
O que está em curso na Bahia não é apenas uma disputa eleitoral antecipada, tampouco uma simples avaliação de governo. O que se desenha, com nitidez crescente, é uma operação política clássica: o golpe silencioso, progressivo e midiaticamente bem embalado contra o governador Jerônimo Rodrigues. E como todo golpe moderno, ele não vem com tanques nas ruas, mas com números, narrativas e pesquisas estrategicamente posicionadas.
A partir de agora, prepare-se: uma enxurrada de levantamentos vai surgir colocando Jerônimo com altos índices de rejeição, acompanhados de análises “técnicas” que repetirão, quase como um mantra, que o PT corre o risco de perder a hegemonia na Bahia. Não é coincidência. É método. É roteiro conhecido. É manual de desgaste político.
A Bahia, há quase duas décadas, é um dos principais redutos do Partido dos Trabalhadores. Essa hegemonia incomoda setores econômicos, parte da elite política local e interesses nacionais que nunca aceitaram plenamente o protagonismo petista no estado. Jerônimo, por não ser uma figura midiática, carismática nos moldes tradicionais ou oriunda das velhas oligarquias, tornou-se o alvo ideal. Ele simboliza a continuidade de um projeto, mas sem os vícios do personalismo.
Diante desse cenário, o PT reage como pode e como sabe: reforçando a associação entre Jerônimo e Lula. Não se trata apenas de estratégia eleitoral, mas de sobrevivência política. Lula continua sendo o maior ativo simbólico do partido na Bahia, um líder com capital popular, memória afetiva e força histórica. A presença do presidente ao lado do governador, como na visita a Salvador para o início das obras de ampliação do metrô até o Campo Grande, é mais do que um ato administrativo. É um gesto político calculado, uma mensagem clara ao eleitorado.
Mas é preciso dizer a verdade inteira. O cenário de 2026 não é o de 2022. Lula enfrenta hoje uma oposição mais agressiva, um Congresso hostil e uma máquina de desinformação ainda mais sofisticada. Jerônimo, por sua vez, governa em meio a crises estruturais profundas: segurança pública fragilizada, sistema de saúde pressionado e problemas históricos de mobilidade urbana. Nenhum governador resolve isso em dois anos, mas a narrativa ignora o tempo, o contexto e a herança recebida.
Quando pesquisas apontam que 56% dos eleitores rejeitam um segundo mandato de Jerônimo, é preciso perguntar: rejeitam o quê exatamente? O governador real ou a imagem construída diariamente por manchetes, recortes seletivos e análises interessadas? Rejeitam a gestão ou o projeto político que ela representa?
Nos bastidores, a movimentação é intensa. Setores ligados a Rui Costa trabalham discretamente para reposicionar o ex-governador como alternativa “segura”, “experiente” e “mais palatável” a determinados interesses. Rui, de fato, mantém influência e aprovação. Mas transformar isso em solução mágica é ignorar que o ataque não é pessoal. O alvo é o PT enquanto força hegemônica. Hoje é Jerônimo. Amanhã será qualquer outro que sustente esse campo político.
A hipótese de acomodar Jerônimo em um eventual segundo governo Lula, caso haja mudança de rota, revela mais do que uma estratégia interna: mostra que o partido sabe que está diante de uma ofensiva coordenada e tenta minimizar danos. O risco não é apenas perder o governo da Bahia. É fragilizar um dos pilares eleitorais do campo progressista no Brasil.
O golpe contra Jerônimo não precisa vencer nas urnas para ser eficaz. Basta semear dúvida, dividir o partido, desgastar a imagem e criar a sensação de fim de ciclo. É assim que se derruba projetos políticos hoje. Sem ruptura institucional, mas com eficiência cirúrgica.
A pergunta que fica é simples e incômoda: o PT aprenderá a ler o jogo antes que seja tarde ou continuará reagindo quando o dano já estiver consolidado? Na política, quem controla a narrativa controla o destino. E, neste momento, a narrativa está sendo disputada palmo a palmo na Bahia.
(Padre Carlos)




