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O AMOR: ESSE MISTÉRIO QUE NOS MATA SEM QUE NINGUÉM VEJA

Reflexão · Literatura · Vida

Padre Carlos

Há sentimentos que a razão não consegue explicar, palavras que não conseguem traduzir e experiências que a memória jamais consegue apagar. O amor é uma delas. Talvez por isso Luís de Camões, um dos maiores poetas da língua portuguesa, tenha conseguido expressar em poucos versos aquilo que milhões de pessoas experimentam durante toda uma vida:

“Amor um mal, que mata e não se vê.
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.”
— Luís de Camões

Camões parece ter descoberto um dos maiores paradoxos da existência humana: o amor é uma ferida que não sangra, uma doença que não aparece nos exames, uma inquietação que não encontra repouso e uma saudade que, muitas vezes, não sabe sequer de quem sente falta.

Um sentimento que não pede licença

O mais extraordinário é que o amor não pede licença para chegar. Não anuncia sua presença, não consulta nossa razão, não pergunta se estamos preparados. Simplesmente acontece. Nasce de um olhar, de uma palavra, de um gesto aparentemente insignificante. Às vezes, começa numa conversa despretensiosa; outras, numa amizade que, sem percebermos, começa a ocupar um espaço que antes estava vazio.

E quando percebemos, já não somos inteiramente donos de nós mesmos.

O amor tem essa capacidade quase inexplicável de modificar nossa relação com o mundo. Uma música passa a ter outro significado. Uma rua se transforma em lembrança. Um perfume nos transporta para um instante que julgávamos esquecido. O tempo, que antes obedecia ao relógio, passa a obedecer à espera. Cinco minutos longe de quem amamos podem parecer uma eternidade, enquanto uma noite inteira ao lado dessa pessoa parece terminar num instante.

A outra face do amor

Mas Camões também nos apresenta a outra face desse sentimento. O amor não é apenas encontro, encantamento e felicidade. É também medo, insegurança, ausência e sofrimento. Quem ama conhece a alegria de encontrar e a tristeza de partir; a felicidade de ser correspondido e a angústia de não saber se ainda ocupa o mesmo lugar no coração do outro.

Talvez seja justamente aí que esteja sua maior contradição: desejamos amar, mas temos medo de sofrer. Queremos entregar o coração, mas tentamos protegê-lo. Procuramos alguém com quem dividir a vida, mas carregamos as cicatrizes de experiências anteriores. E, mesmo depois de tantas decepções, continuamos acreditando que ainda existe alguém capaz de despertar em nós aquilo que julgávamos perdido.

O que desafia a razão

O amor também nos desarma. Diante dele, o homem que se julgava forte descobre sua fragilidade. A pessoa que acreditava ter todas as respostas passa a conviver com perguntas sem solução. Podemos dominar conhecimentos, construir impérios, conquistar posições e acumular riquezas, mas não existe poder humano capaz de determinar de quem nosso coração vai se aproximar.

É por isso que o amor desafia a razão. Não porque seja contrário à inteligência, mas porque pertence a uma dimensão da experiência humana que não cabe inteiramente nas explicações lógicas. A psicologia pode investigar seus mecanismos, a biologia pode estudar suas reações, a filosofia pode discutir sua natureza e a poesia pode tentar traduzi-lo. Ainda assim, permanece alguma coisa inexplicável.

E talvez seja melhor assim.

Se o amor pudesse ser inteiramente explicado, calculado e controlado, perderia parte de seu encantamento. Não haveria surpresa no encontro, mistério no olhar, ansiedade na espera ou aquela felicidade quase infantil de descobrir que alguém também pensou em nós.

Amar sem possuir

O problema é que, muitas vezes, confundimos amor com posse, desejo com eternidade e paixão com compromisso. Queremos que o outro seja a resposta para todas as nossas carências, esquecendo que ninguém pode carregar sozinho o peso da felicidade de outra pessoa. Amar também é respeitar, compreender, aceitar diferenças e reconhecer que o outro não nos pertence.

Para guardar

Talvez o amor mais bonito não seja aquele que nunca provoca lágrimas, mas aquele que, mesmo diante das dificuldades, não transforma a dor em crueldade, a saudade em ressentimento ou a convivência em prisão.

Um sentimento que não envelhece

No fundo, Camões continua falando conosco porque o amor não envelhece. Mudam os costumes, as gerações, as tecnologias e as formas de relacionamento, mas permanece a mesma inquietação humana diante desse sentimento que chega sem explicação e, muitas vezes, parte sem despedida.

Há pessoas que passam por nossa vida e deixam lembranças. Outras permanecem mesmo depois de terem partido. Algumas nos ensinam a felicidade; outras nos ensinam a dor. E existem aquelas que, mesmo sem saber, modificam para sempre a maneira como olhamos o mundo.

Talvez seja isso que Camões tenha tentado nos dizer: o amor é esse mistério que não sabemos de onde vem, não conseguimos explicar como acontece e, quando nos atravessa, descobrimos que também não sabemos por que dói tanto.

Mas, apesar de tudo, continuamos amando.

Porque, no fim das contas, talvez a maior tragédia não seja sofrer por amor. Talvez seja atravessar a existência sem nunca ter experimentado a extraordinária aventura de amar e ser amado.

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Padre Carlos — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha