Política e Resenha

O céu é o limite para Rui? Ou a nuvem da indefinição já turva seu caminho?

 

 

Por Padre Carlos

Quando José Dirceu — uma das vozes mais emblemáticas do petismo histórico — aponta Rui Costa como um possível herdeiro político de Lula em 2030, o gesto parece ter sido calculado. Mas o efeito foi, no mínimo, desconcertante. De imediato, Rui, que até então navegava em águas técnicas e discretas na Casa Civil, passou a balançar a bússola de seu discurso. Começou a mirar o futuro com ambição, mas sem direção clara. O resultado? Um petista que hoje parece não saber se é administrador ou aspirante a ungido.

A fala de Dirceu foi um gesto de peso. Não se trata de uma declaração casual. Zé Dirceu, apesar de todo o desgaste político, ainda representa uma espécie de oráculo para parte do PT. Quando ele aponta um nome, há um recado cifrado: “Este pode ser o projeto pós-Lula.” Mas nem todos os nomes aguentam a força de um holofote tão antecipado.

Rui Costa, que fez uma gestão reconhecidamente eficiente na Bahia e assumiu um papel estratégico no governo Lula, vinha até então se equilibrando no perfil de técnico com pedigree político. Era o homem do Excel com DNA petista. A indicação como possível sucessor o empurrou para um território mais nebuloso: o da vaidade e da expectativa. Desde então, seu discurso ficou errático, ora negando pretensões, ora insinuando horizontes, ora se perdendo em generalidades. O baiano que costumava falar com firmeza agora hesita. E no teatro da política, hesitação cobra caro.

Pior: ao sentir-se cotado como o “favorito de Dirceu”, Rui passou a acreditar que o céu é o limite. Só que no Brasil, o céu político é turbulento. A trajetória que leva à sucessão de Lula não será pavimentada com elogios de bastidor nem com gestos simbólicos de aliados históricos. Será, como sempre, uma trilha de disputa interna, embates ideológicos e capacidade de empolgar o povo. E Rui ainda não mostrou que sabe fazer política fora do script técnico.

Além disso, há outros nomes com mais carisma, mais apoio orgânico e mais histórico de militância em palanques decisivos. Fernando Haddad segue como um nome central na elite petista, mesmo com as dificuldades econômicas. Camilo Santana tem apelo no Nordeste e experiência executiva. Jaques Wagner é nome tradicional. Rui, por ora, é um nome com potencial — mas ainda sem identidade nacional.

É compreensível que Rui tenha se encantado com a perspectiva. A política, afinal, seduz. Mas quem se lança a voos mais altos precisa, antes, alinhar sua narrativa com o chão que pisa. A dúvida hoje é: Rui quer mesmo ser o sucessor de Lula ou está apenas jogando com a possibilidade? Se quiser, precisará muito mais do que a bênção de Dirceu. Terá que mostrar ideias, empatia popular e sobretudo coragem de se posicionar, sem escorregar para o velho discurso do “gestor eficiente”.

Porque quem ambiciona o céu, precisa primeiro fincar o pé com firmeza na terra. E Rui ainda parece voando sem mapa.