Por Padre Carlos
Em tempos em que a política muitas vezes se confunde com vaidade, marketing pessoal e disputa por protagonismo, torna-se cada vez mais raro encontrar gestos que revelem aquilo que os antigos chamavam de espírito republicano. Esse espírito não se mede pelo volume das palavras nem pelo brilho das manchetes, mas pela capacidade de colocar o projeto coletivo acima das ambições individuais.
Foi exatamente essa postura que emergiu nas recentes declarações da prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, ao comentar as articulações políticas da oposição baiana para as eleições de 2026.
Em vez de antecipar disputas internas ou apresentar-se como protagonista natural do processo, Sheila preferiu algo cada vez mais raro na política brasileira: a prudência da construção coletiva.
Quando questionada sobre nomes que circulam nas conversas do grupo — como o de Zé Cocá — sua resposta foi direta, sem alimentar vaidades nem abrir fissuras desnecessárias:
“É um bom nome! Na verdade Zé Cocá é da nossa base, porque é PP. Mas se ele realmente continuar no PP, continuar na nossa base…existe vários nomes que agrega muito, o nome de José Ronaldo, como o nome dos ex-prefeitos, como Zito Barbosa, como a ex-prefeita de Juazeiro. Então é um grupo que a gente precisa trabalhar unido para mudar a Bahia.”
Há algo profundamente republicano nessa fala.
Primeiro, porque ela reconhece a legitimidade de diversas lideranças. Segundo, porque reafirma que a política não deve girar em torno de um único nome, mas de um projeto capaz de reunir forças diferentes em torno de um objetivo comum.
Num cenário político frequentemente marcado por disputas de egos, a prefeita de Conquista sinaliza uma compreensão madura da política: eleições não se vencem apenas com nomes fortes, mas com grupos sólidos.
E talvez tenha sido justamente por essa postura que o nome de Sheila passou a ser citado, nos bastidores, como uma possível candidata a vice-governadora em uma chapa liderada por ACM Neto.
O paradoxo da política é curioso: muitas vezes, quem não busca o protagonismo acaba sendo lembrado exatamente por isso.
Não porque tenha feito campanha para si mesma, mas porque demonstrou algo que a política precisa desesperadamente recuperar: a capacidade de construir pontes.
Ao mencionar lideranças como José Ronaldo, Zito Barbosa e outras figuras importantes do campo oposicionista, Sheila não desenha uma corrida de cavalos. Em vez disso, ela esboça algo mais amplo: um tabuleiro coletivo onde cada peça tem seu valor.
E é exatamente assim que se constrói um projeto político duradouro.
Grandes transformações não nascem de personalismos. Elas nascem da convergência de lideranças que compreendem que ninguém governa sozinho um estado do tamanho e da complexidade da Bahia.
Por isso, quando Sheila afirma que “o nome nesse momento não é o que mais importa”, ela toca num ponto essencial da política republicana: a prioridade deve ser o projeto e não o cargo.
A Bahia atravessa um momento em que diferentes grupos políticos discutem caminhos, alianças e estratégias para o futuro. Nesse cenário, a oposição tenta reorganizar suas forças em torno de uma proposta capaz de dialogar com o sentimento de mudança presente em parte da sociedade.
Se esse projeto terá sucesso ou não, só o tempo dirá.
Mas uma coisa já é visível: a política ganha em qualidade quando lideranças colocam o coletivo acima do individual.
Porque, no fim das contas, a verdadeira liderança não é aquela que grita mais alto ou aparece mais nas fotografias.
A verdadeira liderança é aquela que sabe que o poder só tem sentido quando serve para construir algo maior do que a própria biografia.
E talvez seja exatamente esse o sinal mais claro de espírito republicano:
quando alguém prefere fortalecer o grupo em vez de fortalecer apenas o próprio nome.





