
Por Padre Carlos
O cenário político da Bahia, historicamente conhecido por suas alianças de longa maturação e lealdades de “fio de bigode”, assiste hoje a uma cena que mistura o realismo maquiavélico com o pragmatismo mais gélido. O protagonista da vez é o senador Otto Alencar (PSD). Ao sinalizar que a fidelidade de seu partido ao projeto do PT independe da sorte política de seu “compadre”, o também senador Angelo Coronel, Otto não apenas altera a temperatura da sucessão estadual; ele redefine as regras de sobrevivência no tabuleiro baiano.
Até pouco tempo, o discurso era de unidade inegociável. Otto Alencar agia como o fiador de Coronel, invocando o princípio da reciprocidade: se o governador Jerônimo Rodrigues tem o direito natural à reeleição, por que o mesmo não se aplicaria a quem ocupa uma das cadeiras no Senado? Era uma narrativa de justiça política. No entanto, o tom mudou. O recado público de que o PSD marchará com o PT mesmo com Coronel “rifado” é o equivalente político a retirar a escada de um aliado enquanto ele ainda tenta pintar o teto.
A estratégia petista de buscar uma “chapa puro-sangue” — com Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner — não é novidade para quem acompanha os bastidores do Centro Administrativo da Bahia (CAB). O que causa espécie é a velocidade, ou melhor, a “lentidão homeopática” com que o processo de fritura vem sendo conduzido. Como bem apontam integrantes do PSD, o filme parece um remake do episódio João Leão em 2022. A diferença é que, com o Progressistas, o rompimento foi um choque agudo; com Coronel, assistimos a uma agonia lenta, um isolamento planejado nos laboratórios petistas que conta agora com a complacência, se não o aval silencioso, de seu principal líder partidário.
Dentro do PSD, o clima é de um “murmúrio ensurdecedor”. Parlamentares da legenda, protegidos pelo anonimato, já percebem que a fatura está sendo liquidada. A irritação não é apenas com a voracidade do PT em monopolizar as posições de destaque, mas com a postura de Otto Alencar. Ao não sair em defesa intransigente do aliado de décadas, Otto envia um sinal claro aos seus liderados: no altar do poder e da manutenção de espaços na máquina estadual, nenhum pescoço é sagrado demais para não ser sacrificado.
É uma manobra de alto risco. Se por um lado Otto garante a continuidade da influência do PSD junto ao governo Jerônimo, por outro, abre uma ferida na confiança interna da sigla. A política, para além dos cargos, vive de símbolos. Ver um “compadre” ser deixado pelo caminho em nome de uma composição que privilegia apenas o núcleo duro do PT pode gerar um efeito de desânimo na militância e nas bases do PSD, que se veem como coadjuvantes de luxo em um projeto que eles mesmos ajudaram a sustentar.
O PT, mestre na arte da hegemonia, joga o seu jogo. Sabe que o PSD tem muito a perder se desembarcar do governo agora. Otto Alencar, por sua vez, mostra que seu instinto de preservação é maior do que qualquer laço afetivo ou promessa de ontem. Enquanto isso, Angelo Coronel assiste ao fechamento das portas com a lucidez de quem sabe que, na política, o beijo da despedida muitas vezes vem de quem mais confiamos.
Resta saber se essa “chapa puro-sangue” terá a força necessária para enfrentar o teste das urnas sem as fissuras que um aliado ferido pode causar. Por enquanto, o que se vê na Bahia é a vitória da conveniência sobre a lealdade. Uma aula de Realpolitik que, embora eficiente, deixa um rastro de ressentimento que a história costuma cobrar com juros.




