirmado pelo presidente Donald Trump e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — desmonta a narrativa confortável de que se tratava apenas de “pressão diplomática”. Quando mísseis substituem negociações, a diplomacia vira teatro.

E a pergunta que se impõe é objetiva: quem apertou o gatilho?

A cronologia da agressão

Havia negociações marcadas. Havia mediadores. Havia avanço, ainda que tímido. Segundo a própria Agência Internacional de Energia Atômica, o Irã mantinha urânio enriquecido a 60% — patamar perigoso, mas ainda distante do grau militar pleno. Havia espaço para pressão internacional, sanções, inspeções.

Mas Washington decidiu agir.

O argumento apresentado foi “ataque preventivo”. Essa expressão, repetida desde a invasão do Iraque em 2003, tornou-se uma espécie de senha moral para justificar ofensivas unilaterais. O problema é que o conceito de “prevenção” pode facilmente se transformar em licença para iniciar guerras.

Quando um país bombardeia o território de outro durante negociações em curso, a linha que separa defesa de agressão torna-se perigosamente tênue.

O silêncio seletivo

Durante meses, o mundo assistiu aos horrores em Gaza. A devastação, as mortes civis, a destruição de infraestrutura básica. Parte significativa da imprensa ocidental tratou aquilo como “resposta legítima”.

Agora, diante do bombardeio ao Irã, repete-se a moldura narrativa: “ameaça existencial”, “regime terrorista”, “autodefesa”.

A pergunta incômoda é inevitável: haverá o mesmo rigor crítico se o conflito escalar?

Se mísseis cruzarem fronteiras em direção a Tel Aviv?
Se bases americanas forem atingidas?
Se o estreito de Hormuz entrar em colapso e o petróleo disparar?

A coerência jornalística será testada quando o fogo atingir aliados do Ocidente.

O risco calculado — ou a imprudência histórica?

A história recente mostra que a remoção violenta de regimes no Oriente Médio raramente produz estabilidade. O Iraque mergulhou no caos. A Líbia fragmentou-se. A Síria tornou-se um tabuleiro de potências.

Se o líder supremo Ali Khamenei tiver sido neutralizado ou desestabilizado, o que virá depois?

Uma junta militar?
Uma guerra civil?
Ou uma radicalização ainda maior da Guarda Revolucionária?

Não se constrói democracia com mísseis de cruzeiro. Constrói-se vácuo. E o vácuo é sempre ocupado — nem sempre por moderados.

A responsabilidade moral

Não se trata de defender o regime iraniano. A teocracia instalada desde 1979 reprime opositores, limita liberdades e governa sob forte controle clerical. Mas reconhecer isso não obriga ninguém a aceitar que a solução seja o bombardeio.

Criticar o ataque não é endossar o regime. É defender um princípio: guerras iniciadas fora de mandato multilateral e durante negociações ativas enfraquecem o direito internacional.

Se o mundo aceitar que “ameaça potencial” justifica ataque preventivo, qualquer potência poderá invocar o mesmo argumento amanhã.

O espelho que a história oferece

Guerras começam quase sempre com discursos moralmente convincentes. Terminam com estatísticas de mortos, deslocados e órfãos.

Quando líderes dizem que “criarão condições para que o povo tome seu destino nas próprias mãos”, a história recomenda cautela. Raramente bombas estrangeiras produzem soberania popular.

O que se vê hoje é uma escalada cujo primeiro ato partiu de Washington e Tel Aviv. A reação iraniana, previsível, já começou.

O mundo entra numa fase de instabilidade cujo desfecho ninguém controla.

E, quando a poeira baixar, talvez reste apenas a pergunta que sempre chega tarde:

Valia a pena abandonar a mesa de negociação para apostar no barulho das explosões?

A Guerra Que Começa no Céu de Teerã

 

 

Quando as primeiras explosões rasgam o céu de Teerã, não é apenas o Irã que treme. É o mundo.

O ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã — confirmado pelo presidente Donald Trump e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — desmonta a narrativa confortável de que se tratava apenas de “pressão diplomática”. Quando mísseis substituem negociações, a diplomacia vira teatro.

E a pergunta que se impõe é objetiva: quem apertou o gatilho?

A cronologia da agressão

Havia negociações marcadas. Havia mediadores. Havia avanço, ainda que tímido. Segundo a própria Agência Internacional de Energia Atômica, o Irã mantinha urânio enriquecido a 60% — patamar perigoso, mas ainda distante do grau militar pleno. Havia espaço para pressão internacional, sanções, inspeções.

Mas Washington decidiu agir.

O argumento apresentado foi “ataque preventivo”. Essa expressão, repetida desde a invasão do Iraque em 2003, tornou-se uma espécie de senha moral para justificar ofensivas unilaterais. O problema é que o conceito de “prevenção” pode facilmente se transformar em licença para iniciar guerras.

Quando um país bombardeia o território de outro durante negociações em curso, a linha que separa defesa de agressão torna-se perigosamente tênue.

O silêncio seletivo

Durante meses, o mundo assistiu aos horrores em Gaza. A devastação, as mortes civis, a destruição de infraestrutura básica. Parte significativa da imprensa ocidental tratou aquilo como “resposta legítima”.

Agora, diante do bombardeio ao Irã, repete-se a moldura narrativa: “ameaça existencial”, “regime terrorista”, “autodefesa”.

A pergunta incômoda é inevitável: haverá o mesmo rigor crítico se o conflito escalar?

Se mísseis cruzarem fronteiras em direção a Tel Aviv?
Se bases americanas forem atingidas?
Se o estreito de Hormuz entrar em colapso e o petróleo disparar?

A coerência jornalística será testada quando o fogo atingir aliados do Ocidente.

O risco calculado — ou a imprudência histórica?

A história recente mostra que a remoção violenta de regimes no Oriente Médio raramente produz estabilidade. O Iraque mergulhou no caos. A Líbia fragmentou-se. A Síria tornou-se um tabuleiro de potências.

Se o líder supremo Ali Khamenei tiver sido neutralizado ou desestabilizado, o que virá depois?

Uma junta militar?
Uma guerra civil?
Ou uma radicalização ainda maior da Guarda Revolucionária?

Não se constrói democracia com mísseis de cruzeiro. Constrói-se vácuo. E o vácuo é sempre ocupado — nem sempre por moderados.

A responsabilidade moral

Não se trata de defender o regime iraniano. A teocracia instalada desde 1979 reprime opositores, limita liberdades e governa sob forte controle clerical. Mas reconhecer isso não obriga ninguém a aceitar que a solução seja o bombardeio.

Criticar o ataque não é endossar o regime. É defender um princípio: guerras iniciadas fora de mandato multilateral e durante negociações ativas enfraquecem o direito internacional.

Se o mundo aceitar que “ameaça potencial” justifica ataque preventivo, qualquer potência poderá invocar o mesmo argumento amanhã.

O espelho que a história oferece

Guerras começam quase sempre com discursos moralmente convincentes. Terminam com estatísticas de mortos, deslocados e órfãos.

Quando líderes dizem que “criarão condições para que o povo tome seu destino nas próprias mãos”, a história recomenda cautela. Raramente bombas estrangeiras produzem soberania popular.

O que se vê hoje é uma escalada cujo primeiro ato partiu de Washington e Tel Aviv. A reação iraniana, previsível, já começou.

O mundo entra numa fase de instabilidade cujo desfecho ninguém controla.

E, quando a poeira baixar, talvez reste apenas a pergunta que sempre chega tarde:

Valia a pena abandonar a mesa de negociação para apostar no barulho das explosões?

O que não volta — e o que permanece

 

Por Padre Carlos

 

Há uma dor silenciosa que só o tempo ensina.
Não é a dor do corpo. É a dor da consciência.

A parte mais difícil de envelhecer — e eu lhe digo isso quase em confidência, como quem sussurra ao ouvido do leitor numa tarde longa — é perceber que certos momentos não voltam. Não é que tenham acabado abruptamente. Eles simplesmente se afastaram, como barcos que partem sem fazer alarde.

Meus companheiros do seminário.
Amigos que eram mais que irmãos.
As conversas intermináveis que misturavam teologia, política, sonhos e absolutos.

Pareciam eternos.

Não eram.

Há uma ilusão generosa na juventude: acreditamos que o que é intenso é permanente. Que a amizade profunda não conhece erosão. Que as reuniões políticas que atravessam madrugadas são sementes de um mundo que veremos florescer juntos, daqui a cinquenta anos, na mesma mesa, rindo da própria ingenuidade.

Mas o tempo é um escultor paciente. E inevitável.

Ele nos molda. Nos separa. Nos redistribui pelo mundo.

Alguns amigos seguiram outros caminhos. Outros se perderam no ruído das urgências. Alguns permanecem, mas já não somos os mesmos. E não há tragédia nisso. Há verdade.

A maturidade é o aprendizado de que o “para sempre” quase nunca significa duração; significa intensidade.


E então vêm as lembranças mais delicadas.

As conversas com minhas filhas quando eram pequenas.
As perguntas que nasciam do nada — “Pai, o céu acaba?” — e exigiam respostas que misturavam ciência, poesia e afeto.
As brincadeiras no chão da sala, o riso que ecoava como sinos domésticos.

Hoje elas cresceram. Pensam por conta própria. Têm o mundo diante de si.

E eu percebo que aquela fase — tão exaustiva às vezes — era também um milagre cotidiano. Um milagre que passou.

Não volta.

Essa é a parte mais difícil.

Vivemos numa cultura que idolatra a juventude e finge que o tempo é um inimigo a ser combatido com filtros, cirurgias e negações. Mas a verdade é outra: envelhecer não é perder; é acumular camadas de humanidade.

O problema não é o tempo passar. O problema é achar que ele deve esperar por nós.


Há uma dimensão psicológica e existencial nisso que poucos têm coragem de admitir. A memória não é apenas um arquivo; é uma construção ativa de identidade. Estudos sobre envelhecimento saudável mostram que pessoas que cultivam narrativas coerentes sobre a própria história desenvolvem maior resiliência emocional. Não é nostalgia vazia. É integração.

Quando recordamos com gratidão — e não com amargura —, transformamos perda em sentido.

E aqui está o ponto de virada.

Porque não, nós não vivemos tudo de novo.
Mas carregamos tudo dentro de nós.

Cada conversa no seminário formou convicções.
Cada debate político moldou nossa compreensão do poder e da justiça.
Cada brincadeira com as filhas ensinou algo sobre amor incondicional.

Nada se perdeu. Transformou-se.

A memória não é um museu de coisas mortas. É uma usina de significado.


Há quem diga que a melhor fase da vida é a juventude. Discordo. A juventude é intensidade; a maturidade é consciência. A juventude vive; a maturidade compreende.

E compreender é um privilégio.

Envelhecer é olhar para trás e reconhecer que houve beleza — mesmo onde houve dor. É aceitar que não podemos repetir os capítulos, mas podemos reler suas lições. É abandonar a arrogância da permanência e abraçar a dignidade da transitoriedade.

Se me permite uma última confidência: o que realmente dói não é o que acabou. É o que não foi vivido por medo, orgulho ou distração.

Por isso, talvez o segredo não seja lutar contra o tempo, mas viver com mais presença. Dizer o que precisa ser dito. Abraçar demoradamente. Registrar mentalmente o que parece comum — porque um dia será extraordinário na lembrança.

O tempo não devolve momentos.

Mas nos concede memória.

E a memória, quando habitada com amor, é a forma mais humana de eternidade.

O que não volta — e o que permanece

 

Por Padre Carlos

 

Há uma dor silenciosa que só o tempo ensina.
Não é a dor do corpo. É a dor da consciência.

A parte mais difícil de envelhecer — e eu lhe digo isso quase em confidência, como quem sussurra ao ouvido do leitor numa tarde longa — é perceber que certos momentos não voltam. Não é que tenham acabado abruptamente. Eles simplesmente se afastaram, como barcos que partem sem fazer alarde.

Meus companheiros do seminário.
Amigos que eram mais que irmãos.
As conversas intermináveis que misturavam teologia, política, sonhos e absolutos.

Pareciam eternos.

Não eram.

Há uma ilusão generosa na juventude: acreditamos que o que é intenso é permanente. Que a amizade profunda não conhece erosão. Que as reuniões políticas que atravessam madrugadas são sementes de um mundo que veremos florescer juntos, daqui a cinquenta anos, na mesma mesa, rindo da própria ingenuidade.

Mas o tempo é um escultor paciente. E inevitável.

Ele nos molda. Nos separa. Nos redistribui pelo mundo.

Alguns amigos seguiram outros caminhos. Outros se perderam no ruído das urgências. Alguns permanecem, mas já não somos os mesmos. E não há tragédia nisso. Há verdade.

A maturidade é o aprendizado de que o “para sempre” quase nunca significa duração; significa intensidade.


E então vêm as lembranças mais delicadas.

As conversas com minhas filhas quando eram pequenas.
As perguntas que nasciam do nada — “Pai, o céu acaba?” — e exigiam respostas que misturavam ciência, poesia e afeto.
As brincadeiras no chão da sala, o riso que ecoava como sinos domésticos.

Hoje elas cresceram. Pensam por conta própria. Têm o mundo diante de si.

E eu percebo que aquela fase — tão exaustiva às vezes — era também um milagre cotidiano. Um milagre que passou.

Não volta.

Essa é a parte mais difícil.

Vivemos numa cultura que idolatra a juventude e finge que o tempo é um inimigo a ser combatido com filtros, cirurgias e negações. Mas a verdade é outra: envelhecer não é perder; é acumular camadas de humanidade.

O problema não é o tempo passar. O problema é achar que ele deve esperar por nós.


Há uma dimensão psicológica e existencial nisso que poucos têm coragem de admitir. A memória não é apenas um arquivo; é uma construção ativa de identidade. Estudos sobre envelhecimento saudável mostram que pessoas que cultivam narrativas coerentes sobre a própria história desenvolvem maior resiliência emocional. Não é nostalgia vazia. É integração.

Quando recordamos com gratidão — e não com amargura —, transformamos perda em sentido.

E aqui está o ponto de virada.

Porque não, nós não vivemos tudo de novo.
Mas carregamos tudo dentro de nós.

Cada conversa no seminário formou convicções.
Cada debate político moldou nossa compreensão do poder e da justiça.
Cada brincadeira com as filhas ensinou algo sobre amor incondicional.

Nada se perdeu. Transformou-se.

A memória não é um museu de coisas mortas. É uma usina de significado.


Há quem diga que a melhor fase da vida é a juventude. Discordo. A juventude é intensidade; a maturidade é consciência. A juventude vive; a maturidade compreende.

E compreender é um privilégio.

Envelhecer é olhar para trás e reconhecer que houve beleza — mesmo onde houve dor. É aceitar que não podemos repetir os capítulos, mas podemos reler suas lições. É abandonar a arrogância da permanência e abraçar a dignidade da transitoriedade.

Se me permite uma última confidência: o que realmente dói não é o que acabou. É o que não foi vivido por medo, orgulho ou distração.

Por isso, talvez o segredo não seja lutar contra o tempo, mas viver com mais presença. Dizer o que precisa ser dito. Abraçar demoradamente. Registrar mentalmente o que parece comum — porque um dia será extraordinário na lembrança.

O tempo não devolve momentos.

Mas nos concede memória.

E a memória, quando habitada com amor, é a forma mais humana de eternidade.

Bolsonaro Não Pode Fazer Campanha para Flávio de Dentro da Prisão

 

Há um princípio elementar que sustenta qualquer democracia digna desse nome: a lei vale para todos. Não para alguns. Não para os adversários. Não para os anônimos apenas. Para todos.

Se um cidadão está condenado e cumpre pena em estabelecimento prisional, ele é, juridicamente, um preso. E ponto. Não importa se foi presidente da República, líder partidário ou figura central do debate político nacional. A condição jurídica não se altera conforme o capital eleitoral do condenado.

No caso de Jair Bolsonaro, se está em cumprimento de pena, sua situação deve ser tratada exatamente como a de qualquer outro detento na Papuda. A prisão não é um detalhe administrativo; é uma consequência jurídica. E consequências jurídicas existem para produzir efeitos concretos.

A cadeia não pode se transformar em palanque.

Não se trata de censura. Trata-se de regime prisional. O Estado não pode permitir que alguém cumpra pena e, simultaneamente, atue politicamente como se estivesse em liberdade plena. O sistema de justiça não pode criar uma categoria inédita: a do “presidiário influenciador institucional”.

A execução penal tem regras. Elas visam assegurar direitos fundamentais — dignidade, integridade física, assistência jurídica — mas não garantem a manutenção da militância política ativa a partir da cela. Se visitas parlamentares se convertem em atos estratégicos, se manifestações públicas são articuladas como extensão de campanha, há um evidente desvirtuamento da finalidade da custódia.

O que está em jogo não é um nome. É o princípio republicano.

A República pressupõe igualdade perante a lei. Se um preso comum não pode convocar coletivas, organizar estratégias eleitorais ou transformar visitas em articulação partidária, não há justificativa constitucional para que outro, por mais popular que seja, possa fazê-lo.

A Justiça não pode hesitar por receio da repercussão política. Quando o Judiciário começa a modular a aplicação da lei conforme a temperatura das ruas ou o peso do sobrenome, a democracia adoece. O Estado de Direito não sobrevive à seletividade conveniente.

Há quem argumente que restringir articulações políticas seria violar direitos. Mas direitos não são absolutos. A própria pena implica restrições. A liberdade de locomoção é suspensa. A liberdade de agenda também sofre limitações. A execução penal não pode ser simbólica.

Permitir atividade política intensa de dentro da prisão cria um precedente perigoso: o de que a condenação não interrompe o protagonismo institucional. E isso mina a autoridade das decisões judiciais.

Se está preso, cumpre-se a pena.
Se cumpre pena, submete-se ao regime.
Se há regime, há limites.

Não é vingança. Não é perseguição. É coerência republicana.

A democracia brasileira já enfrentou muitos extremos. O que ela não pode admitir é a exceção personalizada. Nem para aliados. Nem para adversários.

A lei, quando vacila diante do poder político, deixa de ser lei. E passa a ser instrumento.

E a República, quando se dobra a privilégios, deixa de ser República.

Bolsonaro Não Pode Fazer Campanha para Flávio de Dentro da Prisão

 

Há um princípio elementar que sustenta qualquer democracia digna desse nome: a lei vale para todos. Não para alguns. Não para os adversários. Não para os anônimos apenas. Para todos.

Se um cidadão está condenado e cumpre pena em estabelecimento prisional, ele é, juridicamente, um preso. E ponto. Não importa se foi presidente da República, líder partidário ou figura central do debate político nacional. A condição jurídica não se altera conforme o capital eleitoral do condenado.

No caso de Jair Bolsonaro, se está em cumprimento de pena, sua situação deve ser tratada exatamente como a de qualquer outro detento na Papuda. A prisão não é um detalhe administrativo; é uma consequência jurídica. E consequências jurídicas existem para produzir efeitos concretos.

A cadeia não pode se transformar em palanque.

Não se trata de censura. Trata-se de regime prisional. O Estado não pode permitir que alguém cumpra pena e, simultaneamente, atue politicamente como se estivesse em liberdade plena. O sistema de justiça não pode criar uma categoria inédita: a do “presidiário influenciador institucional”.

A execução penal tem regras. Elas visam assegurar direitos fundamentais — dignidade, integridade física, assistência jurídica — mas não garantem a manutenção da militância política ativa a partir da cela. Se visitas parlamentares se convertem em atos estratégicos, se manifestações públicas são articuladas como extensão de campanha, há um evidente desvirtuamento da finalidade da custódia.

O que está em jogo não é um nome. É o princípio republicano.

A República pressupõe igualdade perante a lei. Se um preso comum não pode convocar coletivas, organizar estratégias eleitorais ou transformar visitas em articulação partidária, não há justificativa constitucional para que outro, por mais popular que seja, possa fazê-lo.

A Justiça não pode hesitar por receio da repercussão política. Quando o Judiciário começa a modular a aplicação da lei conforme a temperatura das ruas ou o peso do sobrenome, a democracia adoece. O Estado de Direito não sobrevive à seletividade conveniente.

Há quem argumente que restringir articulações políticas seria violar direitos. Mas direitos não são absolutos. A própria pena implica restrições. A liberdade de locomoção é suspensa. A liberdade de agenda também sofre limitações. A execução penal não pode ser simbólica.

Permitir atividade política intensa de dentro da prisão cria um precedente perigoso: o de que a condenação não interrompe o protagonismo institucional. E isso mina a autoridade das decisões judiciais.

Se está preso, cumpre-se a pena.
Se cumpre pena, submete-se ao regime.
Se há regime, há limites.

Não é vingança. Não é perseguição. É coerência republicana.

A democracia brasileira já enfrentou muitos extremos. O que ela não pode admitir é a exceção personalizada. Nem para aliados. Nem para adversários.

A lei, quando vacila diante do poder político, deixa de ser lei. E passa a ser instrumento.

E a República, quando se dobra a privilégios, deixa de ser República.