Padre Carlos
Há uma velha frase de Caetano Veloso que parece ter sido escrita para certos personagens da política brasileira: “Narciso acha feio o que não é espelho.”
Ela nunca pareceu tão atual quanto diante das recentes declarações de Ciro Gomes.
Ao afirmar que Lula e Bolsonaro são “rigorosamente iguais”, mudando apenas a estética, Ciro volta a ocupar o papel que desempenha há anos: o de crítico universal da política brasileira, convencido de que somente ele encontrou o caminho da salvação nacional. O problema não é criticar. A crítica faz parte da democracia. O problema é transformar a própria opinião em verdade absoluta, ignorando as circunstâncias concretas que moldam a política.
Existe, sim, um ponto em que Ciro toca numa discussão relevante.
É verdade que muitos fundamentos da política econômica brasileira atravessaram governos de diferentes orientações ideológicas. Câmbio flutuante, metas de inflação, responsabilidade fiscal, autonomia crescente do Banco Central e outras estruturas permaneceram, com diferentes graus de intensidade, ao longo de sucessivos governos. Essa continuidade institucional é um fato conhecido por economistas e cientistas políticos.
Mas daí concluir que todos os governos são iguais existe uma enorme distância.
A política não é feita apenas de ideias. É feita, sobretudo, de correlação de forças.
Nenhum presidente governa sozinho.
O presidencialismo brasileiro obriga qualquer governo a construir maioria no Congresso Nacional. Sem ela, reformas profundas simplesmente não acontecem. Não basta ter um bom projeto. É preciso ter votos suficientes para aprová-lo.
É justamente aí que a crítica de Ciro perde consistência.
Se Lula não conseguiu alterar profundamente determinadas estruturas econômicas, isso também decorre da composição do Congresso. E seria diferente com Ciro?
A pergunta permanece sem resposta convincente.
Se eleito presidente, Ciro enfrentaria exatamente o mesmo Parlamento. Teria de negociar com os mesmos partidos. Precisaria conversar com o mesmo Centrão.
E surge a contradição.
Se recusasse qualquer negociação, não aprovaria nenhuma grande reforma.
Se aceitasse negociar, faria exatamente aquilo que critica nos demais.
A matemática da política não muda conforme a vontade do governante.
Outro aspecto chama atenção.
Ciro rejeita apoiar um eventual candidato presidencial do PL, mas aceita o apoio dos bolsonaristas em sua candidatura ao governo do Ceará.
Segundo ele, trata-se apenas de uma aliança regional, sem repercussão nacional.
Pode até ser uma justificativa politicamente válida.
Mas ela produz uma evidente incoerência discursiva.
Se o bolsonarismo representa um projeto incompatível com seus princípios no plano nacional, por que deixa de sê-lo quando o objetivo é vencer uma eleição estadual?
Os mesmos atores políticos que seriam inaceitáveis em Brasília tornam-se parceiros aceitáveis em Fortaleza.
Na política, coerência também é um patrimônio.
E o eleitor costuma perceber quando os discursos mudam conforme a conveniência.
Ciro continua sendo um dos políticos mais preparados intelectualmente do país. Poucos dominam números, economia e administração pública com a desenvoltura que ele demonstra. Sua capacidade de formular diagnósticos permanece admirável.
Entretanto, inteligência não substitui viabilidade política.
Projetos grandiosos precisam sobreviver ao teste da realidade institucional.
A democracia brasileira não funciona pela vontade isolada de um líder, por mais brilhante que ele seja.
Ela depende de negociações, alianças, concessões e construção de maiorias.
Talvez seja justamente essa a maior dificuldade de Ciro Gomes.
Ele parece acreditar que, se todos compreendessem suas ideias, naturalmente o país seguiria seu caminho.
Mas a democracia não é o governo da melhor tese.
É o governo da maioria possível.
Enquanto enxergar todos os outros como reflexos imperfeitos diante do espelho onde contempla a própria convicção, Ciro continuará produzindo excelentes discursos e poucas vitórias eleitorais.
Porque, no fim das contas, a política raramente recompensa quem acredita ser o único dono da verdade.
E talvez Caetano continue tendo razão.
Há quem passe a vida inteira olhando para o espelho e termine convencido de que todo o resto do mundo está fora de foco.





