Política e Resenha

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Quem me conhece das antigas sabe que eu já morri uma vez

Crônica

Crônica sobre as mortes silenciosas, as partidas sem despedida e os retornos em que a gente já não é exatamente quem foi.

Quem me conhece das antigas sabe que eu já morri uma vez. O curioso é que ninguém percebeu. Não houve tiro, sirene, velório ou coroa de flores. Nenhum anúncio, nenhuma notícia, nenhum vizinho cochichando na calçada. A vida continuou do lado de fora, os ônibus passaram, as pessoas foram trabalhar, o café esfriou nas xícaras e o mundo, indiferente à minha tragédia particular, seguiu cumprindo seus horários.

Mas eu morri.

Morri por dentro, que é uma maneira discreta de morrer e, talvez por isso mesmo, uma das mais solitárias. Não escorreu sangue. Escorreram lágrimas. Daquelas que a gente seca depressa, com a manga da camisa ou com as costas da mão, antes que alguém veja e imagine ter o direito de perguntar alguma coisa. Porque existem dores que não suportam testemunhas. Não por vergonha, mas porque nem sempre encontramos palavras capazes de explicar o que aconteceu conosco.

Há sofrimentos que, quando pronunciados, parecem menores do que realmente são. E há outros que, se a gente começar a contar, não sabe onde vai encontrar forças para terminar.

Uma terça-feira qualquer

Eu fui embora de mim numa terça-feira qualquer.

Não era feriado, não havia nada de extraordinário no calendário. O dia amanheceu como tantos outros, com aquela luz sem entusiasmo que entra pela janela e encontra a casa ainda adormecida. Dobrei minhas roupas, ajeitei algumas coisas numa sacola e fui me despedindo, em silêncio, da vida que conhecia até então.

É engraçado como certas despedidas não precisam de plateia. A gente não bate a porta, não faz discurso, não ameaça voltar. Apenas recolhe o que pode carregar e deixa para trás aquilo que já não consegue suportar.

Naquela terça-feira, eu não levava muita coisa. Algumas roupas, pequenos objetos e uma porção de lembranças que, infelizmente, não cabiam em sacola nenhuma. Essas são as mais pesadas. A gente pode abandonar uma casa, trocar de cidade, mudar de endereço, mas não existe mudança capaz de despachar a memória para outro lugar.

Parti num dia frio, talvez para não me lembrar da praia. Há lugares que continuam existindo dentro da gente muito depois de termos ido embora deles. O mar, por exemplo, tem essa mania de permanecer. A gente se afasta da areia, mas o barulho das ondas continua batendo em alguma praia escondida da memória.

Fui com o rosto desprovido de alegria, uma expressão quase indiferente, como quem acaba de ouvir uma piada sem graça e não encontra disposição nem para fingir um sorriso. Quem olhasse de fora talvez pensasse que eu estava apenas viajando, resolvendo algum problema, começando uma nova etapa.

Ninguém imaginava que eu estava tentando escapar de mim mesmo.

E essa é uma das maiores dificuldades da existência: podemos mudar de paisagem sem mudar de tristeza. Podemos atravessar cidades, estados, fronteiras e oceanos, mas há um passageiro que não perde a viagem. Vai conosco, sentado ao nosso lado, quieto, olhando pela janela. Às vezes, até parece dormir. Mas basta a estrada ficar silenciosa para que ele desperte.

Naquela época, eu ainda não sabia que algumas partidas não nos levam necessariamente a algum lugar. Às vezes, a gente parte apenas para sobreviver àquilo que ficou. Outras vezes, parte porque já não reconhece a própria voz, porque o espelho devolve um rosto conhecido, mas os olhos parecem pertencer a um desconhecido.

E há momentos em que ir embora não é coragem nem covardia. É simplesmente a última maneira que encontramos de continuar respirando.

Os anos passaram

Passaram sem pedir licença, como passam os anos de todo mundo. Houve dias bons, dias ruins, encontros, desencontros e aquela sucessão de pequenas obrigações que nos mantém ocupados o suficiente para não pensarmos demais. Aprendi a conviver com a ausência de certas coisas. Aprendi a responder que estava tudo bem quando não havia disposição para explicar. Aprendi, sobretudo, que o silêncio também pode se tornar um hábito.

Décadas depois, voltei.

Voltei como quem retorna do supermercado, sem solenidade, sem música de fundo, sem a sensação de que alguma coisa extraordinária estava acontecendo. O mundo não parou para me receber. Não havia uma multidão à espera, nem braços abertos em todas as esquinas, nem uma placa dizendo que eu finalmente havia chegado.

Era apenas eu, de volta.

Ou o que restava de mim.

Um saco cheio de nada

Trazia comigo um saco cheio de nada.

Nada de extraordinário, nada que pudesse ser mostrado, exibido ou transformado em história de superação. Não havia troféus, respostas definitivas ou grandes revelações. O tempo não me entregara um manual de instruções para a vida, tampouco me devolvera intacto aquilo que eu havia perdido.

Algumas coisas tinham mudado. Outras permaneciam assustadoramente iguais. Os lugares guardavam suas marcas, as pessoas carregavam suas próprias histórias e o passado, esse sujeito inconveniente, continuava sentado num canto, como se nunca tivesse saído dali.

Foi então que compreendi uma coisa que talvez devesse ter aprendido muito antes: a gente nunca volta exatamente para o lugar de onde partiu, porque o lugar também mudou — e nós mudamos ainda mais.

A casa pode continuar de pé, mas já não é a mesma casa. A rua pode conservar o nome, mas os passos que a percorrem são outros. A praia pode continuar recebendo o mesmo mar, mas aquele que um dia caminhou descalço pela areia já não existe da mesma maneira.

O tempo não apenas passa. Ele nos modifica enquanto passa.

E talvez seja essa a parte mais estranha de envelhecer: descobrir que a vida não nos devolve tudo aquilo que levamos dela. Algumas pessoas ficam pelo caminho. Certos sonhos perdem o endereço. Há fotografias que se tornam documentos de uma existência que parece ter pertencido a outra pessoa.

Às vezes, olho para trás e tenho a impressão de que aquele homem que partiu naquela terça-feira ficou esperando por mim em algum lugar. Talvez ainda esteja lá, com sua sacola de roupas, o rosto triste e a esperança quase imperceptível de que a mudança de cenário resolva aquilo que o mundo não conseguiu consertar.

Gostaria de encontrá-lo.

Não para lhe dar conselhos. A juventude raramente escuta os conselhos de quem já envelheceu, e a dor, quando está instalada, não aceita recomendações com facilidade. Eu me sentaria ao lado dele, apenas isso. Talvez lhe oferecesse um café. Talvez ficasse em silêncio, respeitando a tristeza que ele ainda não sabia explicar.

E, antes de partir, diria baixinho:

— Você vai sobreviver. Mas não voltará a ser exatamente quem era.

Não sei se ele compreenderia. Naquela época, eu também não compreenderia.

Cicatrizes não são medalhas

Hoje, quando alguém me pergunta sobre o passado, não tenho vontade de transformar minhas cicatrizes em medalhas. Não considero toda dor uma lição, nem acredito que o sofrimento seja uma espécie de investimento que um dia nos dará algum retorno. Há dores que apenas doem. Há perdas que não precisam ser justificadas por um aprendizado posterior.

Nem tudo o que nos acontece tem uma explicação bonita.

Às vezes, o máximo que conseguimos fazer é continuar. Levantar, tomar banho, vestir uma roupa, abrir a janela e aceitar que mais um dia começou. E isso, embora pareça pouco para quem observa de fora, pode representar uma imensa travessia para quem precisou reconstruir a própria existência.

Talvez seja por isso que eu tenha voltado sem grandes anúncios. Não havia nada a provar. A vida, afinal, não é uma competição na qual precisamos apresentar resultados a cada etapa vencida. Ninguém é obrigado a transformar o próprio sofrimento numa narrativa inspiradora para satisfazer a curiosidade alheia.

Há sobrevivências que merecem apenas respeito.

E há retornos que acontecem sem aplausos, sem testemunhas e sem que o próprio viajante consiga explicar direito como chegou até ali.

Ainda aqui

Quem me conhece das antigas sabe que eu já morri uma vez.

Hoje, quando digo isso, não estou falando de uma morte que se registra em certidão. Falo daquela morte que não interrompe o coração, mas altera o significado de quase tudo. Daquela que nos faz abandonar uma versão de nós mesmos sem saber se haverá outra no lugar.

Morri naquela terça-feira. E, durante muito tempo, ninguém percebeu. Talvez porque eu continuasse andando, conversando, cumprindo compromissos e respondendo às perguntas de sempre. Aprendi que uma pessoa pode continuar presente em todos os lugares e, ainda assim, estar ausente de si mesma.

Depois, décadas mais tarde, voltei.

Não sei se ressuscitei ou se apenas aprendi a conviver com os meus próprios escombros. Talvez a diferença nem seja tão importante. O que sei é que já não tenho a mesma pressa de antes, nem a necessidade de explicar todas as minhas ausências.

Carrego menos certezas e algumas saudades que o tempo não conseguiu domesticar.

E continuo aqui.

Não exatamente inteiro, não exatamente novo, mas aqui.

Às vezes, isso precisa bastar.

Porque a vida não exige que voltemos intactos. Exige, quando muito, que encontremos alguma maneira de continuar, mesmo depois de termos deixado partes de nós pelo caminho.

E, se alguém me perguntar o que trouxe na bagagem depois de tantos anos, responderei com a sinceridade de quem já não precisa enfeitar a própria história:

Um saco cheio de nada.

Mas, desta vez, aprendi a carregá-lo.

E descobri que, depois de certas mortes, o milagre não é voltar a ser quem fomos. É conseguir olhar para o espelho, reconhecer o desconhecido que nos olha de volta e, apesar de tudo, convidá-lo a continuar vivendo.

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Escrito por

Padre Carlos

Cronista de partidas, retornos e silêncios.